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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A MINHA MÁQUINA DO MUNDO


Relanceio o relógio, distraída. 17:17. Opa!
Então encaro, estupidificada. Pela primeira vez, não sei o que pedir.
Trata-se do seguinte, explico: se você olhar para o relógio e ter a sorte de encontrar os mesmos números na casa das horas e dos minutos, é o universo que está sendo bondoso e te dando a chance de pedir qualquer coisa que você queira na vida, bem ali, naquele momento. Não há dúvidas quanto à realização do pedido. O método é infalível. Mas existem variações de sua aplicabilidade.
Por exemplo: para alguns, as horas siamesas são unicamente o indício de que alguém pensa em você. Quase aquela coisa das orelhas que esquentam, porém um tanto mais romântica. E há ainda os que vão além, acreditando que olhar a hora repetida é prenúncio de que o amor que você sente por alguém se faz correspondido, e que vocês dois acabarão se casando dali a uns anos, em plena primavera, tendo três filhos, um poodle fedorentinho e um apê atulhado de livros numa metrópole qualquer – corrente de pensamento adotada sobretudo nas raias da quinta série.
Mas eu, euzinha, eu particularmente sempre, sempre preferi acreditar que ter a sorte de olhar as horas no momento exato em que são marcados os mesmos números é a gloriosa e indiscutível chance de pedir o que for, seja de qualquer universo ou tamanho, material ou invisível. Bastava ser dizível. Assim me parecia muito mais generoso, e não custava mesmo nada...
Então, ao longo dos anos, meus fervorosos pedidos variaram entre as coisas mais loucas e as coisas mais simples, porém sempre desejadas – e imediatamente cridas – com um fogo galopante e olhinhos estreitados.
Minhas ambições iam desde "que eu vá bem na prova de amanhã! " até "que eu vá pro céu quando eu morrer!", ou mesmo "que a conversa séria que a mamãe disse que ia ter comigo hoje não seja nada!" e "que eu ganhe um violão este ano!", ou ainda "que eu seja uma escritora um dia!".
Então, de repente, cá estou, 20 anos. 17:17. Não posso escapar. É a minha bênção, a minha missão, é o meu momento, é o meu pedido. E olho para a hora, e não me ocorre nada, nadinha de nada. Nada dizível. Aquele inarticulado, impassível hiato na mente é estranho e um tanto assustador. Deu tela azul. Pam!
Não consigo pensar em qualquer coisa que eu deseje mais, bem acima de todas as outras coisas que eu desejo ao mesmo tempo. Daí meu coração e a minha mente vão se dando conta, naquele átimo, de que algo acontece, algo aconteceu. Há em mim um caos de vontades simultâneas. Não mais aquela lealdade da infância a uma ideia fixa.
A mudez mental diante do relógio não existe por não existirem mais os desejos. Ela existe porque, de algum modo, a essa altura, tornou-se difícil demais organizar e estabelecer a hierarquia das vontades... Todas elas se colidem e se massacram, e nenhuma enfim alcança nobreza ou convicção suficientes para se fazer vencedora.
Me encerro no silêncio. Primeiro, há só uma pequenina melancolia, já companheira minha. Depois, uma impassibilidade docemente melancólica. E vejo, com resignado desamparo, minha hora mudar para 17:18. Lennntamennnte... Leva consigo, ofendida e melindrada, a primeira e única janela temporal de sorte que não abri e de que não desfrutei. Suspiro, olhos perdidos. Ombros quedados. Volto aos trabalhos.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

