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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A MINHA MÁQUINA DO MUNDO


Relanceio o relógio, distraída. 17:17. Opa!
Então encaro, estupidificada. Pela primeira vez, não sei o que pedir.
Trata-se do seguinte, explico: se você olhar para o relógio e ter a sorte de encontrar os mesmos números na casa das horas e dos minutos, é o universo que está sendo bondoso e te dando a chance de pedir qualquer coisa que você queira na vida, bem ali, naquele momento. Não há dúvidas quanto à realização do pedido. O método é infalível. Mas existem variações de sua aplicabilidade.
Por exemplo: para alguns, as horas siamesas são unicamente o indício de que alguém pensa em você. Quase aquela coisa das orelhas que esquentam, porém um tanto mais romântica. E há ainda os que vão além, acreditando que olhar a hora repetida é prenúncio de que o amor que você sente por alguém se faz correspondido, e que vocês dois acabarão se casando dali a uns anos, em plena primavera, tendo três filhos, um poodle fedorentinho e um apê atulhado de livros numa metrópole qualquer – corrente de pensamento adotada sobretudo nas raias da quinta série.
Mas eu, euzinha, eu particularmente sempre, sempre preferi acreditar que ter a sorte de olhar as horas no momento exato em que são marcados os mesmos números é a gloriosa e indiscutível chance de pedir o que for, seja de qualquer universo ou tamanho, material ou invisível. Bastava ser dizível. Assim me parecia muito mais generoso, e não custava mesmo nada...
Então, ao longo dos anos, meus fervorosos pedidos variaram entre as coisas mais loucas e as coisas mais simples, porém sempre desejadas – e imediatamente cridas – com um fogo galopante e olhinhos estreitados.
Minhas ambições iam desde "que eu vá bem na prova de amanhã! " até "que eu vá pro céu quando eu morrer!", ou mesmo "que a conversa séria que a mamãe disse que ia ter comigo hoje não seja nada!" e "que eu ganhe um violão este ano!", ou ainda "que eu seja uma escritora um dia!".
Então, de repente, cá estou, 20 anos. 17:17. Não posso escapar. É a minha bênção, a minha missão, é o meu momento, é o meu pedido. E olho para a hora, e não me ocorre nada, nadinha de nada. Nada dizível. Aquele inarticulado, impassível hiato na mente é estranho e um tanto assustador. Deu tela azul. Pam!
Não consigo pensar em qualquer coisa que eu deseje mais, bem acima de todas as outras coisas que eu desejo ao mesmo tempo. Daí meu coração e a minha mente vão se dando conta, naquele átimo, de que algo acontece, algo aconteceu. Há em mim um caos de vontades simultâneas. Não mais aquela lealdade da infância a uma ideia fixa.
A mudez mental diante do relógio não existe por não existirem mais os desejos. Ela existe porque, de algum modo, a essa altura, tornou-se difícil demais organizar e estabelecer a hierarquia das vontades... Todas elas se colidem e se massacram, e nenhuma enfim alcança nobreza ou convicção suficientes para se fazer vencedora.
Me encerro no silêncio. Primeiro, há só uma pequenina melancolia, já companheira minha. Depois, uma impassibilidade docemente melancólica. E vejo, com resignado desamparo, minha hora mudar para 17:18. Lennntamennnte... Leva consigo, ofendida e melindrada, a primeira e única janela temporal de sorte que não abri e de que não desfrutei. Suspiro, olhos perdidos. Ombros quedados. Volto aos trabalhos.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

TUDO SUSPENSO

Na aula de Educação e Cinema, sem conseguir me concentrar. Vontade de chorar estranha, porém a conheço bem. Quero estar na minha cabeça e ao mesmo tempo fugir dela. Essa agonia de paixonite frustrada oprime. Preciso escrever para dar sentido a tudo isso... Ou na verdade esvaziar o sentido de tudo. Se não significar mais nada, estarei bem.
Não tenho fome. Não tenho vontade de lutar pelos trabalhos atrasados da faculdade. O semestre está quase no fim, mas há ainda um tanto a fazer. Não quero... Não me sinto no clima. Não desejo sair, não quero partir. O que quero não posso. Quero ficar e ter e ver e sentir e provar. Que estou certa em pensar que estou errada, mas estando errada me realizaria tanto...
Não posso pensar assim!
Confusa, é o que estou. Não, na verdade, muito convicta (de que o que eu quero não pode ser). Mas continuo querendo... Minha mente segue sem descanso em desvarios persistentes.
Que mais? Passam agora ali no quadro um vídeo em espanhol. Ninguém entende nada. Algo sobre edição de áudio. Suspiro.
Totalmente compreensível, assim, que eu me volte para mim mesma, desatenta ao mundo, perdida em palavras, perdida nos meus arremedos arruinados de sentimentações...
Minha mente fervilha. Socorro! Quero fugir de mim em mim. Poderei? É irrefreável vontade. Quero me entocar aqui dentro, mas, ao mesmo tempo, ao mesmo tempo em que a prisão mental me conforta, com suas ilusões tão doces e seus eflúvios langorosos, lúbricos, sei que me fará muito mal permanecer nela. Beiro o caos. Gosto dele. Contudo há de me tragar. Tremo.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

