Murilo,
O que tenho pra te dizer é isso:
Acho que uma das maiores alegrias do Chico foi ter inaugurado a data para que um dia, nesse dia, alguém como tu nascesse. Dia já abençoado por si só, e então, vocês dois.
De pensar que te conheci pequenininho... E nem conheci bem (pelo menos não à época), mas houve um reconhecimento de almas, não achas?... E desde lá, quanto tempo? Sete anos, meu amigo. Para nós que só acumulamos 19 até agora, é ano pra mais de metro!
No começo, aquela amizade tímida. Lembras? Eu encerrada na bolha das popularidades superficiais dos 12 anos, sem atentar muito bem para o coleguinha tão legal, caladão, um tanto bisonho - autodefinição tua mesmo -, logo ali ao lado. E tu, isolado, encerrado também, mas na ostra da timidez e de certo blaseísmo que todo garoto tem até bem depois dos 12. O que nos uniu, ainda que sem grandes pretensões, talvez tenha sido, a princípio, aquele gosto pelos Hermanos. Ou a falta de sono, os hábitos cibernéticos notívagos...
Assim vieram as madrugadas de MSN - quem não sente nostalgia? -, amizades que se tornavam de infância, enquanto os históricos de conversa iam se tornando intermináveis... Te perdoo por todas as vezes em que, nesses diálogos sem quê nem pra quê, vieste fazer inveja pra mim porque tinhas o CD da Amélie e eu não. Mas o tempo corre, vira cambalhota, meu caro, e hoje eu tenho o meu também, só pra deixar claro.
Foi assim. Sete anos em que a gente mais se digitou e se idealizou do que se viu, mas permanece esta quase uma década de alguma coisa boa, confortável, doce, divertida. Amizade. Introcável. Te gosto pelo que tu és, e mais: pelo que também não dizes. Por essa aura que te cerca, percebível a distância, e que faz a gente querer ser poeta também, seja lá com que caneta for, e de que maneira for, seguindo o teu exemplo...
E o que começou com Los Hermanos, rendeu. Olha só onde estamos. E aí estás tu, até hoje, e desde de antes, todo e sempre musical. Muito mais que dividindo uma data com o Chico, fazendo a data bonita junto com ele. O que eu penso de ti é tão simples e tão profundo quanto um dos teus rabiscos de versos, ou um refrão buarqueholandesco: que há todo esse lirismo escorrendo dos teus dedos, essa poesia meio engajada, esse rap erudito, os poemas curtos, bonitos, densos no pouco espaço. E soma-se a ti aquele talento sedutor de quem não se acha à altura de si mesmo. A melancolia que, apesar de tão triste, é também tão charmosa...
Obrigada por ser um amigo tão legal. Por dividir sonhos tresloucados, compartilhar projetos, por me deixar ser o Pinky, enquanto tu és o Cérebro, e os planos loucos de dominar o mundo (dos blogs, dos livros, das canções, das artes).
Gosto mais de ti do que gosto das letras do Chico em vozes femininas (e olha que gosto bastante!). Gosto de ti na mesma medida em que resisto ao Gilberto Gil (e é bastante também!). Gosto de ti porque me fazes gostar de coisas ingostáveis. E porque és gostável também, por natureza.
Espero que não percas tudo o que há de maravilhoso em ti, nunca. Enfim, tu inteiro. Me arrisco a dizer, inclusive, protegida pela intimidade e proximidade de almas que garantiu para nós a distância física, que até mesmo o que há de mais triste e amargo na tua história, só serviu pra te tornar ainda mais isso. Isso que és. Meio indefinível, mas tão-bom.
Não fique se achando muito (porque o que tens de desligado, tens também de malandro)! A beleza está grandemente nesse teu não-saber. Te adoro, meu querido amigo! Malandragem boa, é isso que é. Ah! Anote na capa do teu Leminski de bolso (ou Drummond, ou Neruda, ou Bandeira, ou Quintana): não vá morrer aí no caos urbano. Ainda temos muita solidão pra percorrermos juntos...
Feliz aniversário.
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quarta-feira, 19 de junho de 2013
quarta-feira, 14 de março de 2012
CARTA ANÔNIMA
Cheguei em casa estourado, cansado, cansado de tanto pensar, tentar ser um cara legal. Cansado de o pessoal pisar em todo mundo no escritório, e mais ainda cansado de forçar otimismo e acreditar que tudo vai melhorar, para mim e para os outros capachos lá do serviço.
A caminho de casa, gritei, xinguei, urrei. Voltei assim caminhando feito um cão atropelado, sangrando, já nas últimas. Humilhado pelo assistente do sub-chefe, o que me resta? Isto significava não ter qualquer chance de crescer um milímetro sequer. Nunca.
Desiludi-me com a vida, de modo geral. Aquela desilusão que alguma hora nos abate. Entrei logo batendo a porta, tirei a gravata como se escapulisse da forca, joguei-me na poltrona surrada da sala. Pensei seriamente em pedir demissão, quebrar a cabeça na parede, eu sei lá. Pensei em fugir de casa, ir morar dentro do meu carro quebrado, e sobreviver da renda que daria se eu vendesse minha coleção de HQs.
"Um homem de trinta anos não pode continuar fazendo coisas de garoto"... E, é claro, eu deixaria minha esposa.
Um derrotado. Um fracasso total. Um homem sem perspectivas, sem riqueza, sem encanto.
Eu estava decidindo a melhor forma de me vingar do sistema, ou de morrer, quando ela apareceu na sala e grunhiu:
"Chegou uma carta aí pra você".
Jogou alguma coisa no meu colo, e quando abri os olhos já evaporara outra vez.