PULGA REMANESCENTE

A nossa vida é tão cheia de coisa... A nossa vida é um turbilhão. Mas é também um nada. Tanto acontece no curto espaço dum dia. Uma vida muda. Há revolução por dentro. Pensamentos... Os mais confusos, os mais difíceis, os risíveis, os indizíveis.
Emoções. Sensações. Medos. Glórias triviais. Não foram cantados em nenhum poema. Mas são épicos.
Contudo, ao findar da lida, o dia que se esvai, o que é que se lembra dele? O caótico ser diário fica espremido e esquecido naquele curto espaço de tempo. Vira pó da rotina aquilo que fui ontem e o que estou sendo hoje. Desaparece... Perde-se todo vestígio do microscópico espetáculo. Ninguém liga para o tanto de coisas que nos perfuram e nos embalam naquelas vinte e quatro horas.
Mas então depois nos apegamos a umas coisas estranhas... Há desses mistérios. Em que repousa na mente a discussão da semana passada. A palavra, a que calaria o prepotente adversário, vem só muito tempo depois, e é remoída como carne fibrosa ao longo dos dias, retumbando na mente e quase não se apagando, não fosse a necessidade de engavetar novas mágoas e discussões de palavras certas não ditas no furor da batalha.
E perdura também aquela doce e tão viva lembrança do chocolate que se comeu... O recheio ainda canta.
Resta o murmúrio, enfim, de você andando pela estradinha de pedras vermelhas, o fim de tarde no sítio, havia pássaros do lago cantando seu pio lamentoso nas comissuras da boca da noite, e o cheiro da entardescência misturado ao aroma de castanhas de caju sendo torradas ao pé do cajueiro... E era tão pequeno aquele instante!...
E se tornou assim tão gigantesco. Grandioso o suficiente para ser lembrado com um coração que se desmancha num ardor molhado de saudades.
Como explicar? Como explicar as coisas que ficam e as coisas que vão embora?
Por um lado, você nunca conseguiu achar o par daquela meia perdida dentro do tênis, embaixo da cama. Por outro lado, ainda sente a agulha quente sob a pele, perfurando o tênue e rosado dedão da infância, na ânsia de desencavar dali a pulga que se instalou.
E em termos de lembrança não valia a meia muito mais que a pulga?
A meia não achei, tanto a queria, tanto me valia. Era coisa preciosa minha.
A pulga ainda está aqui.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

ÂNCORA, EU

São só 19 anos e eu já estou muito cansada "do peso da minha cabeça". Cansada de... Tentar dar razão à própria existência. Tentar agarrar o mundo com braços e pernas. Cansada de tentar ser. Cansada dos arredores, do que vai dentro, e do que (me) atravessa. Tão cansada de ter problemas! Tão cansada de saber que não sou a única a ter problemas. Tão cansada de chegar a alguém e dizer: "Tenho problemas", e então olhar bem fundo dos olhos dessa pessoa, ou nem tão fundo, basta a superfície tão obscura e tão clara do rosto, e saber imediatamente que essa pessoa também tem problemas. Tão crus, tão tristes quanto os meus. E que me despreza. Me despreza a partir de agora por eu ter cogitado a possibilidade de que meus problemas fossem mais duros que os dela... Não era isso. Eu apenas buscava uma boia, uma alma alheia na qual me ancorar por alguns instantes. Soçobro. Todos temos problemas, Bárbara. Se eu te contasse os meus...
Tão cansada dessas pessoas que sempre encontram uma forma de elogiar defeituando. Que parecem dizer uma coisa, mas na verdade dizem outra. Tão cansada de não ter para onde correr quando me sinto muito, muito melancólica. Tão cansada de não conseguir dizer ao mundo: ESTOU CANSADA! Não há quem se importe. E com razão. E tão cansada de ser aquela em quem pregam essa nova placa: risonha.
Não sou.
Quero me lamentar, ranger dentes. Quero, por fim, me libertar da tirania alheia. Dessas pessoas que se pensam no direito de tratar a todo mundo do jeito que for, porque são tão legais, porque são tão astutas. Astutas, sim. Amáveis, não. Não-legais. Tão cansada de não conseguir dizer o que preciso dizer. Tão cansada de não ser capaz de chamar à consciência aqueles que incomodam. Tão cansada de não conseguir ser eu. De ter as opiniões contrariadas, os rótulos martelados com tanta força: pedante, insegura, volúvel, competitiva.
Eu não sou! Eu sou uma mistura do que eu via nos olhos da minha mãe quando ela estava mais por perto e me olhava com amor. E daquilo que eu vejo quando me olho no espelho, e tento entrar bem dentro de mim pela minha pupila refletida, e então me enxergo como alguém de fora, e as coisas que vejo... São pavorosas! Mas de modo nenhum sou aquilo que me obrigam a ser, fruto do sufocamento das coisas que não querem que eu seja.
Eu estou muito cansada de não ter âncora.

sábado, 28 de setembro de 2013

DE COMO DESPREZO GENTE FELIZ QUE SE CONTENTA E GENTE INFELIZ QUE NÃO SE CONTENTA NUNCA

Se o mundo fosse dividido apenas em pessoas felizes e infelizes, sem gradações, e sem mentiras, e falsos enganos, de que lado você estaria? E como pode ter tanta certeza? O que é felicidade? O que é tristeza? Não seria a certeza da felicidade uma negação suprema da dor? E não estaria você, que sofre, simplesmente acostumado com sua dor, a ponto de se sentir perfeitamente feliz e satisfeito com ela? Acostuma-se. Felicidade e tristeza, afinal, são questões de costume.

sábado, 31 de agosto de 2013

COMO?