QUEM SOU EU

Paragrafação escrota, prazos estourados, não fala palavrão, só mesmo no texto literário. Textinhos melecados escritos na telinha apertada e angustiante do celular. O criado-mudo abandonou a TV, esta foi para o chão, e ele agora ao lado da cama, mil sonhos mil projetos mil planos arquitetônicos sobre ele projetados, permanece apenas e unicamente atulhado, cheio de poeira, inútil em seu excesso de utilidade provisória e indispensável. Come, come, come. Engorda gradualmente a cada ano uma gordura definitiva. Não para de comer porque não se privará de nada. Um dia, se assusta, quem sabe. Teve aquele livro que fez o coração doer por mais tempo que deveria por um amor que não durou muitos meses mas que foi sofrido como um divórcio. O amor era paixão e como toda paixão se curou. Fica o livro. Para sempremente amado. Nunca lido mais de uma vez. Este ano, quem sabe. Há expectativas mil. Mas o medo da perda do herói... A perda do herói... Melhor nem pensar nisso. Aguardemos o dia 19. E a praia, rola? Quem sabe... Quem sabe... Tinha um sonho ali dentro que era: conseguir passar uma semana inteira sem perder pelo menos um amor, uma lágrima e uma certeza. Na quarta, morreu de alegria. Na quina da noite da quinta à noite, chorava, já envergonhada de não ter conseguido levar a bandeja com as taças de cristal por muito tempo antes de derrubar tudo. Ao mesmo tempo, se intriga... Que mistério é esse que faz surgir tanto medo na hora de transportar as taças, se estar perto dos cristais é coisa tão maravilhosamente linda de se ver e de se estar e de se ter? Não, não tem nunca. Sempre as quebra. Comprou algumas coisas. Mas é claro que a alegria efêmera se esvaiu. Estava olhando alguém no ônibus e de repente percebeu que aquilo era cansativo e não importava. Saiu com um peso a mais, e um peso a menos. Mas um a mais, sempre tudo assim doendo tanto muito que chega a ferir de verdade, e olhar e ver que é sempre a mesma lengalenga. E a paragrafação escrota? Reclama tanto, e se contorce, mas não muda nunca.

POR UM FIM

Não vivo o momento mais contente nem mais produtivo da minha vida, mas há aqui, exatamente nessa tristeza inapta, desgastada e estéril, algum potencial para um brilhantismo meio tosco e manco. Adoravelmente rebarbado contra o mundo e contra mim mesma.
Sobrevivo. Tenho amigos, compro livros, como bem, durmo à noite.
Mas às vezes não durmo, e nenhum braço me acolhe. Não conto tudo a todos e de certo modo ter segredos é como não ter amigos. Os livros que compro empilham-se, intactos. Não consigo ler. Pulo refeições. Às vezes a cabeça dói porque eu simplesmente não tive vontade de dar ouvidos ao estômago.
Enfim.
É uma vida boa, esta minha, porém despida de muito que seja vida abundante. É uma vida que me cabe. Mas me aperta.

domingo, 5 de outubro de 2014

HUNRRF... ARRN...

Existem as coisas difíceis que eu amo, e me lanço a elas. Existem as coisas difíceis que são insuportáveis, impossíveis de aprender. Existem as coisas difíceis que começam difíceis e depois se mostram tão mais fáceis - você evoluiu, cresceu, melhorou-se. Existem as coisas difíceis hostis - não domáveis, nem mesmo silenciosamente enigmáticas, mas ferozes. Existem as coisas que eu não entendo, e aceito. Existem as coisas que eu não entendo, mas aceito. Existem as coisas que eu não entendo e nem aceitarei. Existem as coisas que eu não entendo. E eu e ela existem. E mesmo assim uma anula a outra. Existem em mim vontades, mas coisas que jamais farei. E ainda assim já mais farei das coisas que eu pensava impossíveis. Existem eu e meus medos e meus desejos e minhas falhas e impraticabilidades e procrastinações e grunhidos. Existo eu. Tantas coisas...

domingo, 18 de maio de 2014

UNGRATEFUL CHILD

Eu me sinto tão angustiada e apreensiva nesse momento, mas pela primeira vez em muito tempo não sei por quê... E de uma forma estranha, em alguma parte da minha mente, eu sei. Mas deixo os pensamentos vagos flutuarem com as respostas criptografadas, e vão para muito longe da minha própria consciência, embora sobre a superfície naveguem, porque assim eu as retenho, mas não as conheço, uma vez que eu realmente não quero saber o que eu de algum modo sei que sei.


Ou
a busca involuntária por uma perpétua insatisfação na vida.

sábado, 28 de setembro de 2013

DE COMO DESPREZO GENTE FELIZ QUE SE CONTENTA E GENTE INFELIZ QUE NÃO SE CONTENTA NUNCA

Se o mundo fosse dividido apenas em pessoas felizes e infelizes, sem gradações, e sem mentiras, e falsos enganos, de que lado você estaria? E como pode ter tanta certeza? O que é felicidade? O que é tristeza? Não seria a certeza da felicidade uma negação suprema da dor? E não estaria você, que sofre, simplesmente acostumado com sua dor, a ponto de se sentir perfeitamente feliz e satisfeito com ela? Acostuma-se. Felicidade e tristeza, afinal, são questões de costume.

sábado, 15 de junho de 2013

O SABOR DE SER 19

[Como se hoje fosse ainda dia 14:]