Contas! Contas a pagar!
Espera... Não.
"Hum..."
Fiquei curioso. Uma carta mesmo? O que poderia...?
No verso do envelope, no campo "destinatário", estava escrito: "Ao seu jeito manso".
O meu... O quê? Meu "jeito manso"?! Seria um código? Refrão de pagode? Engano?
Abri. Ninguém se identificava como remetente. Eu sabia, pelo menos, que não viera pelo correio. Alguém não muito longe de mim. Dediquei-me à boba alegria, de repente descoberta, de decifrar a missiva secreta.
Meu remetente anônimo começou:
"Nem tente. Não tente descobrir quem escreve a você. Será impossível, esforço inútil. Ademais, não importa. É só para dizer que você tem aí um tesouro para o qual talvez ainda nem tenha atentado, mas aí está... É esse seu jeito manso que me faz pensar que tudo ficará perfeitamente bem. Como você faz para convencer a todos de que as coisas podem realmente dar certo? Acredito que, se um dia você perder essa sua tranquilidade, o mundo também perderá de vez o próprio eixo.
Não quero que você pense que quem aqui escreve é alguma espécie de tresloucada. É apenas uma alma abatida, que um dia descobriu conforto no jeito manso de um broto tranquilo, de modos calmos e fala agradável. Esse sujeito era você. Agora sempre penso que tudo vai dar certo, porque as suas palavras naquele dia me convenceram de que seria assim. A minha vida (talvez eu esteja exagerando, mas pode ser verdade) mudou desde quando você, sem esforço nenhum, me fez entender que as coisas nunca estão muito ruins, mesmo quando assim parecem.
Agora esclareço: Eu devia isso a você. Devia esta carta em gratidão, porque até mesmo a mais singela gentileza entre desconhecidos pode gerar uma cadeia de bons acontecimentos que devem ser devidamente retribuídos. Assim eu retribuo. Pedindo a você que nunca deixe de ser a pessoa maravilhosa que você expõe, ainda que eu só tenha tido a chance de percebê-lo durante aquela curta interação no metrô... Espere! Estou falando demais. Você provavelmente não lembra. Lembra-se de quando me respondeu que horas eram, e sorriu? Não, acho que não. Mas se sim, saiba que acaba de ajuntar ainda muito mais pontos do que antes.
Enfim, meu caro desconhecido... Consegui descobrir o suficiente para chegar até aqui, ao seu endereço. E não prossigo, exceto para reforçar: Não deixe nunca de ser você. Não perca esse seu jeito manso, a voz segura e calma que falou comigo no metrô. Você parecia felicíssimo, mesmo que, conforme me disse, seu carro tivesse quebrado logo naquela manhã, tão importante. Não deixe de ser a pessoa divina que me pareceu, de coração tão leve e bom-humor imbatível, e que ainda me fez ter a irrepreensível vontade de possuir em mim essa mesma alma, esse mesmo espírito e a mesma mansidão que há em você. Não me puna por amá-lo secretamente, querido estranho, desde aquele dia... Você é um daqueles pequenos milagres".
E era tudo. Terminava aí. Abrupta e infinitamente bela. Uma letra idosa. Talvez cansada. Mas bela. Quem seria?... Eu não conseguia lembrar. Havia sido tão traumático aquele dia em que o carro quebrou e eu pegara o metrô, porque a promoção tão esperada não veio! Tudo desde então parecia vir desabando... E agora, esta carta... Esta carta escrita por... Eu não conseguia lembrar-me de jeito nenhum! Uma vaga e imprecisa ideia de que tivesse dito as horas a uma senhora grisalha e tristonha no metrô, mas não tive certeza.
Eu apenas... Apenas sorri. E o mundo voltou a ser o mesmo, o mesmo belo mundo que era belo demais para que eu pensasse em desistir.
Ah! A delícia de se descobrir especial...
A caminho de casa, gritei, xinguei, urrei. Voltei assim caminhando feito um cão atropelado, sangrando, já nas últimas. Humilhado pelo assistente do sub-chefe, o que me resta? Isto significava não ter qualquer chance de crescer um milímetro sequer. Nunca.
Desiludi-me com a vida, de modo geral. Aquela desilusão que alguma hora nos abate. Entrei logo batendo a porta, tirei a gravata como se escapulisse da forca, joguei-me na poltrona surrada da sala. Pensei seriamente em pedir demissão, quebrar a cabeça na parede, eu sei lá. Pensei em fugir de casa, ir morar dentro do meu carro quebrado, e sobreviver da renda que daria se eu vendesse minha coleção de HQs.
"Um homem de trinta anos não pode continuar fazendo coisas de garoto"... E, é claro, eu deixaria minha esposa.
Um derrotado. Um fracasso total. Um homem sem perspectivas, sem riqueza, sem encanto.
Eu estava decidindo a melhor forma de me vingar do sistema, ou de morrer, quando ela apareceu na sala e grunhiu:
"Chegou uma carta aí pra você".
Jogou alguma coisa no meu colo, e quando abri os olhos já evaporara outra vez.
Contas! Contas a pagar!
Espera... Não.
"Hum..."
Fiquei curioso. Uma carta mesmo? O que poderia...?
No verso do envelope, no campo "destinatário", estava escrito: "Ao seu jeito manso".
O meu... O quê? Meu "jeito manso"?! Seria um código? Refrão de pagode? Engano?
Abri. Ninguém se identificava como remetente. Eu sabia, pelo menos, que não viera pelo correio. Alguém não muito longe de mim. Dediquei-me à boba alegria, de repente descoberta, de decifrar a missiva secreta.