Fico pensando... O que fará de mim uma escritora? Uma tatuagem na mão alardeando o não-fato? Os blogs para os quais se escreve? O jornal? As anotações pessoais? Os trabalhos da faculdade? De onde virá este gigante? Este gigantesco passo... Que é, em si mesmo, a concretização da jordana toda. O primeiro livro. É disso então que preciso? O primeiro livro publicado?
Mas mesmo ele seria suficiente? E se nem assim se saísse do anonimato? E se mesmo assim não derem ainda a carteirinha do clube? E se for ainda preciso muito mais...? Um mais que não alcançarei, e se for? E se talvez for necessário muitos contatos, muita influência? E se o primeiro livro nem em papel for? E se ninguém quiser lê-lo?
É tanta coisa que pode dar errado! O que fará de mim escritora, ou como me farei? Depende de algo interno? Já o tenho. Já o quero. E por quê? Infinitas coisas... Mas, a mais simples e profunda delas: porque quero. Não como queremos um brinquedinho aos seis anos de idade, que depois é suplantado pelo de sete, de oito... Quero como alguém que se afoga, e deseja voltar à superfície. Quero como alguém que se afoga e deseja até mesmo um punhadinho de ar que seja, só para o último pedido de perdão ou coisa que o valha. Eu quero isso como alguém que, já a salvo em terra firme, jamais se esquecerá de como era o submerso... E daí valoriza o ar como a própria vida - o que, de fato, o é. É assim que quero.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

MEDO DE MORRER

É quando você percebe que comeu arroz estragado depois que sua tia chega em casa, cheira a panela, e descobre o fato.
Daí você espera a morte, lendo nos olhares dos outros a reprimenda por sua estupidez...
E então você não morre pelo arroz azedo com brócolis.
E a sensação de morte passa.
Mas aí, um dia, seja por arroz ou não, você morre.
Eis aí a real sensação de morte: saber que se vai morrer depois de sobreviver ao arroz.
Saber que se vai morrer mesmo depois de a sensação passar.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

ACERCA DO HOJE

Até ontem, dizíamos de nós mesmos:
Brasileiros não têm capacidade de organização.
Brasileiros são acomodados.
Brasileiros são omissos.
Brasileiros são conformados.
Brasileiros só gostam de pão e de circo.
Brasileiros não lutam por seus direitos.
Brasileiros não vão às ruas para mudar seu país.
Brasileiros...

A partir de amanhã, dirão:
Brasileiros... destruindo seus próprios estereótipos desde 2013.
Porque lutaram.

O triste é pensar que alguns de nós, embora mudem seu discurso, permanecerão dizendo coisas do tipo:
Brasileiros... Só sabem fazer baderna.

sábado, 15 de junho de 2013

O SABOR DE SER 19

[Como se hoje fosse ainda dia 14:]