  19 anos, hoje. São, pelo que diz a calculadora, 6650 dias. 79800 horas. Minutos infindáveis de uma existência quase que exclusivamente dedicada ao ócio improdutivo e à procrastinação eterna, mesclados com raros momentos de inspiração abobalhada.
  A verdade é que me sinto muito mais tendo 19 (tão abstrato e ao mesmo tempo tão concreto), do que sendo, propriamente, dezenove-anos. Eu tenho esse número exato, mas não é como se eu mesma ele fosse. Fico na indefinição do ser-se e/mas não sentir-se (deixe as ênclises aí).
  O próprio dia de hoje já amanheceu assim, dúbio. Belo, mas dúbio. Dúbia Fortaleza chuvosa, envolta num vento quase enregelante, ainda que com aquele mormaço sufocante e um sol de crestar miolos. Um calor-frio, uma luminosidade opaca, um brilho intenso filtrado por um céu nublado de grossos e cinzentos chumaços de algodão, enquanto se sua e se treme à espera do ônibus que nunca virá, porque o caos urbano não refresca nem mesmo para os aniversariantes.
  Contudo, embora eu molhada de inconstâncias e incertitudes, foi este um dia feliz. Um daqueles dias em que se sorri para os gatinhos marajás, paxás a se lamberem regiamente sob o sol da UFC, um daqueles dias em que não se enxota a formigona que subiu no seu pé, um daqueles dias em que você se descobre um ser amado.
  A minha ideia de velhice não era uma vida solitária rodeada por felinos. A minha ideia de velhice máxima, há alguns centênios, era completar 13 anos. Número não totalmente aleatório. Acontece que eu devia ter lá meus sete, quando uma prima mais velha, que morava no Rio, mandou-me uma carta, e nela havia um desenho cujo título era "Bárbara aos 13 anos". A figura angulosa conseguira mais ou menos domar um cabelo leonino e detinha uma estreiteza de dar inveja. Ter treze anos passou, assim, a representar o auge do amadurecimento, o ser alguém no mundo, com um metro quadrado de existência autônoma.
  E eu costumava achar um saco ser criança. Era cruel. Porque criança sofria (aqui o eco da menina que desde sempre foi um bocadinho melancólica), não podia participar das confabulações dos adultos na cozinha, e tinha sempre que ficar vigiando a postura e passando cuspe no joelho pra tirar a "tuíra".
  Enfim, alcancei os treze. Sem grandes arroubos. Passei pelos superestimados 18, e chego agora, discretamente, aos 19. Com aquele ar mais ou menos fatigado e o sorrisinho meio que desdenhoso-condescendente de quem enfim compreendeu o grande lugar-comum dos adultos: crescer não é tão mágico assim...
  É, afinal, só uma questão de ser forçado a aprender de uma vez por todas a atravessar a rua sem a mão amiga entrelaçada à sua; e é ainda apenas questão de fazer o seu próprio pedido à atendente no caixa do McDonald's (contendo o desejo ardoroso de pedir um McLanche Feliz e descolar para si aquele brinde tão maneiro do Keroppi); crescer é apenas uma questão de aprender a pegar o ônibus certo e fazer o favor de não chorar caso você se perca.
  Ter 19, ou mesmo o 13 idealizado, consiste basicamente em dominar todas essas habilidades desiluminadas. Não importa se você foi uma criança que aprendeu a pintar magnificamente com o lápis de cor, sem sair da linha, aos três anos de idade. O que importa ao externo é que você não seja um pobre coitado de 19 anos que ainda atravessa a rua feito um trem descarrilado e sofre com a voz embargada ao tentar perfurar a carapaça da timidez e fazer o seu pedido à mocinha impaciente e meio surda do caixa.
  Mas, bom, a intenção não era transformar esse texto num daqueles manifestos a favor dos que não querem crescer. Eu mesma não quero ser um desses que não quer crescer... Mas quero fazer de mim um daqueles adultos que se olham no espelho e conseguem se perdoar por terem crescido, e que não se levam muito a sério, e que gargalham sozinhos ao notar, depois de uma hora incessante de busca, que os óculos estavam, desde o início, estacionados no topo da cabeça!
  Enfim, todas essas bobagens rabiscadas simplesmente para balbuciar que foi este um dia bom, um dia feliz. O teor da reflexão murcha pode parecer ter sido feito para murchar também quem lê, mas não. São apenas aquelas coisas que a gente despeja quando encontra a desculpa de ter nascido no bendito dia presente.
  Por fim, notas de rodapé:  talvez a maturidade ordinária que se espera de alguém que se diz um 19 anos só me brote mesmo quando eu for para lá dos 30.
  Especificamente quanto ao dia de hoje, 14, gostaria que meu avô estivesse aqui em Fortaleza com a gente. E também a minha mãe. E minha irmã. E tios. E primos. Mas aceitar as circunstâncias intransponíveis com resignação e desprendimento faz parte também de crescer, eu imagino, e ao menos este amadurecimento eu me concedo (tento).
  Vovó chorou hoje, é claro, como era de se esperar. E o elemento desencadeador foi o "bonequinha" com que um de meus tios iniciou a mensagem de parabéns à aniversariante. E pensei, cá com meus botões (de celular): "Ainda bem que, neste país estrangeiro (que é a idade dos que já amadureceram), pelo menos nos permitem chorar...".

um vislumbre da velhice

sábado, 16 de março de 2013

COMO DIZER...?

