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sexta-feira, 13 de março de 2015
SOÇOBRO
Tudo o que eu tenho guardado num porta-joia de pérolas são escamas, ásperas. Arranquei-as contra a vontade do peixe. Sufoquei-o com uma moeda de prata. Não era a mesma moeda e nem era o mesmo peixe do Evangelho. Era um dobrão de intenções todas perversas, nele lavradas. O peixe morto voltou ao mar e eu fiquei com as mãos cortadas, com a água pairando à altura dos artelhos, e cabelos molhados como que feitos de algas azuis e enxofre. E quando me dei conta era na minha glote que a moeda girava, fincada, e nos meus olhos é que as escamas como garras se escondiam. Esta terá sido no futuro do meu passado a crônica dos meus amores, esfacelados, descrita nos pergaminhos indeléveis de aço cromado cheirando a peixe. Escamas frágeis que fingi joias. A coleção completa esquecida dentro da caixinha de pérolas silenciada na gaveta da escrivaninha Luís XVI do antiquário da rua Campo Amor que negocia agora nenúfares porque no futuro se descobriu que nós do século superado havíamos entendido errado todo o conceito do que tem valor.
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
POR UM FIM
Não vivo o momento mais contente nem mais produtivo da minha vida, mas há aqui, exatamente nessa tristeza inapta, desgastada e estéril, algum potencial para um brilhantismo meio tosco e manco. Adoravelmente rebarbado contra o mundo e contra mim mesma.
Sobrevivo. Tenho amigos, compro livros, como bem, durmo à noite.
Mas às vezes não durmo, e nenhum braço me acolhe. Não conto tudo a todos e de certo modo ter segredos é como não ter amigos. Os livros que compro empilham-se, intactos. Não consigo ler. Pulo refeições. Às vezes a cabeça dói porque eu simplesmente não tive vontade de dar ouvidos ao estômago.
Enfim.
É uma vida boa, esta minha, porém despida de muito que seja vida abundante. É uma vida que me cabe. Mas me aperta.
Sobrevivo. Tenho amigos, compro livros, como bem, durmo à noite.
Mas às vezes não durmo, e nenhum braço me acolhe. Não conto tudo a todos e de certo modo ter segredos é como não ter amigos. Os livros que compro empilham-se, intactos. Não consigo ler. Pulo refeições. Às vezes a cabeça dói porque eu simplesmente não tive vontade de dar ouvidos ao estômago.
Enfim.
É uma vida boa, esta minha, porém despida de muito que seja vida abundante. É uma vida que me cabe. Mas me aperta.
terça-feira, 11 de novembro de 2014
INAUGURAÇÃO
Ter conseguido finalmente instalar no cel o app do blogspot e descobrir que nada aqui é confortável, e que não me cabe, e que, no espacinho claustrofóbico da postagem, eu não me encontro.
domingo, 18 de maio de 2014
UNGRATEFUL CHILD
Eu me sinto tão angustiada e apreensiva nesse momento, mas pela primeira vez em muito tempo não sei por quê... E de uma forma estranha, em alguma parte da minha mente, eu sei. Mas deixo os pensamentos vagos flutuarem com as respostas criptografadas, e vão para muito longe da minha própria consciência, embora sobre a superfície naveguem, porque assim eu as retenho, mas não as conheço, uma vez que eu realmente não quero saber o que eu de algum modo sei que sei.
Ou
a busca involuntária por uma perpétua insatisfação na vida.
Ou
a busca involuntária por uma perpétua insatisfação na vida.
domingo, 20 de abril de 2014
PROMESSA À SEMENTE
Dar-te-ei os bocadinhos de dor e sofrimento necessários para te fazer irresistivelmente adorável.
[Li em algum lugar um algo assim. Reelaborei. O plágio é sincero: a ideia é doce.]
[Li em algum lugar um algo assim. Reelaborei. O plágio é sincero: a ideia é doce.]
sábado, 28 de setembro de 2013
DE COMO DESPREZO GENTE FELIZ QUE SE CONTENTA E GENTE INFELIZ QUE NÃO SE CONTENTA NUNCA
Se o mundo fosse dividido apenas em pessoas felizes e infelizes, sem gradações, e sem mentiras, e falsos enganos, de que lado você estaria? E como pode ter tanta certeza? O que é felicidade? O que é tristeza? Não seria a certeza da felicidade uma negação suprema da dor? E não estaria você, que sofre, simplesmente acostumado com sua dor, a ponto de se sentir perfeitamente feliz e satisfeito com ela? Acostuma-se. Felicidade e tristeza, afinal, são questões de costume.
sexta-feira, 19 de julho de 2013
SEMPRE ELA... FLORBELA
O amor dum homem? - Terra tão pisada!
Gota de chuva ao vento baloiçada...
Um homem? - Quando eu sonho o amor dum deus!...
Gota de chuva ao vento baloiçada...
Um homem? - Quando eu sonho o amor dum deus!...
MEDO DE MORRER
É quando você percebe que comeu arroz estragado depois que sua tia chega em casa, cheira a panela, e descobre o fato.
Daí você espera a morte, lendo nos olhares dos outros a reprimenda por sua estupidez...
E então você não morre pelo arroz azedo com brócolis.
E a sensação de morte passa.
Mas aí, um dia, seja por arroz ou não, você morre.
Eis aí a real sensação de morte: saber que se vai morrer depois de sobreviver ao arroz.
Saber que se vai morrer mesmo depois de a sensação passar.
Daí você espera a morte, lendo nos olhares dos outros a reprimenda por sua estupidez...
E então você não morre pelo arroz azedo com brócolis.
E a sensação de morte passa.
Mas aí, um dia, seja por arroz ou não, você morre.