  19 anos, hoje. São, pelo que diz a calculadora, 6650 dias. 79800 horas. Minutos infindáveis de uma existência quase que exclusivamente dedicada ao ócio improdutivo e à procrastinação eterna, mesclados com raros momentos de inspiração abobalhada.
  A verdade é que me sinto muito mais tendo 19 (tão abstrato e ao mesmo tempo tão concreto), do que sendo, propriamente, dezenove-anos. Eu tenho esse número exato, mas não é como se eu mesma ele fosse. Fico na indefinição do ser-se e/mas não sentir-se (deixe as ênclises aí).
  O próprio dia de hoje já amanheceu assim, dúbio. Belo, mas dúbio. Dúbia Fortaleza chuvosa, envolta num vento quase enregelante, ainda que com aquele mormaço sufocante e um sol de crestar miolos. Um calor-frio, uma luminosidade opaca, um brilho intenso filtrado por um céu nublado de grossos e cinzentos chumaços de algodão, enquanto se sua e se treme à espera do ônibus que nunca virá, porque o caos urbano não refresca nem mesmo para os aniversariantes.
  Contudo, embora eu molhada de inconstâncias e incertitudes, foi este um dia feliz. Um daqueles dias em que se sorri para os gatinhos marajás, paxás a se lamberem regiamente sob o sol da UFC, um daqueles dias em que não se enxota a formigona que subiu no seu pé, um daqueles dias em que você se descobre um ser amado.
  A minha ideia de velhice não era uma vida solitária rodeada por felinos. A minha ideia de velhice máxima, há alguns centênios, era completar 13 anos. Número não totalmente aleatório. Acontece que eu devia ter lá meus sete, quando uma prima mais velha, que morava no Rio, mandou-me uma carta, e nela havia um desenho cujo título era "Bárbara aos 13 anos". A figura angulosa conseguira mais ou menos domar um cabelo leonino e detinha uma estreiteza de dar inveja. Ter treze anos passou, assim, a representar o auge do amadurecimento, o ser alguém no mundo, com um metro quadrado de existência autônoma.
  E eu costumava achar um saco ser criança. Era cruel. Porque criança sofria (aqui o eco da menina que desde sempre foi um bocadinho melancólica), não podia participar das confabulações dos adultos na cozinha, e tinha sempre que ficar vigiando a postura e passando cuspe no joelho pra tirar a "tuíra".
  Enfim, alcancei os treze. Sem grandes arroubos. Passei pelos superestimados 18, e chego agora, discretamente, aos 19. Com aquele ar mais ou menos fatigado e o sorrisinho meio que desdenhoso-condescendente de quem enfim compreendeu o grande lugar-comum dos adultos: crescer não é tão mágico assim...
  É, afinal, só uma questão de ser forçado a aprender de uma vez por todas a atravessar a rua sem a mão amiga entrelaçada à sua; e é ainda apenas questão de fazer o seu próprio pedido à atendente no caixa do McDonald's (contendo o desejo ardoroso de pedir um McLanche Feliz e descolar para si aquele brinde tão maneiro do Keroppi); crescer é apenas uma questão de aprender a pegar o ônibus certo e fazer o favor de não chorar caso você se perca.
  Ter 19, ou mesmo o 13 idealizado, consiste basicamente em dominar todas essas habilidades desiluminadas. Não importa se você foi uma criança que aprendeu a pintar magnificamente com o lápis de cor, sem sair da linha, aos três anos de idade. O que importa ao externo é que você não seja um pobre coitado de 19 anos que ainda atravessa a rua feito um trem descarrilado e sofre com a voz embargada ao tentar perfurar a carapaça da timidez e fazer o seu pedido à mocinha impaciente e meio surda do caixa.
  Mas, bom, a intenção não era transformar esse texto num daqueles manifestos a favor dos que não querem crescer. Eu mesma não quero ser um desses que não quer crescer... Mas quero fazer de mim um daqueles adultos que se olham no espelho e conseguem se perdoar por terem crescido, e que não se levam muito a sério, e que gargalham sozinhos ao notar, depois de uma hora incessante de busca, que os óculos estavam, desde o início, estacionados no topo da cabeça!
  Enfim, todas essas bobagens rabiscadas simplesmente para balbuciar que foi este um dia bom, um dia feliz. O teor da reflexão murcha pode parecer ter sido feito para murchar também quem lê, mas não. São apenas aquelas coisas que a gente despeja quando encontra a desculpa de ter nascido no bendito dia presente.
  Por fim, notas de rodapé:  talvez a maturidade ordinária que se espera de alguém que se diz um 19 anos só me brote mesmo quando eu for para lá dos 30.
  Especificamente quanto ao dia de hoje, 14, gostaria que meu avô estivesse aqui em Fortaleza com a gente. E também a minha mãe. E minha irmã. E tios. E primos. Mas aceitar as circunstâncias intransponíveis com resignação e desprendimento faz parte também de crescer, eu imagino, e ao menos este amadurecimento eu me concedo (tento).
  Vovó chorou hoje, é claro, como era de se esperar. E o elemento desencadeador foi o "bonequinha" com que um de meus tios iniciou a mensagem de parabéns à aniversariante. E pensei, cá com meus botões (de celular): "Ainda bem que, neste país estrangeiro (que é a idade dos que já amadureceram), pelo menos nos permitem chorar...".

um vislumbre da velhice

sexta-feira, 17 de maio de 2013

APRENDI UMA PALAVRA NOVA

O mal desses (já velhos) novos tempos é que tudo dá gastura na gente.
"Gaxxxxtuuura"... Assim mesmo, bem prolongada.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

A minha mente é como um mundo muito, muito, muito grande, mas cíclico, que me cansa.
Gira essas voltas, sempre as mesmas voltas, à volta de mim.
E eu não sou lá tão grande para que uma rotação seja maior que a frequência delas todas, sempre iguais.
Eu tenho uma mente vasta, mas plana. Um planeta raso aprisionado aqui dentro. Voltando sempre ao mesmo enfado.