Como dizer para aquele seu amigo ou conhecido que, no inglês, o adjetivo vem antes do substantivo? Que você quer de volta aquele livro que emprestou há mais de um ano? Que os acentos não existem por acaso, e devem ser colocados nas palavras dos trabalhos que vocês fizerem juntos? Que o personagem que ele mais gosta vai morrer antes do final da série/livro e, por isso, é melhor não se afeiçoar tanto? Que ouvir sertanejo não o promove a uma categoria de seres humanos legais? Que usar os cortes de cabelo do Neymar não faz dele um grande jogador de futebol-pegador-ricaço? Que o perfume que usa dá náuseas? Que mastigar de boca aberta e fazendo barulho ainda não está na moda? Que batom azul assusta? Que você prefere pizza sem cebola? Que não quer ganhar um ovo de páscoa de Charge, porque não gosta de chocolate com amendoim? Que não se pronuncia "Keiti" Richards? Que as montagens fotográficas que ele faz são toscas? Que ninguém se interessa por seu coração partido semanalmente? Que ninguém quer saber onde ele está nem o que anda comendo? Que ninguém liga para o fato de se sentir feliz porque hoje é sábado? Que é chato - e ilógico -  reclamar de dor de cabeça e continuar no Facebook? Que Johnny Depp não é uma espécie de messias? Que elogiar a fotografia de um filme não faz dele um crítico de cinema? Que ele não sabe usar as palavras "paradigma", "estereótipo", "paradoxo" e "clichê" nos contextos certos? Que dor de corno nas redes sociais é mais repelente que ao vivo? Que ele não tem autoridade para corrigir a gramática de ninguém? Que ele superestima o consumo de Doritos? Que compartilhar fotos de cachorrinhos e bebês desconhecidos não o torna cativante? Que seu gosto musical o está reduzindo a uma ameba? Que ele coloca vírgulas onde não deveria? Que ser poeta de Facebook é mais ridículo que lírico? Que ninguém está dando a mínima para o seu aumento de bíceps? Que exibir glúteos e glândulas mamárias em fotos não atrai pensamentos saudáveis? Que ele não é bom em inventar piadas? Que não vai conseguir passar em Medicina? Que não desenha nem de perto "bem"? Que jamais será um escritor? Que seu francês é sofrível? Que aquela foi uma curtida irônica de fulano? Que ter pintado o cabelo foi um erro? Que gostar de velha MPB ou derivados não o faz mais adulto ou intelectual? Que ter dreads não o promove a nenhuma categoria de almejada idiossincrasia? Que ele não precisa baixar toda a discografia e decorar todos os nomes dos integrantes e seus parentes para se tornar fã de uma banda? Que ninguém jamais curtirá seus vídeos no YouTube gravados com a câmera do Motorola V3 e, se depender disso, jamais será um grande vlogger? Que "A batalha do apocalipse" não é "o melhor livro do mundo"? Que tirar fotos de boca torta é quase tão traumatizante quanto com a língua de fora? Que dá vergonha ao vê-lo citar Caio Fernando Abreu ou Paulo Coelho? Que andar com uma garrafinha de água pra cima e pra baixo é broxante?
Como? Como?
Faça o seguinte: mostre esta postagem a ele; cole no mural, faça o link sutilmente escorregar em alguma rede social, ou abra a janela no notebook e saia de fininho, e deixe o resto por conta do cidadão... E se, ao final, não resultar... Bem, arranje novos amigos.

quinta-feira, 7 de março de 2013

OS QUE FUNCIONAM EM OUTRA FREQUÊNCIA

Me intriga, e talvez também me assuste, essa coisa das pessoas que funcionam em outra frequência. Tomando por padrão o regular, tomando por comum o frequente, o que eu vejo? Minhas amigas tendo bebês. Não sei se é idade suficiente, mas, não, talvez já não seja essa velha questão de idade (o ponto é que eu perdi a noção de adolescência e juventude depois dos quinze, já não sei quão jovem - ou quão velho - é ter 19/20 anos). Esqueçamos a idade. É mais sobre lidar com esse fato de pessoas tão próximas a você estarem fazendo novas pessoas dentro delas... Parece clichê, mas se torna curioso e levemente surreal quando se prova tête-à-tête: as crianças cresceram e agora estão botando no mundo outras crianças.
Contudo, não diz respeito somente à maternidade - prematura ou não, a questão é: inesperada; você não viu isso chegar -, mas a outros fatores da vida. Você agora é grande o bastante para ver pessoas casarem. Grande o bastante para ver pessoas morrerem. Grande o bastante para ver alguns de seus ídolos - e nem precisa necessariamente ser um de seus ídolos, basta alguém que você considerava imorrível ou inexpugnável, pode ser Chávez, ou até mesmo o Papa - irem embora um a um... E você vai se tornando esse ser absurdo que costumava ser seus pais: gente velha que admirava estátuas que já tinham morrido. Os seus estão morrendo agora também.
Então vem a questão da frequência diferente: você não se acostuma. Não tem jeito, você não consegue fazer o coração bater nesse mesmo ritmo - lento e suave ou forte e perigoso - que agora bate o coração dos outros que estiverem todo esse tempo com você. Seu coração não funciona mais como o deles, ou nunca funcionou. Sua mente também trabalha à parte, é mais lenta, mais profunda, demora a se acostumar. Sua alma também não sabe...
É essa a outra frequência assustadora: você ver tudo mudar ao redor enquanto permanece caçando mistérios num instante perdido depois da meia-noite, enquanto todos os outros dormem, ou simplesmente existem...

domingo, 25 de novembro de 2012

FALANDO COM DEUS

Senhor, cansei de tentar parecer inteligente.
Faz de mim logo um pitéu e me poupa desses esforços vãos...