Meu remetente anônimo começou:
"Nem tente. Não tente descobrir quem escreve a você. Será impossível, esforço inútil. Ademais, não importa. É só para dizer que você tem aí um tesouro para o qual talvez ainda nem tenha atentado, mas aí está... É esse seu jeito manso que me faz pensar que tudo ficará perfeitamente bem. Como você faz para convencer a todos de que as coisas podem realmente dar certo? Acredito que, se um dia você perder essa sua tranquilidade, o mundo também perderá de vez o próprio eixo.
Não quero que você pense que quem aqui escreve é alguma espécie de tresloucada. É apenas uma alma abatida, que um dia descobriu conforto no jeito manso de um broto tranquilo, de modos calmos e fala agradável. Esse sujeito era você. Agora sempre penso que tudo vai dar certo, porque as suas palavras naquele dia me convenceram de que seria assim. A minha vida (talvez eu esteja exagerando, mas pode ser verdade) mudou desde quando você, sem esforço nenhum, me fez entender que as coisas nunca estão muito ruins, mesmo quando assim parecem.
Agora esclareço: Eu devia isso a você. Devia esta carta em gratidão, porque até mesmo a mais singela gentileza entre desconhecidos pode gerar uma cadeia de bons acontecimentos que devem ser devidamente retribuídos. Assim eu retribuo. Pedindo a você que nunca deixe de ser a pessoa maravilhosa que você expõe, ainda que eu só tenha tido a chance de percebê-lo durante aquela curta interação no metrô... Espere! Estou falando demais. Você provavelmente não lembra. Lembra-se de quando me respondeu que horas eram, e sorriu? Não, acho que não. Mas se sim, saiba que acaba de ajuntar ainda muito mais pontos do que antes.
Enfim, meu caro desconhecido... Consegui descobrir o suficiente para chegar até aqui, ao seu endereço. E não prossigo, exceto para reforçar: Não deixe nunca de ser você. Não perca esse seu jeito manso, a voz segura e calma que falou comigo no metrô. Você parecia felicíssimo, mesmo que, conforme me disse, seu carro tivesse quebrado logo naquela manhã, tão importante. Não deixe de ser a pessoa divina que me pareceu, de coração tão leve e bom-humor imbatível, e que ainda me fez ter a irrepreensível vontade de possuir em mim essa mesma alma, esse mesmo espírito e a mesma mansidão que há em você. Não me puna por amá-lo secretamente, querido estranho, desde aquele dia... Você é um daqueles pequenos milagres".
E era tudo. Terminava aí. Abrupta e infinitamente bela. Uma letra idosa. Talvez cansada. Mas bela. Quem seria?... Eu não conseguia lembrar. Havia sido tão traumático aquele dia em que o carro quebrou e eu pegara o metrô, porque a promoção tão esperada não veio! Tudo desde então parecia vir desabando... E agora, esta carta... Esta carta escrita por... Eu não conseguia lembrar-me de jeito nenhum! Uma vaga e imprecisa ideia de que tivesse dito as horas a uma senhora grisalha e tristonha no metrô, mas não tive certeza.
Eu apenas... Apenas sorri. E o mundo voltou a ser o mesmo, o mesmo belo mundo que era belo demais para que eu pensasse em desistir.
Ah! A delícia de se descobrir especial...
EMPANTIPATIA
Só quem já provou um verdadeiro desamor à primeira vista, pode ter noção do que vem a ser a empantipatia.
"Empantipatia" é, como bem suposto, a junção de antipatia com empatia. Configura-se "empantipatia" quando antipatia e empatia coexistem de maneira inconsciente e perfeitamente instável.
Essa mescla de emoções, que na realidade consiste num só sentimento, aparece normalmente quando um indivíduo se sente pessoal e profundamente perturbado com a existência de um outro determinado indivíduo. Aí está o desamor à primeira vista, também conhecido por "nojinho", e este desamor é sempre prenúncio à tal empantipatia.
Não passa de um amor não professado. Sabe-se lá por quais medos, projeções, anseios...
Mas voltemos.
O quadro de sutil desamor logo evolui e transforma-se em antipatia bruta, nojo mortal, asco sem limites e indefinível. Você não sabe muito bem por que despreza tanto a esse seu semelhante, mas sabe unicamente que a mera pronúncia do nome da pessoa já é capaz de despertar em você as maiores crises de ira e golfadas.
Mas o que você não sabe é que toda essa antipatia, no fundo da sua mente, adormecida no mais remoto recôndito do seu coração, na verdade é a pura e simples empatia.
De fato, essa sua antipatia quase irracional pode ser perfeitamente explicada: você não se dá com determinada pessoa porque enxerga nela você mesmo. E não consegue evitar desprezá-la, para não desprezar-se, porque ela reflete você de uma maneira irrevogável. Tanto os pontos positivos, quando os negativos. Ainda que sua antipatia insista em reconhecer somente estes últimos.
Desta forma, a empantipatia ocorre quando a discórdia que você nutre para com alguém encontra explicação no fato de que você se parece com o alvo do seu desprezo muito mais do que gostaria.
Afinal, é sempre aquela história... A linha tênue do amor e ódio... Neste caso, também quem prevalece é o amor. Ou melhor, a empatia.
E tudo se dá de maneira metódica e bem familiar (você provavelmente conhece o passo-a-passo, mas de outros contextos): Você nega, mesmo depois de muito tempo desprezando aquele em quem você se projeta; em seguida, vem a raiva; após isso, a tristeza; e, por fim, a aversão se transforma em confortável aceitação.
E tudo então deságua numa curiosa amizade... Já que, apesar de enxergar no outro o seu pior, não dá para resistir a ter como melhor amigo alguém com as mesmas melhores partes de você.