AS COISAS QUE EU DEVERIA ESTAR FAZENDO

Eu realmente deveria atualizar mais meu blog, e é o que estou fazendo agora, mas só porque, na verdade, eu deveria estar estudando, mas como estudar é a última coisa que eu faço sempre, a atualização do blog subiu na lista de prioridades e deixou de ser a coisa número um na lista de coisas não feitas que eu deveria estar fazendo. Mas não. Calma. Está confuso. A questão é: eu deveria estar fazendo uma porção de coisas, e como atualizar o blog deixou de ser uma delas, é ela que estou fazendo, porque normalmente deixo para fazer as coisas que já não deveria. Hunf.
Eu deveria estar melhorando a minha postura e deveria estar domando o meu psicológico. Eu deveria estar me autoanalisando e vendo o que precisa ser jogado fora. Eu deveria ter menos autocomiseração e chorar menos e agir mais. Eu deveria parar de ser tão íntima em domínios tão públicos. Eu deveria parar de fantasiar e ter mais foco. Eu deveria ter uma porção de amigos e saber cuidar bem deles, para não perder assim como já perdi uma tonelada de tantos outros. Eu deveria.
Eu deveria ter mais amor-próprio e melhorar a autoestima, eu deveria, porque conviver com pessoas inseguras é um troço muito chato. Eu deveria ser mais atenciosa com quem gosta de mim e me tolera, e deveria ser menos tolerante com quem me desaponta, se desponta de mim e me enerva. Eu deveria ser mais afável e menos bipolar - o problema é que eu não sei ser nenhum dos dois, mas deveria.
Eu deveria desaprender a alimentar paixões neoplatônicas, eu deveria. Eu deveria desistir logo dos sonhos literários, se ficar provado de uma vez por todas que não tenho talento. Eu deveria comer menos, beber menos refrigerante, beber mais água, encolher a barriga. Eu deveria condicionar meu próprio cérebro a não ter mais tantos pensamentos fixos - me livrar desses pensamentos fixos deveria ser minha fixação primordial. Eu deveria.
Eu deveria ouvir mais minha própria voz interna, porque ela sempre sabe quando eu tô errada. Eu deveria. Eu deveria ser menos dependente do alheio, eu deveria. Eu deveria reaprender a me alegrar com a minha melancolia, e reaprender a não mais ligar se estou só - o fato é que estamos todos muito sós e abandonados. Eu deveria. Não mais chorar por nada disso. Já disse.
Eu deveria não rir tanto do que os outros dizem, mas é que de tudo acho graça. Eu deveria não. Eu deveria lembrar mais do que já consegui, pra gostar mais de mim, mas essas conquistas não significam nada. Eu deveria aprender a ser mais crítica. Aprimorar meus argumentos. Eu deveria sorrir mais e rir menos. Eu deveria.
Eu deveria encontrar um modo de ficar mais tempo em paz. Eu deveria terminar as aulas de violão e sair aprendendo alguma coisa. Eu deveria ter trazido o violão quando pude. Ou não me importar sobremaneira com isso. Eu deveria não migalhar. Eu deveria ter dito, naquele dia, no fim da aula: "Não quero". Mas como eu poderia ter previsto? E daquela outra vez, ter dito não também. Eu deveria ter voltado todo o caminho e ter dito.
Eu deveria estar estudando, porque amanhã tem prova. Eu deveria. Mas faço?

quarta-feira, 17 de abril de 2013

SOLIDÃO

(Poeminha de um amigo só, que me deixou ser sozinha com ele)


Solidão


solidão

é uma senhora emboscada

com a inconsciência forte-mente armada

e pelo medo e a saudade acompanhada

solidão solidão é uma cilada

que no ego foi projetada

e na alma executada

Murilo Vieira Menezes

sábado, 16 de março de 2013

COMO DIZER...?