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

FALSA CONFISSÃO

Tempo em que não se pode chorar. A garganta seca, os olhos ardem, mas lágrima alguma cai. A água que escorre é seca e feita de vento. Derrama-se dos olhos unicamente a aridez.
Tempo em que não se pode confiar. Confia-se, desconfiando. E a confiança, quando vem ou vai sincera, é apunhalada, aqui ou lá. Tempo em que fazem mal querendo fazer o bem. E o bem tornou-se uma abstração forçosa de quem teima em crer que há razão em fazer o que faz.
Tempo em que os estômagos se contraem, e o peito dispara, cavalga, explode. Mas não há emoção. É só essa secura ardorosa que oprime e impede, ao mesmo tempo, de sentir, enquanto se sente tudo o que não pode ser exprimido.
Tempo em que as palavras rasgam almas, e o silêncio também. Tempo em que essas palavras ferem até sem querer. Elas ferem e só. Tempo em que os gritos são sempre gritos, até quando sussurrados. Mas já não dizem nada. A dor não se derrama. Junto com a dor, a própria punição: Permanece aprisionada no recipiente invisível do ser, indecifrável, inviolável.
Tempo em que se tenta falar sobre algo, se tenta clamar, implorar, confessar... E as intenções todas se fazem vazias. As confissões mais tolas, as mais sinceras, as mais rudes, as mais graves e sérias... São todas invólucros vazios, que encerram somente o não ser nada, o direito a nada, nada além da própria miséria interna.
Há somente a vontade. Mas não conta. As intenções são todas mortas.


sexta-feira, 20 de julho de 2012

QUEM SOU EU

Eu sou
um sinal na bochecha.
Eu sou
uma dentição mal-feita.
Eu sou
uma cabeleira rebelde.
Eu sou
pele peluda.
Eu sou
resquícios de textos.
Eu sou
um nariz de tubérculo.
Eu sou
dois olhos manchados.
Eu sou
manto estriado.
Eu sou
pés chatos.
Eu sou
o que fazes de mim.
Quando, na verdade,
não sou.


quinta-feira, 14 de junho de 2012

MAIORIDADE

Eis que chegou o meu aniversário, e praticamente já se foi por completo. Dia 14 de junho, 18 anos.
A maioridade pouco significa para mim, na verdade. Muito provavelmente só terei legitimado a maioria de meus direitos quando estiver para lá dos 30. No entanto, dezoito anos de vida serviram-me para ensinar certas coisas consideráveis. Segue a lista de exemplos:

"Nunca tenha apenas um único fone de ouvido. Você certamente viverá perdendo-o com mais frequência do que imagina"

"Nunca minta para a sua mãe. Ela sempre saberá a verdade"

"Nunca deixe seus pertences eletrônicos no chão. Eles podem ser pisados. E o desleixo nunca mais teve o mesmo charme depois que invetaram as telas de cristal líquido"

"Nunca acredite no que dizem durante o ensino médio. A liberdade universitária é uma ilusão"

"Nunca crie um blog. Se criar, não ponha expectativas sobre ele. Será apenas um lugar no qual você desvendará grandes mistérios da natureza humana sem que ninguém jamais leia"

... Brincadeirinha. Bom, até que é verdade, mas o ponto não é esse, com os exemplos expostos aí em cima. O ponto é que, por mais que eu tenha dito ao longo de todo este dia coisas do tipo "sim, é 18, mas me sinto como se fossem 15", e tenha escutado muitas coisas parecidas a "18 já?! Mas nem parece!...", sinto que mudei um tantinho. Não sei explicar... É essa coisa de ter consciência, ainda que não muito clara, de que você acabou de vencer uma etapa, conquistou outra, novos degraus se elevam a partir deste ponto. De certa forma, pressente-se o marco. É um marco. Sei que já não serei a mesma que fui até aqui, mas permaneço sendo eu mesma. Espero que bem melhor.
Agradeço ao SENHOR por tudo. Como o garçom na churrascaria disse: "Mais um ano de vida nos caminhos do SENHOR é sempre só bênção!". AMÉM.


sábado, 9 de junho de 2012

NÃO SE DESAMA DANDO UM MERO TCHAU

Porque deixar de amar não é normal...

A sabedoria musical é incrível. Ensinando um mundo com apenas um verso.
Muitas vezes, independentemente de qual canção se trate, você de repente se depara com uma verdadeira pérola da essência e experiência humana...
Penso, na verdade não só eu, afinal, é um fato conhecido por pessoas sábias e conscientes, que o amor não é essa coisa despretensiosa e à-toa que muita gente sente, julgando ser válido, como se se pudesse amar movido por forças estranhas e oscilantes, morríveis a qualquer momento. O amor não é isso, é claro que não. Não assim - descartável. Coisa aleatória e descartável. O amor não. E, de fato, deixar de amar não é normal. Porque se você escolhe amar alguém, a tendência é que seja uma atitude definitiva, não? É um paradoxo pensar num amor que acaba, que se extingue. Estamos falando de amor como tem que ser. Dificilmente alcançado, mas possível. Porque pessoas capazes de entendê-lo existem sim.
Enfim, a infinitude do amor já está contida nele mesmo. É idiotizante supor que o "produto" vem com prazo de validade. Mais triste ainda é comprá-lo vencido. A mercadoria então era falsa.
O ponto é: admirável essa sapiência musical que paira ao redor de nós e na qual poucas vezes reparamos. Como uma espécie de cérebro que maquina a lógica das palavras por trás das rimas, e que existe independente de quem as executa ou como as executa. Parece uma instituição autônoma, que planta suas profundas considerações nas músicas que bem lhe aprouver, falando a nossas almas e mentes de maneira tão deliciosamente misteriosa e bem traduzida!...