"Empantipatia" é, como bem suposto, a junção de antipatia com empatia. Configura-se "empantipatia" quando antipatia e empatia coexistem de maneira inconsciente e perfeitamente instável.
Essa mescla de emoções, que na realidade consiste num só sentimento, aparece normalmente quando um indivíduo se sente pessoal e profundamente perturbado com a existência de um outro determinado indivíduo. Aí está o desamor à primeira vista, também conhecido por "nojinho", e este desamor é sempre prenúncio à tal empantipatia.
Não passa de um amor não professado. Sabe-se lá por quais medos, projeções, anseios...
Mas voltemos.
O quadro de sutil desamor logo evolui e transforma-se em antipatia bruta, nojo mortal, asco sem limites e indefinível. Você não sabe muito bem por que despreza tanto a esse seu semelhante, mas sabe unicamente que a mera pronúncia do nome da pessoa já é capaz de despertar em você as maiores crises de ira e golfadas.
Mas o que você não sabe é que toda essa antipatia, no fundo da sua mente, adormecida no mais remoto recôndito do seu coração, na verdade é a pura e simples empatia.
De fato, essa sua antipatia quase irracional pode ser perfeitamente explicada: você não se dá com determinada pessoa porque enxerga nela você mesmo. E não consegue evitar desprezá-la, para não desprezar-se, porque ela reflete você de uma maneira irrevogável. Tanto os pontos positivos, quando os negativos. Ainda que sua antipatia insista em reconhecer somente estes últimos.
Desta forma, a empantipatia ocorre quando a discórdia que você nutre para com alguém encontra explicação no fato de que você se parece com o alvo do seu desprezo muito mais do que gostaria.
Afinal, é sempre aquela história... A linha tênue do amor e ódio... Neste caso, também quem prevalece é o amor. Ou melhor, a empatia.
E tudo se dá de maneira metódica e bem familiar (você provavelmente conhece o passo-a-passo, mas de outros contextos): Você nega, mesmo depois de muito tempo desprezando aquele em quem você se projeta; em seguida, vem a raiva; após isso, a tristeza; e, por fim, a aversão se transforma em confortável aceitação.
E tudo então deságua numa curiosa amizade... Já que, apesar de enxergar no outro o seu pior, não dá para resistir a ter como melhor amigo alguém com as mesmas melhores partes de você.
domingo, 22 de janeiro de 2012
A B
Nossa amizade começou aos trancos e barrancos
Tropeçando
Sem saber muito bem em que pé ficava
Ou será que foi silenciosa, macia, discreta?
Foi acidente
Ou estavámos destinados um ao outro?
Éramos duas almas dissonantes
Que acabaram formando uma curiosa sinfonia dúbia
Lá
Fá
Ou éramos mesmo
Duas peças específicas
De uma peça maior que toda a nossa maestria?
Não sei, não sei
O que sei é que houve momentos em que ela brecou
Engolfou
Correu
Suspirou
Respirou mansinha
Então sobreveio
Subiu
Desceu
E está aqui, agora
Nossa cifra pessoal
Sem saber como será o próximo instante
Mas, afinal,
Acho que nossa amizade é, na verdade, um Sol menor
Dos muitos sóis que ainda estão por vir
Tropeçando
Sem saber muito bem em que pé ficava
Ou será que foi silenciosa, macia, discreta?
Foi acidente
Ou estavámos destinados um ao outro?
Éramos duas almas dissonantes
Que acabaram formando uma curiosa sinfonia dúbia
Lá
Fá
Ou éramos mesmo
Duas peças específicas
De uma peça maior que toda a nossa maestria?
Não sei, não sei
O que sei é que houve momentos em que ela brecou
Engolfou
Correu
Suspirou
Respirou mansinha
Então sobreveio
Subiu
Desceu
E está aqui, agora
Nossa cifra pessoal
Sem saber como será o próximo instante
Mas, afinal,
Acho que nossa amizade é, na verdade, um Sol menor
Dos muitos sóis que ainda estão por vir
quinta-feira, 24 de março de 2011
JUVENTUDE
Aquelas noites de verão foram incríveis. A juventude, o som, as músicas, os cheiros... Sensações infinitas. A turma se sentia forte, quente, invencível. Eles eram praticamente invencíveis, perdidos no mundo.
Ah, o tempo... Tão distante naqueles dias. E eles mal sabiam quantas coisas ainda os aguardavam, ainda aconteceriam.
A vida vai mudando, e a gente nem percebe. Só se dá conta quando tudo já foi feito, já passou. E todos eles sairiam mudados daqueles verões. Nenhum deles, sequer um pedaço deles, foi o mesmo depois daquilo tudo.
Mais do que sombras, que nas noites cortavam as avenidas sobre motos ferozes e motores envenenados; mais do que estrelas que furavam o céu ensolarado e as tardes quentes; circulavam pelas ruas da cidade como heróis rebelados.
Aqueles rapazes eram tudo o que qualquer um foi ou quis ter sido. Eles transpiravam vida. Condutas tortas. Qualquer um podia sentir, podia cheirar, podia ver.
Eles riam e debochavam enquanto o mundo todo desabava sobre suas cabeças. Vida, fúria, sonhos, ilusões, dores, doçuras, surpresas... Passados tristes e lembranças irritantes, que ficaram embargadas pelo meio da garganta. Um alucinante e poderoso bater de asas, a liberdade, a perda, as descobertas.
Naquelas noites intensas de verão, o tempo, e o medo, pareciam estagnados. Mortos. Só havia o som inquieto de uns corações desenfreados...