Como dizer para aquele seu amigo ou conhecido que, no inglês, o adjetivo vem antes do substantivo? Que você quer de volta aquele livro que emprestou há mais de um ano? Que os acentos não existem por acaso, e devem ser colocados nas palavras dos trabalhos que vocês fizerem juntos? Que o personagem que ele mais gosta vai morrer antes do final da série/livro e, por isso, é melhor não se afeiçoar tanto? Que ouvir sertanejo não o promove a uma categoria de seres humanos legais? Que usar os cortes de cabelo do Neymar não faz dele um grande jogador de futebol-pegador-ricaço? Que o perfume que usa dá náuseas? Que mastigar de boca aberta e fazendo barulho ainda não está na moda? Que batom azul assusta? Que você prefere pizza sem cebola? Que não quer ganhar um ovo de páscoa de Charge, porque não gosta de chocolate com amendoim? Que não se pronuncia "Keiti" Richards? Que as montagens fotográficas que ele faz são toscas? Que ninguém se interessa por seu coração partido semanalmente? Que ninguém quer saber onde ele está nem o que anda comendo? Que ninguém liga para o fato de se sentir feliz porque hoje é sábado? Que é chato - e ilógico -  reclamar de dor de cabeça e continuar no Facebook? Que Johnny Depp não é uma espécie de messias? Que elogiar a fotografia de um filme não faz dele um crítico de cinema? Que ele não sabe usar as palavras "paradigma", "estereótipo", "paradoxo" e "clichê" nos contextos certos? Que dor de corno nas redes sociais é mais repelente que ao vivo? Que ele não tem autoridade para corrigir a gramática de ninguém? Que ele superestima o consumo de Doritos? Que compartilhar fotos de cachorrinhos e bebês desconhecidos não o torna cativante? Que seu gosto musical o está reduzindo a uma ameba? Que ele coloca vírgulas onde não deveria? Que ser poeta de Facebook é mais ridículo que lírico? Que ninguém está dando a mínima para o seu aumento de bíceps? Que exibir glúteos e glândulas mamárias em fotos não atrai pensamentos saudáveis? Que ele não é bom em inventar piadas? Que não vai conseguir passar em Medicina? Que não desenha nem de perto "bem"? Que jamais será um escritor? Que seu francês é sofrível? Que aquela foi uma curtida irônica de fulano? Que ter pintado o cabelo foi um erro? Que gostar de velha MPB ou derivados não o faz mais adulto ou intelectual? Que ter dreads não o promove a nenhuma categoria de almejada idiossincrasia? Que ele não precisa baixar toda a discografia e decorar todos os nomes dos integrantes e seus parentes para se tornar fã de uma banda? Que ninguém jamais curtirá seus vídeos no YouTube gravados com a câmera do Motorola V3 e, se depender disso, jamais será um grande vlogger? Que "A batalha do apocalipse" não é "o melhor livro do mundo"? Que tirar fotos de boca torta é quase tão traumatizante quanto com a língua de fora? Que dá vergonha ao vê-lo citar Caio Fernando Abreu ou Paulo Coelho? Que andar com uma garrafinha de água pra cima e pra baixo é broxante?
Como? Como?
Faça o seguinte: mostre esta postagem a ele; cole no mural, faça o link sutilmente escorregar em alguma rede social, ou abra a janela no notebook e saia de fininho, e deixe o resto por conta do cidadão... E se, ao final, não resultar... Bem, arranje novos amigos.

quinta-feira, 7 de março de 2013

OS QUE FUNCIONAM EM OUTRA FREQUÊNCIA

Me intriga, e talvez também me assuste, essa coisa das pessoas que funcionam em outra frequência. Tomando por padrão o regular, tomando por comum o frequente, o que eu vejo? Minhas amigas tendo bebês. Não sei se é idade suficiente, mas, não, talvez já não seja essa velha questão de idade (o ponto é que eu perdi a noção de adolescência e juventude depois dos quinze, já não sei quão jovem - ou quão velho - é ter 19/20 anos). Esqueçamos a idade. É mais sobre lidar com esse fato de pessoas tão próximas a você estarem fazendo novas pessoas dentro delas... Parece clichê, mas se torna curioso e levemente surreal quando se prova tête-à-tête: as crianças cresceram e agora estão botando no mundo outras crianças.
Contudo, não diz respeito somente à maternidade - prematura ou não, a questão é: inesperada; você não viu isso chegar -, mas a outros fatores da vida. Você agora é grande o bastante para ver pessoas casarem. Grande o bastante para ver pessoas morrerem. Grande o bastante para ver alguns de seus ídolos - e nem precisa necessariamente ser um de seus ídolos, basta alguém que você considerava imorrível ou inexpugnável, pode ser Chávez, ou até mesmo o Papa - irem embora um a um... E você vai se tornando esse ser absurdo que costumava ser seus pais: gente velha que admirava estátuas que já tinham morrido. Os seus estão morrendo agora também.
Então vem a questão da frequência diferente: você não se acostuma. Não tem jeito, você não consegue fazer o coração bater nesse mesmo ritmo - lento e suave ou forte e perigoso - que agora bate o coração dos outros que estiverem todo esse tempo com você. Seu coração não funciona mais como o deles, ou nunca funcionou. Sua mente também trabalha à parte, é mais lenta, mais profunda, demora a se acostumar. Sua alma também não sabe...
É essa a outra frequência assustadora: você ver tudo mudar ao redor enquanto permanece caçando mistérios num instante perdido depois da meia-noite, enquanto todos os outros dormem, ou simplesmente existem...