quarta-feira, 30 de maio de 2012

O ADEUS

De algum modo, eu sabia, pressentia que este momento chegaria.
Momento em que deixo para trás velhos hábitos. Momento em que descubro, bastante atordoada, mas ciente, em meio às esquinas da livraria, que os livros que sempre li e que sempre me emocionaram e me distraíram e me acalentaram já não me apetecem mais.
Momento em que chego à borda das lombadas, e capas cor-de-rosa e azul-celeste não me sugerem mais nada, não me seduzem. Momento em que passo pela estante da distração, do escapismo, da massificação, do infanto-juvenil, do chick-lit, do trivial, do bobo, e nada daquilo mais me chama.
2h frenéticas, à caça, e nada. Nem um arroubozinho sequer.
O que fazer?... Não sei.
O adeus. O momento em que percebo que, de certa forma, amadureci, pois o que antes para mim era normal, muitas vezes sagrado e inquestionável, hoje parece verde e infantil. Maturei, sim, talvez. Mas não o bastante para encarar os clássicos... Os quais ainda me cansam antes mesmo que eu comece a lê-los!
Parece que ainda não sou adulta, mas também não mais criança, nem adolescente - eis o meu vácuo literário... Estou vivendo-o. Na espera de que algum arroubo venha me tirar da letargia. Porque já não há tesão por Sheldon, Nora Roberts e Danielle Steel, contudo, ainda não estou preparada para Wilde, Byron, Mansfield, enfim, toda a corja britânica, e igualmente despreparada para Eco, García Márquez e Italo Calvino. Tanta pretensa intelectualidade aglomerada ao redor desses nomes me enfada, me enerva...
E eu fico assim mesmo, sem nada ler. Não conseguindo, assim, ler nada além de mim mesma.


segunda-feira, 21 de maio de 2012

MULHERES, REPITAM COMIGO:

— Não mendigarei o amor de ninguém. Também não barganharei usando o amor como moeda de troca. Amarei indistintamente. Amarei como me amo. Se não me amarem de volta, azar de quem me perdeu. Ou melhor, não sou coisa para ser possuída e perdida. Então azar mesmo é de quem não soube me valorizar. Todavia, ponho-me superior a tudo isso - sentimentos são preciosos demais para que eu estrague minha própria vida chateada ante a incapacidade ou desleixo emocional de terceiros.
Não vou deixar que me classifiquem, massacrando-me, nem aceitar rótulos alheios. Meu bom-gosto ou falta dele pode até ser julgado de acordo com o que porto ou trajo, mas isso também é relativo, e o meu valor real não é medido pelo tamanho do meu salto, pela cor do meu sapato, pela cor do meu esmalte, pela cor do meu cabelo ou pela cor da minha pele. Não tenho que me sentir inferior por que alguém diz: "Prefiro as branquinhas". Não tenho que me sentir inferior por que alguém diz: "Mulheres negras têm o corpo perfeito, as outras não". O que é o corpo? Matéria que se corrói. Não tenho que me sentir inferior nem mesmo se as minhas feições todas, até as microscópicas nuanças, não correspondem ao padrão de beleza preponderante. Não faço parte d'um gado. Ainda que eu busque minha identidade dentro de uma coletividade osmótica, não sou cópia, não sou réplica, não sou arremedo de ninguém.
Não vou deixar nenhum tolo tacanho me lobotomizar, fazendo-me acreditar que a sortuda sou eu, por ele estar junto comigo. Não vou encarar a vida como uma missão a ser cumprida unicamente para se subir ao altar e afins. Porque, se assim encaro, deixo de viver no momento em que me enrolar por entre as rendas matrimoniais ou amigadas. E fim.
Também não azucrinarei ninguém com minhas próprias exigências. Se quero algo, que venha de mim, e que eu seja a primeira dar. Mas que eu não seja a única. No momento cauteloso das primeiras interações, em que eu perceber que a hipotética outra metade não é a minha exata metade, da mesma maneira doada e rendida, revejo o cenário, pulo fora de cena.
Ademais, não fingirei que sou um poço de atitude, quando tudo o que eu quero é mergulhar-me em letargia, ver filmes românticos, de coque e pantufa, sentada no sofá com meus velhos.
Não vou fingir que tenho a vida mais emocionante do mundo, que fui a todos os lugares, que vi de tudo e provei de tudo, quando na verdade ser pura e simplesmente eu é tudo o que o meu coração almeja.
Não vou me iludir, fantasiar, por exemplo, repetindo o mantra: “Todos os machos da espécie me desejam”, com a convicção ilusória de que isso é felicidade, e de que minha "presença de palco" seduz a todos, e meu espírito aventureiro não me prende a ninguém, deixando, assim, um rastro de lágrimas e cacos aos meus pés.
Tudo o que eu quero, e que vou ser, é ser eu, sem a pretensão arrogante de ser eu e mais um pouco, quando o meu eu já encerra tudo. Terei dois ou três admiradores, dentre os quais papai e/ou mamãe, nenhuma bisonha ambição de sair por aí ferindo os corações de outrem, por mais glamoroso que isso pareça através das lentes cor-de-rosa.
Vou ser uma pessoa centrada, se é o que quero ser; cuidando bem de mim também, e zelando pela vida que carrego, por mais que vozes no entorno digam que o bacana mesmo é relevar, curtir despreocupadamente, desesperadamente, pular de noite em noite, de agito em agito, de trago em trago, de espetáculo em espetáculo, de horror em horror, de vazio em vazio. Banalidade cíclica! E se eu quiser ser quadrada? E se gosto de mim muito mais quando sou quadrada? Serei quadrada e pronto!
Que se danem as expectativas não maturadas. Os lugares que eu "tenho" que ir, as pessoas que eu "tenho" que conhecer, as iguarias que eu "tenho" que provar, os olhos que eu "tenho" que capturar!
Eu não tenho que comer sushi/sashimi só porque os outros ocidentais encasquetaram de "sacralizar" o arroz empapado e o peixe cru. Não tenho que ler os livros que todo mundo lê só pelo medo de, caso não o faça, parecer burra, bitolada ou antiquada e démodé.
Eu não tenho, na verdade, a obrigação de ser nada. E se eu quiser ser um nada, que seja, essa será a minha única obrigação! O meu dever, primeiramente, é comigo. Eu sou, aqui na Terra, em termos triviais e brutos, o meu melhor amigo. Pois eu é que convivo comigo mesma todos os dias da minha vida, convivo de dentro para fora, e vejo o mundo através dos meus próprios olhos. Se eu não buscar ser eu, rapidamente me sufocarei, e me matarei, e então viver dentro de mim será insuportável, porque serei eu e milhões de outros eus intoleráveis, intragáveis, oscilantes, multipolares. Por isso mesmo é que todas as mulheres de mim, já as matei. E a cada novo dia será um novo dia, mas eu permaneço sendo eu, aqui, aprendendo de mim e dos outros, crescendo e moldando-me, no entanto portando a mesma essência do meu eu, que é única, irrepetível, e só minha. Só eu.