Eram todos sem freios. E que coisas ainda os esperavam... A felicidade é morrer em si mesmo, não é? Felicidade é matar um pouco de si, é descobrir a verdade. E eles nem se davam conta, procuravam tanto por ela, tontos como loucos, e nem percebiam que a felicidade era essa morte aí. Era morrer da mesma forma como eles achavam que, para eles, o tempo e as regras estavam mortos, é ignorar as ladainhas e deixar-se viver sem medo.
Ah, o tempo... Tão distante naqueles dias. E eles mal sabiam quantas coisas ainda os aguardavam, ainda aconteceriam.
A vida vai mudando, e a gente nem percebe. Só se dá conta quando tudo já foi feito, já passou. E todos eles sairiam mudados daqueles verões. Nenhum deles, sequer um pedaço deles, foi o mesmo depois daquilo tudo.
Mais do que sombras, que nas noites cortavam as avenidas sobre motos ferozes e motores envenenados; mais do que estrelas que furavam o céu ensolarado e as tardes quentes; circulavam pelas ruas da cidade como heróis rebelados.
Aqueles rapazes eram tudo o que qualquer um foi ou quis ter sido. Eles transpiravam vida. Condutas tortas. Qualquer um podia sentir, podia cheirar, podia ver.
Eles riam e debochavam enquanto o mundo todo desabava sobre suas cabeças. Vida, fúria, sonhos, ilusões, dores, doçuras, surpresas... Passados tristes e lembranças irritantes, que ficaram embargadas pelo meio da garganta. Um alucinante e poderoso bater de asas, a liberdade, a perda, as descobertas.
Naquelas noites intensas de verão, o tempo, e o medo, pareciam estagnados. Mortos. Só havia o som inquieto de uns corações desenfreados...
Eram todos sem freios. E que coisas ainda os esperavam... A felicidade é morrer em si mesmo, não é? Felicidade é matar um pouco de si, é descobrir a verdade. E eles nem se davam conta, procuravam tanto por ela, tontos como loucos, e nem percebiam que a felicidade era essa morte aí. Era morrer da mesma forma como eles achavam que, para eles, o tempo e as regras estavam mortos, é ignorar as ladainhas e deixar-se viver sem medo.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
TEMPORAL
Que coisa mais engraçada é a vida, é a juventude... Eles se molham sob a chuva como se pudessem parar o tempo, como se pudessem congelar a imagem e viver esse momento para sempre. É bonito.
Mas até então estão bem, o ridículo é o que vem depois. Enquanto as roupas colam no corpo, o cabelo escorre, o jeans suado se aperta, a camiseta transparece, o som dos gritos e de uma alegria quase pueril se mistura aos barulhos e urros estrondosos da tempestade, a vida vai se consumindo em fogo brando, palpável. Mas numa lentidão tão feroz quanto o tempo que passa rápido, aquele que é na mesma medida tão célere e pouco palpável, indefinido.
É noite. Eles estão aí, brincando na água. Estão todos fora todo o dia, o dia inteiro fora de casa, sempre tão fora de tudo. Dá pra sentir o cheiro de orvalho, terra molhada, o calor do dia que sobe do asfalto em nuvens de fumaça, e o aroma inconfundível de hambúrguer, vindo de qualquer lugar, qualquer barzinho à meia-luz com um pingo de consideração para contratar um chef, mesmo que suspeito.
As ruas estão desertas de pessoas, vez ou outra passam carros. Escuridão. Apenas água, poças, pneus ocasionais que, ao percorrerem velozmente queimando borracha, espirram a água acumulada no meio-fio para a calçada.
Aqui só há a luz alaranjada dos postes, que em seu brilho intenso e ar lúgubre albergam uma nuvem de mosquitos procurando morte. Há uma forte despreocupação no ar, mas a tempestade contraria outros seres. Adultos, velhos, crianças dormem. Os que não dormem, ouvem a barulhada na rua, mas já se foi o tempo de se juntar a eles. Os trovões dão mais medo. Liberdade.
São estes jovens que até mesmo sem querer conseguem da vida aquilo que todo mundo quer, e não se dão conta: Felicidade. Palavrinha doce. Que corre na boca e então, no fim, parece despencar como uma caixa de chumbo e cravar-se na língua. Felicidade até quando? Até quando durarem as noites. Até quando durar o dia. Enquanto a tempestade não se for, e for assim, intensa, molhada, assustadora. Enquanto eles forem selvagens. E se houver dor, acima dela, estarão felizes. Ou não?
Se por acaso é real resta saber. Esses jovens que riem e chapinham na água da chuva... Ah, terão seus melhores dias. E dias felizes virão até que a juventude se apague. Não quando se apagar dos ossos, mas do peito. Já que é aí que ela mora.
Um coração bruto e jovem não se rende.
Mas até então estão bem, o ridículo é o que vem depois. Enquanto as roupas colam no corpo, o cabelo escorre, o jeans suado se aperta, a camiseta transparece, o som dos gritos e de uma alegria quase pueril se mistura aos barulhos e urros estrondosos da tempestade, a vida vai se consumindo em fogo brando, palpável. Mas numa lentidão tão feroz quanto o tempo que passa rápido, aquele que é na mesma medida tão célere e pouco palpável, indefinido.
É noite. Eles estão aí, brincando na água. Estão todos fora todo o dia, o dia inteiro fora de casa, sempre tão fora de tudo. Dá pra sentir o cheiro de orvalho, terra molhada, o calor do dia que sobe do asfalto em nuvens de fumaça, e o aroma inconfundível de hambúrguer, vindo de qualquer lugar, qualquer barzinho à meia-luz com um pingo de consideração para contratar um chef, mesmo que suspeito.