Eis aí a real sensação de morte: saber que se vai morrer depois de sobreviver ao arroz.
Saber que se vai morrer mesmo depois de a sensação passar.
sábado, 6 de julho de 2013
segunda-feira, 24 de junho de 2013
"saudades imortais"
"Eu ansioso pelo Sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais".
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais".
O CORVO
segunda-feira, 17 de junho de 2013
ACERCA DO HOJE
Até ontem, dizíamos de nós mesmos:
Brasileiros não têm capacidade de organização.
Brasileiros são acomodados.
Brasileiros são omissos.
Brasileiros são conformados.
Brasileiros só gostam de pão e de circo.
Brasileiros não lutam por seus direitos.
Brasileiros não vão às ruas para mudar seu país.
Brasileiros...
A partir de amanhã, dirão:
Brasileiros... destruindo seus próprios estereótipos desde 2013.
Porque lutaram.
O triste é pensar que alguns de nós, embora mudem seu discurso, permanecerão dizendo coisas do tipo:
Brasileiros... Só sabem fazer baderna.
Brasileiros não têm capacidade de organização.
Brasileiros são acomodados.
Brasileiros são omissos.
Brasileiros são conformados.
Brasileiros só gostam de pão e de circo.
Brasileiros não lutam por seus direitos.
Brasileiros não vão às ruas para mudar seu país.
Brasileiros...
A partir de amanhã, dirão:
Brasileiros... destruindo seus próprios estereótipos desde 2013.
Porque lutaram.
O triste é pensar que alguns de nós, embora mudem seu discurso, permanecerão dizendo coisas do tipo:
Brasileiros... Só sabem fazer baderna.
domingo, 16 de junho de 2013
ACERCA DO FULMINANTE SILENTE
Amo - e com tal vigor,
mas com tal silêncio,
que por vezes muito mais sofro.
mas com tal silêncio,
que por vezes muito mais sofro.
quinta-feira, 6 de junho de 2013
quinta-feira, 23 de maio de 2013
sexta-feira, 17 de maio de 2013
APRENDI UMA PALAVRA NOVA
O mal desses (já velhos) novos tempos é que tudo dá gastura na gente.
"Gaxxxxtuuura"... Assim mesmo, bem prolongada.
"Gaxxxxtuuura"... Assim mesmo, bem prolongada.
A GRIPE QUE NUNCA PASSOU
Acho que, quando eu era pequena, peguei uma gripe e ela nunca sarou. Eu tenho essa moleza de espírito que me faz arrastar pelos dias a fio, sem fazer nada. Deixo para o último segundo todas as coisas, porque a cama me chama. O travesseiro, a preguiça. Um eterno protelar de quem tem o corpo todo dengoso de gripe...
Os meus olhos lacrimejam, o meu nariz escorre, e os ossos do crânio, os dentes, todos doem. É um estado permanente. Essa vontade passiva de morrer para o mundo, essa preguiça de viver. Nada muito definitivo, apenas parado, suspenso. Poderia ser verme, mas não, é gripe, gripe de alma, já diagnostiquei.
E quando o tempo piora, cai chuva, faz sol brabo, o meu estado, como fica? Assolado. Arrasado. Garganta cortada, inflamada, gosto amargo na boca, os olhos vazios, meio melados, molhados, a coriza do coração e o tapamento dos ouvidos, enquanto a tosse literária não me larga...
É gripe, na certa. É gripe.
Os meus olhos lacrimejam, o meu nariz escorre, e os ossos do crânio, os dentes, todos doem. É um estado permanente. Essa vontade passiva de morrer para o mundo, essa preguiça de viver. Nada muito definitivo, apenas parado, suspenso. Poderia ser verme, mas não, é gripe, gripe de alma, já diagnostiquei.
E quando o tempo piora, cai chuva, faz sol brabo, o meu estado, como fica? Assolado. Arrasado. Garganta cortada, inflamada, gosto amargo na boca, os olhos vazios, meio melados, molhados, a coriza do coração e o tapamento dos ouvidos, enquanto a tosse literária não me larga...
É gripe, na certa. É gripe.
quinta-feira, 9 de maio de 2013
A minha mente é como um mundo muito, muito, muito grande, mas cíclico, que me cansa.
Gira essas voltas, sempre as mesmas voltas, à volta de mim.
E eu não sou lá tão grande para que uma rotação seja maior que a frequência delas todas, sempre iguais.
Eu tenho uma mente vasta, mas plana. Um planeta raso aprisionado aqui dentro. Voltando sempre ao mesmo enfado.
Gira essas voltas, sempre as mesmas voltas, à volta de mim.
E eu não sou lá tão grande para que uma rotação seja maior que a frequência delas todas, sempre iguais.
Eu tenho uma mente vasta, mas plana. Um planeta raso aprisionado aqui dentro. Voltando sempre ao mesmo enfado.
quarta-feira, 17 de abril de 2013
SOLIDÃO
(Poeminha de um amigo só, que me deixou ser sozinha com ele)
solidão
é uma senhora emboscada
com a inconsciência forte-mente armada
e pelo medo e a saudade acompanhada
solidão solidão é uma cilada
que no ego foi projetada
e na alma executada
Solidão
solidão
é uma senhora emboscada
com a inconsciência forte-mente armada
e pelo medo e a saudade acompanhada
solidão solidão é uma cilada
que no ego foi projetada
e na alma executada
Murilo Vieira Menezes
terça-feira, 16 de abril de 2013
quinta-feira, 21 de março de 2013
TENHO DUAS COISAS A DIZER
1ª - Preciso urgentemente de amigos que me levem para passear.
2ª - Estou apaixonada pelo presidente do México.
2ª - Estou apaixonada pelo presidente do México.
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