“Todas as belezas contêm, assim como todos os fenômenos possíveis, algo de eterno e algo de transitório, de absoluto e de particular. A beleza absoluta e eterna inexiste, ou melhor, é apenas uma abstração empobrecida na superfície geral das diferentes belezas. O elemento particular de cada beleza vem das paixões, e como temos nossas paixões particulares, temos nossa beleza particular.”
Charles Baudelaire



quinta-feira, 10 de maio de 2012

MINHA PINTA

Simplesmente odeio esta pinta. Odeio. Ela sempre me passa a sensação de que não deveria estar aqui, tão folgadamente alinhada em meio a meus poros, na bochecha esquerda.
Querendo ou não, a pessoa que tem uma pinta é diferente das demais. Vive como se não a tivesse, mas tem. A todo momento, o subconsciente do indivíduo detentor da pinta faz com que esse pobre inocente acredite que a tal da pinta não está ali, esquecendo-a satisfatoriamente. No entanto, ela está. E é só cruzar com um espelho, que a verdade outra vez se desnuda: Eis a pinta! Austera, invasora, caótica, assimétrica.
Viver portando uma pinta não é tarefa fácil. Quem as possui, sim, vive, mas nem sempre se conforma ou tranquiliza. Eu me conformo, algumas vezes, quando deixo de achar que a pintinha tem alguma relevância em minha existência - meu fracasso ou meu sucesso... Mas, na maior parte do tempo, ei-la, me incomodando!
Eu tiraria esta pinta. Tiraria mesmo. Queria ter um rosto uniforme. Não gosto que a genética ou o acaso das pintas imponha-me algo que não deveria estar aqui. De fato, todo o resto se comporta, ainda que nem sempre belo: nariz grande tem sua razão de ser, olhos meio tristonhos, segundo minha mãe, também têm sua razão de ser, queixo fino tem sua razão de ser, testa larga tem sua razão de ser, dentes de ratinho têm sua razão de ser... Mas, pinta?! Não!
No entanto, nos momentos em que a dita cuja me consola, seja lá por qual motivo, quando somos só eu e ela... Não sei...
Nesses momentos, chego a pensar que esta pinta faz de mim um ser não puramente diferente, mas também especial. Chego a cogitar hipóteses tão belas para o futuro, em que passarei pela rua, e todos apontarão, deslumbrados: "Olha!... É a garota da pinta!...". E então esta pinta será até maior do que eu. E todos me conhecerão como "a garota da pinta no rosto", "a exótica garota da pinta no rosto", e não mais eu terei uma triste pinta, e sim a pinta é que me terá em seu rosto...
E o devaneio logo passa, e volto a odiá-la. Mas que seria belo, ah!, isso seria...


quarta-feira, 14 de março de 2012

EMPANTIPATIA

Só quem já provou um verdadeiro desamor à primeira vista, pode ter noção do que vem a ser a empantipatia.
"Empantipatia" é, como bem suposto, a junção de antipatia com empatia. Configura-se "empantipatia" quando antipatia e empatia coexistem de maneira inconsciente e perfeitamente instável.
Essa mescla de emoções, que na realidade consiste num só sentimento, aparece normalmente quando um indivíduo se sente pessoal e profundamente perturbado com a existência de um outro determinado indivíduo. Aí está o desamor à primeira vista, também conhecido por "nojinho", e este desamor é sempre prenúncio à tal empantipatia.
Não passa de um amor não professado. Sabe-se lá por quais medos, projeções, anseios...
Mas voltemos.
O quadro de sutil desamor logo evolui e transforma-se em antipatia bruta, nojo mortal, asco sem limites e indefinível. Você não sabe muito bem por que despreza tanto a esse seu semelhante, mas sabe unicamente que a mera pronúncia do nome da pessoa já é capaz de despertar em você as maiores crises de ira e golfadas.
Mas o que você não sabe é que toda essa antipatia, no fundo da sua mente, adormecida no mais remoto recôndito do seu coração, na verdade é a pura e simples empatia.
De fato, essa sua antipatia quase irracional pode ser perfeitamente explicada: você não se dá com determinada pessoa porque enxerga nela você mesmo. E não consegue evitar desprezá-la, para não desprezar-se, porque ela reflete você de uma maneira irrevogável. Tanto os pontos positivos, quando os negativos. Ainda que sua antipatia insista em reconhecer somente estes últimos.
Desta forma, a empantipatia ocorre quando a discórdia que você nutre para com alguém encontra explicação no fato de que você se parece com o alvo do seu desprezo muito mais do que gostaria.
Afinal, é sempre aquela história... A linha tênue do amor e ódio... Neste caso, também quem prevalece é o amor. Ou melhor, a empatia.
E tudo se dá de maneira metódica e bem familiar (você provavelmente conhece o passo-a-passo, mas de outros contextos): Você nega, mesmo depois de muito tempo desprezando aquele em quem você se projeta; em seguida, vem a raiva; após isso, a tristeza; e, por fim, a aversão se transforma em confortável aceitação.
E tudo então deságua numa curiosa amizade... Já que, apesar de enxergar no outro o seu pior, não dá para resistir a ter como melhor amigo alguém com as mesmas melhores partes de você.



domingo, 22 de janeiro de 2012

VEROSSIMILHANÇAS DE GRISELDA E TEREZA CRISTINA


Texto para a coluna Antenados, do jornal Tribuna Amapaense, em 7 de janeiro de 2012.