As ruas estão desertas de pessoas, vez ou outra passam carros. Escuridão. Apenas água, poças, pneus ocasionais que, ao percorrerem velozmente queimando borracha, espirram a água acumulada no meio-fio para a calçada.
Aqui só há a luz alaranjada dos postes, que em seu brilho intenso e ar lúgubre albergam uma nuvem de mosquitos procurando morte. Há uma forte despreocupação no ar, mas a tempestade contraria outros seres. Adultos, velhos, crianças dormem. Os que não dormem, ouvem a barulhada na rua, mas já se foi o tempo de se juntar a eles. Os trovões dão mais medo. Liberdade.
São estes jovens que até mesmo sem querer conseguem da vida aquilo que todo mundo quer, e não se dão conta: Felicidade. Palavrinha doce. Que corre na boca e então, no fim, parece despencar como uma caixa de chumbo e cravar-se na língua. Felicidade até quando? Até quando durarem as noites. Até quando durar o dia. Enquanto a tempestade não se for, e for assim, intensa, molhada, assustadora. Enquanto eles forem selvagens. E se houver dor, acima dela, estarão felizes. Ou não?
Se por acaso é real resta saber. Esses jovens que riem e chapinham na água da chuva... Ah, terão seus melhores dias. E dias felizes virão até que a juventude se apague. Não quando se apagar dos ossos, mas do peito. Já que é aí que ela mora.
Um coração bruto e jovem não se rende.
sábado, 30 de outubro de 2010
MANTENHA-SE NO RASO
Divido então o que sei: são todos jovens, são todos palavras, silêncios. Vazios que gritam no escuro, como almas que mal sabem o que os aguardam. Um dia após o outro, passo por passo, e ainda assim, querem engolir o mundo. É isso o que sei deles, e divido com quem quer que os queira. É pouco o que sei, sim, admito. Como já disse, nem os entendo completamente. Afinal, quem entende os jovens? Não eu.
Mas, de qualquer forma, mesmo sem conhecê-los por completo, sou o único que sabe sobre eles mais que o necessário. Se me concentrar... Se me concentrar, posso até sentir a dor deles. Seus pensamentos, seus sonhos, sono agitado, medos, pavores, palpitações. Eles balbuciam no meio da noite, choram baixinho, nem sabem, nem imaginam que são assim tão desprotegidos. Nem eu posso imaginar quanta desproteção há neles.
Mas, se decidi mesmo deixar que os conheçam, então é melhor que os apresente de uma vez. Eles ainda não são inteiros, mas são pedaços, fragmentos de tanta gente, de ninguém, de tudo e de muito. Eles são... Como posso dizer? São jovens, afinal. O que se espera de um jovem? Que seja raso, que seja profundo? Só o que posso dizer deles é que, bem, em grande parte, ninguém esteve muito disposto a compreendê-los. Ninguém perde tempo. Por mais nobre que possa soar perder tempo com pessoas, ninguém o faz de verdade. E é por isso que eles são assim, tão tortos, tão mal acabados. Mas a vida cuidou de esculpi-los e arrematar o que tinha sido criado, deixando-os assim tão vivos, tensos, vibrantes, palpitantes, intensos. Eles são uma parte de um todo, e um inteiro, um pedacinho caprichoso, e lindo, e estranho, incompreensível. Eles são pequenos, nem ocupam muito espaço, talvez suas balbúrdias assustem, mas os famosos hormônios os absolvem. O que posso dizer mais? Só o que sei é que de nada são rasos. Não. E sabe o que dizem sobre os lagos? Os mais calmos é que são os mais profundos. Você jamais chegará ao fundo deles. É escuro, silencioso, agudo, lotado de tudo...
Águas brandas escondem pensamentos profundos. Toda a juventude de uma época está aqui. Talvez falte o brilho de uma década, a polvorosidade de outra, quem sabe a rebeldia da de 80, ou as mudanças da de 60. Mas, estão aqui. Todos eles. Essa juventude que salpica como óleo quente, fervente, uma pulga atrás da orelha, um livro que teima em cair da estante. Bem, eles são um lago (aparentemente) raso e calmo, falsamente cristalino, no qual eu não me atreveria a ir muito fundo, pelo simples perigo de me afogar. Enrolar-me em algas ásperas. Eles são, afinal, lagos quentes e serenos que escondem aqueles segredos que só se conta a si mesmo. Eles vibram, retumbam. Silenciosamente. Estão todos aí, e, se não há muito o que fazer, então, leia-os.
Mas, de qualquer forma, mesmo sem conhecê-los por completo, sou o único que sabe sobre eles mais que o necessário. Se me concentrar... Se me concentrar, posso até sentir a dor deles. Seus pensamentos, seus sonhos, sono agitado, medos, pavores, palpitações. Eles balbuciam no meio da noite, choram baixinho, nem sabem, nem imaginam que são assim tão desprotegidos. Nem eu posso imaginar quanta desproteção há neles.
Mas, se decidi mesmo deixar que os conheçam, então é melhor que os apresente de uma vez. Eles ainda não são inteiros, mas são pedaços, fragmentos de tanta gente, de ninguém, de tudo e de muito. Eles são... Como posso dizer? São jovens, afinal. O que se espera de um jovem? Que seja raso, que seja profundo? Só o que posso dizer deles é que, bem, em grande parte, ninguém esteve muito disposto a compreendê-los. Ninguém perde tempo. Por mais nobre que possa soar perder tempo com pessoas, ninguém o faz de verdade. E é por isso que eles são assim, tão tortos, tão mal acabados. Mas a vida cuidou de esculpi-los e arrematar o que tinha sido criado, deixando-os assim tão vivos, tensos, vibrantes, palpitantes, intensos. Eles são uma parte de um todo, e um inteiro, um pedacinho caprichoso, e lindo, e estranho, incompreensível. Eles são pequenos, nem ocupam muito espaço, talvez suas balbúrdias assustem, mas os famosos hormônios os absolvem. O que posso dizer mais? Só o que sei é que de nada são rasos. Não. E sabe o que dizem sobre os lagos? Os mais calmos é que são os mais profundos. Você jamais chegará ao fundo deles. É escuro, silencioso, agudo, lotado de tudo...