domingo, 25 de novembro de 2012

NA FILA

Delícias infinitas nos são proporcionadas quando estamos ali ranzinzas, azedos à espera do atendimento, como que para compensar a demora paradoxal dos fast food.
Dois Sócrates na fila:
- ... É louco, cara! Você faz uma descoberta. E aí vai percebendo ao longo do seu cotidiano, nos dias seguintes, imediatamente após o descoberto, milhares de referências àquilo que antes você não conhecia. Filmes, músicas, hiperlinks, notas de rodapé nos livros... Uma loucura...
- Sei como é. Então a gente para pra pensar e se pergunta quantas coisas mais tem deixado escapar... Vivemos essa vida de ignorância plácida, ridícula...
- Mas aí, superado o desespero inicial, vem essa mesma ignorância, com aquela vozinha doce, confortadora, e sussurra no seu ouvido... "Calma... Você viveu até aqui sem saber de nada... Não é agora que vai morrer, não é mesmo?"
- Ha, ha, ha! Essa ignorância é mesmo uma quenga!
- É...
- Interessante mesmo é aproveitar o caminho natural das descobertas, não é? Não tem jeito. Deixa rolar. Não vou sair à caça. Se algo escapar à percepção, nem saberemos. Afinal, não sabemos mesmo!
- Verdade... E por mais que eu venha a saber de algo mais, permaneço sem saber de todo o resto. O fato de eu começar a conhecer só me mostra como sou ignorante!
- Saber que nada se sabe é uma bênção. Não corro o risco de achar que já sei de tudo. Essas descobertas fortuitas me mantêm ligadão. E aí, vai pegar o Big Mac de sempre?
- Hoje eu vou de Big Tasty.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

DESCREVER O QUE NÃO SE SENTE

A escrita nos abre milhões de janelas que só mesmo a imaginação pode construir. Uma dessas janelas abertas chama-se "experiência". Porque experiência não diz respeito necessariamente àquilo que se experimentou em vivência - ou seja, o que foi táctil, o que foi palpável, filtrado pelos sentidos mais físicos -, mas sim diz respeito a tudo aquilo que se pode degustar em espírito, com a mente. A palavra então traz esse mundo de areia construído sobre rochas de vento para a plataforma de papel - ou eletrônica, ou calçada, ou troncosa, o que seja!
Experimentar não é viver no corpo somente, mas também vivenciar dentro de um processo de pensamento completo, e tornar ainda mais sólido através da palavra. Descrever o que não se sente, descrever o frêmito, o arrepio, o toque. Dedos invisíveis que deslizam pela derme como um trem sem destino e sem pressa. Olhos que rolam preguiçosamente e com carinho sobre a pele que cheira a Nivea. Sorrisos que se insinuam porque o toque é bom. Dedos que, após o caminho, se entrelaçam. E os pelos dos braços ouriçados, e os pelos das pernas tolhidos pelo jeans. A mão agora atada em outra que sobe novamente pelo ombro macio e alcança a face que se cora, coraliza. E pula outra vez a bochecha num sorriso desses meigos de fazer o coração gelar e ferver ao mesmo tempo. E o sorriso de resposta, dono do toque-ouriço, tem a barba por fazer e espeta, mas é delícia. Roça no pescoço, dizer cangote é mais gostoso, aconchega-se naquele canto que a gente chama "curva dos enamorados", a pele macia, o vão entre nuca e clavícula, e cheira bom.
Chega mais perto, olhos nos olhos, eles se têm capturados. Quem dirá daqui a um ano, dois, dez...? Mas, que importa isso agora? Olha só como se olham, olhos nos olhos, e o acanhamento de finalmente se flagrar assim tão apaixonado, mas tão, que o termo perde o sentido, fica vagando desconexo entre duas almas e dois corpos que se querem bem mais do que precisam de espaço, tempo, ar. E, achegados, assim, de mansinho, vagarzinho, esse olhos nos olhos e dedos nos dedos, forte, porque o compromisso agora se mostrou em toda a sua proporção monumental, são as barrigas que se chocam, as respirações no compasso do descompasso, vem de novo, toma os lábios, e estes se abrem, e se achegam também.
E posso não estar vendo ou provando a cena, mas sei que acontece, porque se materializa em minha mente, escorre por essas paredes tão vazias, tão cheias de tudo, e então vêm pelo córrego direito, fazem a curva ao pé do leito miocárdio o outro extremo esquerdo, então desaguam pela mão destra, fazem seu caminho rumo a um texto tão bem, tão sem razão, que sua única certeza é ser brutalmente real, brutalmente sentido, mesmo não sendo.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