Não existe nada de verossímil em Tereza Cristina Velmont, muito menos em Griselda Pereira. Ou seja, essas duas personagens do horário nobre são seres inventados que, por mais redundante que possa parecer, jamais ocorreriam na vida real.
A começar pelos nomes. Onde no Brasil uma pessoa de fina estirpe se chama "Tereza Cristina"? Que combinação mais esdrúxula! Bem, até há certas misturas às quais já nos adaptamos. Exemplos: Ana Paula, Ana Júlia, Paulo Vitor, Carlos Eduardo, e etc. Mas, Tereza Cristina?! Eca.
Já sobre a mocinha do enredo, nunca conheci, nem ouvi falar de alguém que conhecia alguém que conhecia alguém de nome “Griselda”. Tudo bem que a "Griseldinha" não é brasileira, é portuguesa, mas duvido que existam muitas outras na terra dos lusitanos.
De volta à nossa vilã Tereza Cristina, falemos agora de sua conduta pérfida no agir e no vestir. Pode até ser que ela traje Versace, mas será que precisa usar sempre tudo “combinandinho”?! Vestido azul, colar azul, brinco azul, lingerie azul, lente de contato azul... Ufa! A ricaça poderia aprender mais com seu pajem colorido, o Crodoaldo (este nome então não vamos nem comentar...).
E sobre o rastro de crimes e malvadezas que Tereza Cristina deixa atrás de si? Não há consequências? O mau-caratismo da mulher é outra inverossimilhança das brabas... Ela já matou na escada, matou na estrada, matou no hospital, tocou fogo na casa da portuguesa... E sempre escapa impune. Com tanto talento e criatividade, difícil é acreditar que nunca arrumou um ofício para dar sentido à sua vida.
A respeito de Griselda, acrescento: se eu ganhasse 50 milhões, será que continuaria por aqui, chorando as pitangas com minhas comadres (sem lhes dar um mísero milhão), suando litros a fim de manter uma lojinha de ferramentas, enquanto minha filha continua a vender cremes, meu filho numa pensão, e o outro desempregado? É claro que não! Eu mandaria todo mundo pra Sorbonne e ia cuidar dos trâmites pra fazer meu pé-de-meia lá na China, enquanto curtia horrores em Ibiza.
Enfim. O que quero dizer é que, apesar de ter um apelo popular incrível, devido ao exagero tragicômico de seus personagens, a novela “Fina Estampa” é uma impossibilidade por si só. Como já dito, a trama pode até fazer sucesso, porque os telespectadores gostam de ver suas mazelas e virtudes ali, maximizadas... Mas não por muito tempo. Essa fanfarronice toda enjoa. Os personagens são extremamente caricatos. Não há neles as camadas das cebolas, que só os melhores autores conseguem descascar capítulo após capítulo.
Volto a afirmar: Nenhuma daquelas pessoas existiria na vida real, simplesmente porque são boas demais, ou mesquinhas demais, ou chatas demais, ou perfeitas demais, ou malvadas demais, ou nada de mais... Ninguém é assim em nenhum dos cantos do globo. Todos nós somos dotados de imperfeições e requintes, singeleza e capricho, surtos, tiques, afetações, trombas, tapas, algodão e veludo. Coexistindo. Somos personagens esféricos, vivendo novelas reais; não quadrados e óbvios, enfadonhos, nem estupidamente maravilhosos, glamorosos, audaciosos e gostosos sempre.
Desse modo, os nossos programas, nosso entretenimento em geral, devem refletir aquilo que somos, pois esta também é uma maneira de entendermos melhor a condição humana. Quando, por exemplo, assistimos a filmes ou ouvimos músicas nos quais há uma humanidade tão visceral e, ao mesmo tempo, uma beleza tão angélica, nós começamos a nos compreender melhor.
Não pretendo aqui afirmar que, para prestar, nossas distrações precisem ser exaustivamente sérias, sisudas e espartanas. Não é isso. As próprias telenovelas também servem para escapulirmos um pouco das novelas da vida real, não?... Pois bem, que seja válvula de escape, que seja invenção, criatividade, uma dose certa de exagero. Mas até o surrealismo conserva em seu nome o radical palpável da realidade.
A saga Harry Potter, por exemplo. Apesar de um aparente besteirol mistificado, conserva algo indispensável à verossimilhança, que supera a minúcia de sua autora: todos aqueles seres bizarros que lemos ou vimos são recheados de dilemas e questões demasiado humanos.
Assim, o que proponho não chega a ser nenhuma revolução televisiva ou qualquer prepotência do gênero. Também não sugiro que se troque o controle remoto por um exemplar do Nietzsche. Quero apenas, com todo o meu charmoso pedantismo, sugerir à rede Globo que me contrate para escrever a próxima novela das nove. Serei extraordinária, sem perder o elã da realidade.