Águas brandas escondem pensamentos profundos. Toda a juventude de uma época está aqui. Talvez falte o brilho de uma década, a polvorosidade de outra, quem sabe a rebeldia da de 80, ou as mudanças da de 60. Mas, estão aqui. Todos eles. Essa juventude que salpica como óleo quente, fervente, uma pulga atrás da orelha, um livro que teima em cair da estante. Bem, eles são um lago (aparentemente) raso e calmo, falsamente cristalino, no qual eu não me atreveria a ir muito fundo, pelo simples perigo de me afogar. Enrolar-me em algas ásperas. Eles são, afinal, lagos quentes e serenos que escondem aqueles segredos que só se conta a si mesmo. Eles vibram, retumbam. Silenciosamente. Estão todos aí, e, se não há muito o que fazer, então, leia-os.
sábado, 16 de outubro de 2010
AO MEU MENTOR
Ainda lembro a primeira vez em que o vi. Branco, cabelos de um tom indefinível de castanho, desses louros assim, meio escuros, meio acabrunhados. Aparelho nos dentes e boné. Meu Deus, quem diria que era um professor? Ele é. Mas foi além, muito além disso. Ele foi o meu mentor desajustado, dos ajustes mais perfeitos, mais sinceros, mais bacanas. Encaixou. Pude até ouvir um "clic" quando a ficha caiu: "É ele!".
Confesso que no início menosprezei, por medo, eu estava amedrontada. Mas isso durou apenas uns dois, três minutos. Até que sua primeira aula começou e eu entendi que era ele. Ele e ele. Engraçadíssimo. Sacana. Eu tentei... Mas o riso explodiu, inevitável!
Eu sinto uma saudade imensa porque este homem-rapaz foi para mim muito mais que um mestre. Ele deu valor a coisas minhas que ninguém jamais deu... Como uma boa resposta, como citar Paulo Leminski e a poesia marginal numa prova. Ele deu valor a uma sede que existia aqui por dentro - esse meu interior ainda misterioso - e eu nem ao menos conhecia sua extensão: a sede de escrever. De viver. Meu Deus... De viver! Eu só devo agradecer.
Um homem inteligentíssimo. Um garoto. Inefável. Poderia ser meu irmão mais velho, imaginem só. Ouvir suas histórias, contos incisivos, picantes, azedos, melados, lindos, bons, era como ser transportado com um chute no estômago até um local inimaginável. Cores escorrendo pelas paredes, o sonho e o talento vibrando por cada acento agudo na voz, quem sabe uma batida sussurrada, o eco que assenta, e o fim magistral.
Eu amei cada segundo com esse professor. Eu amo. E muito. Ora, nem me contradigo! Por mais complicada e indecisa e desajuizada que eu seja - por ter deixado arrefecer nossos caminhos cruzados, o meu e o dele -, ainda assim digo sem errar: Ele foi o meu mestre literário. O original. O primário. O primogênito que atiçou minha mão direita, com a qual escrevo. Ele foi maravilhoso. Ele é.
Bruno. Pardo. Moreno. Nem é. É branquinho... Aparentemente calmo. Mas experimente provocá-lo. Não, não experimente.
Sabe-se lá por onde anda agora. Será que lembra de mim? Será que sente saudades? O meu letrado futuro doutor. Mestre já é. Certeza. O nosso. De uma turma inteira. Não só uma turma, mas uma trupe barulhenta e ainda assim acanhada de amigos que foram consquistados com um tiro no peito. Irrevogável.
Hoje, esse sangue nostálgico e saudoso que escorre do trauma de bala é o mesmo rio que flui e jorra dos meus dedos quando quero meditar, escrever. Penso nele, aquele professor, e fico matutando... Eu também quero vencer. Vencer a mim mesma. Vencer as circunstâncias que diziam ser improvável que um coração interiorano caísse nas graças do mundo vasto mundo.
Ainda penso nele quando escrevo, penso em vitória, em cansaço, em sirene. Meu mentor. Sem seu estímulo teria sido tudo muito mais lento. O que posso dizer? Veja se volte. Tenho saudades. E o que mais? Obrigada. De B para B, mil vezes: Obrigada!
Ao meu mentor.
Confesso que no início menosprezei, por medo, eu estava amedrontada. Mas isso durou apenas uns dois, três minutos. Até que sua primeira aula começou e eu entendi que era ele. Ele e ele. Engraçadíssimo. Sacana. Eu tentei... Mas o riso explodiu, inevitável!
Eu sinto uma saudade imensa porque este homem-rapaz foi para mim muito mais que um mestre. Ele deu valor a coisas minhas que ninguém jamais deu... Como uma boa resposta, como citar Paulo Leminski e a poesia marginal numa prova. Ele deu valor a uma sede que existia aqui por dentro - esse meu interior ainda misterioso - e eu nem ao menos conhecia sua extensão: a sede de escrever. De viver. Meu Deus... De viver! Eu só devo agradecer.
Um homem inteligentíssimo. Um garoto. Inefável. Poderia ser meu irmão mais velho, imaginem só. Ouvir suas histórias, contos incisivos, picantes, azedos, melados, lindos, bons, era como ser transportado com um chute no estômago até um local inimaginável. Cores escorrendo pelas paredes, o sonho e o talento vibrando por cada acento agudo na voz, quem sabe uma batida sussurrada, o eco que assenta, e o fim magistral.