FALSA CONFISSÃO

Tempo em que não se pode chorar. A garganta seca, os olhos ardem, mas lágrima alguma cai. A água que escorre é seca e feita de vento. Derrama-se dos olhos unicamente a aridez.
Tempo em que não se pode confiar. Confia-se, desconfiando. E a confiança, quando vem ou vai sincera, é apunhalada, aqui ou lá. Tempo em que fazem mal querendo fazer o bem. E o bem tornou-se uma abstração forçosa de quem teima em crer que há razão em fazer o que faz.
Tempo em que os estômagos se contraem, e o peito dispara, cavalga, explode. Mas não há emoção. É só essa secura ardorosa que oprime e impede, ao mesmo tempo, de sentir, enquanto se sente tudo o que não pode ser exprimido.
Tempo em que as palavras rasgam almas, e o silêncio também. Tempo em que essas palavras ferem até sem querer. Elas ferem e só. Tempo em que os gritos são sempre gritos, até quando sussurrados. Mas já não dizem nada. A dor não se derrama. Junto com a dor, a própria punição: Permanece aprisionada no recipiente invisível do ser, indecifrável, inviolável.
Tempo em que se tenta falar sobre algo, se tenta clamar, implorar, confessar... E as intenções todas se fazem vazias. As confissões mais tolas, as mais sinceras, as mais rudes, as mais graves e sérias... São todas invólucros vazios, que encerram somente o não ser nada, o direito a nada, nada além da própria miséria interna.
Há somente a vontade. Mas não conta. As intenções são todas mortas.


domingo, 7 de outubro de 2012

ESCRITA

Muitas vezes escrevo para cumprir tabela. Estou submersa na letargia, vaziedade ou insensibilidade do dia a dia, então grafo como um marido que só comparece para tentar aquele primogênito que nunca vem. E prossigo assim, inerte. Verbo, adverbo, adjetivo, preposiciono, conjugo, julgo, mas não transcendo.
Essa pacatez que rege a vida dos escritores fleumáticos acaba por acomodá-los também numa espécie de arrogância contente, contentada. Pensa que escreve bem, que o ofício é aquilo ali mesmo, acostuma-se à sua própria mediocridade e para de exigir mais e melhor de si, agarrando-se à falsa e tragicômica certeza de que repousa placidamente junto a grandes cânones literários. Está estático, deixou de ser extático.
Mas então vem. Vem o terremoto, a retomada do primeiro amor, o frenesi, aquele texto alheio, de outrem, impactante, atrevido, não anunciado (apesar de ser magnético desde o título). Num assalto, esse tal texto, qualquer que seja, de simplicidade, qualidade e brilhantismo invejáveis, nocauteia o escritor preguiçoso e faz com que este se veja diante da grande verdade: Não está bom. Nunca estará bom. Nunca, nunca estará bom o suficiente para se acomodar.
É paradoxal, mas essencialmente válido: Você nunca escreverá tão bem quanto poderia chegar um dia a escrever. Todavia, a ideia ajuda a impeli-lo rumo a uma busca constante, irrefreável. Não se pode deixar que a preguiça cale o talento, o empenho, a inclinação apaixonada, o polimento, o afinco.
Tem que ter suor. Exercitar o carpo. Pensar, pensar, pensar. Absorver, sorver, sorver. Remoer. Cuspir. Ler, ler, e ler. Mas não simplesmente ler... Beber do outro. Alimentar-se das possibilidades. Ler o texto estrangeiro e tumultuar-se, perguntar-se: "Como eu poderia escrever isto aqui tão bem quanto foi escrito? Eu poderia mesmo escrever assim um dia? Consigo? Puta louco, não, el(a)e é um gênio!"... E que não haja também acanhamento em reconhecer a genialidade alheia. Crescemos a cada vez que percebemos a nossa própria fragilidade, pequenez, significância titubeante. E acho que isso não se aplica somente ao mundo literário. Para todo crescer, há que se tornar pequeno.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

QUEM SOU EU

Eu sou
um sinal na bochecha.
Eu sou
uma dentição mal-feita.
Eu sou
uma cabeleira rebelde.
Eu sou
pele peluda.
Eu sou
resquícios de textos.
Eu sou
um nariz de tubérculo.
Eu sou
dois olhos manchados.
Eu sou
manto estriado.
Eu sou
pés chatos.
Eu sou
o que fazes de mim.
Quando, na verdade,
não sou.