Eu amei cada segundo com esse professor. Eu amo. E muito. Ora, nem me contradigo! Por mais complicada e indecisa e desajuizada que eu seja - por ter deixado arrefecer nossos caminhos cruzados, o meu e o dele -, ainda assim digo sem errar: Ele foi o meu mestre literário. O original. O primário. O primogênito que atiçou minha mão direita, com a qual escrevo. Ele foi maravilhoso. Ele é.
Bruno. Pardo. Moreno. Nem é. É branquinho... Aparentemente calmo. Mas experimente provocá-lo. Não, não experimente.
Sabe-se lá por onde anda agora. Será que lembra de mim? Será que sente saudades? O meu letrado futuro doutor. Mestre já é. Certeza. O nosso. De uma turma inteira. Não só uma turma, mas uma trupe barulhenta e ainda assim acanhada de amigos que foram consquistados com um tiro no peito. Irrevogável.
Hoje, esse sangue nostálgico e saudoso que escorre do trauma de bala é o mesmo rio que flui e jorra dos meus dedos quando quero meditar, escrever. Penso nele, aquele professor, e fico matutando... Eu também quero vencer. Vencer a mim mesma. Vencer as circunstâncias que diziam ser improvável que um coração interiorano caísse nas graças do mundo vasto mundo.
Ainda penso nele quando escrevo, penso em vitória, em cansaço, em sirene. Meu mentor. Sem seu estímulo teria sido tudo muito mais lento. O que posso dizer? Veja se volte. Tenho saudades. E o que mais? Obrigada. De B para B, mil vezes: Obrigada!
Ao meu mentor.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
CONSIDERAÇÕES ACERCA DO CONFORTO
Hoje, vamos analisar meu pé. Isto mesmo, meu pé.
Repare como estou nesta foto, e como me sinto à vontade... Bem, não foi fácil atingir este nível de satisfação plena. O conforto em sala de aula requer muitas tentativas e fracassos... Até alcançar o êxito.
Pois então, com este post, aliado a algumas dicas básicas, pretendo ensiná-los a como sobreviver ao martírio diário que é o colégio.
Primeiro, você precisa de posições que deixem seus braços e pernas livres. Vale puxar três cadeiras, cercar-se delas, ou deitar as costas em uma e as pernas em outra. Se o seu professor brigar, não ligue. O que importa mesmo é a sua missão de bem-estar.
Esteja sempre cercado de pessoas que façam você se sentir tranquilo. Que estejam sempre dispostos a um bate-papo clandestino, mas que também não fiquem matraqueando na hora de sua preciosa soneca escolar. Tire um cochilo. Mas esteja certo de que seus amigos formam um baluarte ao redor de você.
Coloque um deles atrás, um na frente, o outro logo ao lado, e volte a cabeça para a parede, de modo que o professor não perceba que você dorme. Assim, se surgirem problemas, seus amigos de confiança irão, discretamente, cutucar-lhe a costela e farão com que você acorde bem na hora, num timing perfeito. O resto fica com você. Limpe a baba num segundo, com as costas da mão, e em seguida forje um sorriso esplendoroso, dizendo: "A culpa é da Inglaterra!".
Para o conforto em sala de aula, também é estritamente necessário, além de criar sua própria facção pró-sono, customizar sua carteira favorita. Aquela em que você sempre senta, e que já até adquiriu o contorno de suas nádegas. Desenhe carinhas, caricaturas deliciosas de seus professores, e componha odes belíssimos com o auxílio do corretivo.
Enfim, o conforto supremo requer maestria e treino. Você precisa ser, no mínimo, um pouco querido pelo corpo docente, porque assim os mestres não vão te marcar...
O conforto é valiosíssimo, muito mais eficaz até que estudar para provas ou se sair bem na apresentação de slides.
Mantenha sempre em mente que, antes de tudo, vem o seu pé.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
POEMINHA PARA UMA AMIGUINHA
Claudinha, como eu já disse, te acho bonitinha
Você tem essa mania tão engraçadinha de rir até querer fazer xixi nas calças
E eu gosto muitíssimo de convesar com você na escolinha
Pena que estamos de férias, amiguinha
Porque eu queria te ouvir falar sobre aquele seu amor, o cara de fuinha
Gosta tanto dele, coitadinha...
Mas, amiguinha, eu é que te amo!
Sinto uma saudadezinha tão grande nesta época do ano, em que você faz falta gigante
Agora te mando um beijinho,
Para coroar meus versos tão camonianos
E digo que, por mais que passem os anos,
Ainda seremos eu e você
Se ningúém mais houver
Se ninguém mais ouvir
E ninguém mais quiser
ser
parte integrante de nós.
Porque só a gente basta. E nada.
Um poeminha.
Você tem essa mania tão engraçadinha de rir até querer fazer xixi nas calças
E eu gosto muitíssimo de convesar com você na escolinha
Pena que estamos de férias, amiguinha
Porque eu queria te ouvir falar sobre aquele seu amor, o cara de fuinha
Gosta tanto dele, coitadinha...
Mas, amiguinha, eu é que te amo!
Sinto uma saudadezinha tão grande nesta época do ano, em que você faz falta gigante
Agora te mando um beijinho,
Para coroar meus versos tão camonianos
E digo que, por mais que passem os anos,
Ainda seremos eu e você
Se ningúém mais houver
Se ninguém mais ouvir
E ninguém mais quiser
ser
parte integrante de nós.
Porque só a gente basta. E nada.
Um poeminha.
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