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segunda-feira, 24 de junho de 2013

"saudades imortais"

"Eu ansioso pelo Sol, buscava 
Sacar daqueles livros que estudava 
Repouso (em vão!) à dor esmagadora 
Destas saudades imortais".

O CORVO

quinta-feira, 23 de maio de 2013

sexta-feira, 17 de maio de 2013

"Okay", he said

Terminei de ler (14/05) "A culpa é das estrelas". Incrível (e reconfortante) pensar que bons textos ainda estão sendo escritos. Não sei se a lógica duramente capitalista do mercado editorial permitiria que mais livros humildemente brilhantes e apelativos (não de um jeito ruim) como este sejam feitos, sem deixar que a capa do livro, o marketing resenhista, o "todo mundo tá lendo no universo dos pré-adolescentes e mal-comidos" impeçam o crescimento natural, maduro e discreto (ainda que, no caso de "The fault in our stars", como acontece com frequência em tantos outros, tenham insistido em anexar à capa, posteriormente, o polêmico - e por mim desprezado - selo "#1 New York Times best-seller") de obras assim.
É um livro muito jovem para adultos esgotados. É um livro muito adulto para jovens-ameba (contingente majoritário neste planeta). É, portanto, um livro para jovens adultos. Ou adultos jovens. De alma, digo. E disposição. Pessoas que entendam que a capa  e o título (quando traduzido para o português, ressalvo, já que o original funciona perfeitamente, e orgulharia qualquer Harold Bloom) não conseguem abarcar, em sua tola alegria esfuziante de nuvens em giz de cera e um brilhante fundo azul-verão, toda a magnitude dessa obra humildemente pretensiosa.  E mais que satisfatória às próprias pretensões.
E mais, devo dizer, para salvar a honra dos que não se contentam com o apelo errado das cores equivocadas na capa de um livro que se vende de um jeito (matem as malditas editoras e estantes "badaladas" de livrarias) mas que não faz concessões ao hipotético público-alvo:  azul é também tristeza, inclusive os tons mais brilhantes.
E brilhantismo é a palavra para esse romance suficientemente desmistificado/desmistificador, onde você se comove com a doce filosofia de boteco-bistrô irrepreensível, com o amor que achou já não estar mais em moda (entre pais e filhos), com os diálogos de referências primorosas (e, Deus salve John Green e os sábios tradutores, não exaustivamente explicadas em "N.T.s" e N.E.s", por terem consciência de que só servem para público os que têm intelectualidade suficiente para captar os estímulos). Enfim, um ótimo livro. Para desafogar as vistas (e os sonhos) da quantidade surpreendente de lixo com que - aqui vai um belo exemplo, ainda que aleatório - as Lojas Americanas têm entulhado as prateleiras (de suas lojas e de nossos cérebros).

domingo, 10 de março de 2013

O GRANDE GATSBY + UP CLOSE AND PERSONAL

Terminei de ler "O grande Gatsby" (que, por sinal, gostei muito, apesar de a leitura ter começado um tanto arrastada), e fiquei com aquele gostinho na boca e na mente... Imediatamente após, fui fuçar sobre as versões cinematográficas. Nessas andanças pela internet, descobri que vão levá-lo de novo às telas agora em 2013, parece que em abril, com nosso imortal Tobey Homem-Aranha no papel de Nick, o narrador do livro, e ninguém menos que DiCaprio como o grande Gatsby. Parece-me que a Daisy será interpretada pela atriz que fez a irmã de Michael Fassbender em "Shame". O trailer é promissor.
Tudo isso só aguçou ainda mais meu interesse pela obra, então fui assistir à versão de "O grande Gatsby" de 1974, em que Robert Redford interpreta o personagem principal, e Mia Farrow, a mocinha. Não gostei muito da performance dela. Apesar de o livro ter seus personagens construídos com aquele teor performático, como caricaturas da própria época, em que os diálogos muitas vezes parecem surreais, impenetráveis, ou absurdamente frívolos - características literárias admiráveis, pois décadas depois ainda conseguimos saborear nesses diálogos o gosto apurado da ironia e mordacidade com que Fitzgerald tratou sua época, e o próprio estilo de vida que, mesmo criticando tão refinadamente, ele e a esposa perseguiram em toda a vida -, não gostei absolutamente da interpretação de Mia Farrow.
Poderia desenrolar um milhão de argumentos para atestar o que estou dizendo, mas acho que o que mais me aporrinhou foi o fato de ela não transmitir em nada uma das características mais marcantes de Daisy Buchanan: a voz. Aquela voz que, nas palavras dos próprios personagens, estava cheia de dinheiro. E, em outras passagens, uma voz sedutora, encantatória, para não dizer etérea. Enfim, uma voz com algo especial, uma entonação mais rouca, pausada, ou suave... Talvez como a voz da atriz que interpretou Jordan, enquanto que o timbre de Mia Farrow só me fazia pensar: "Cale a bendita boca!". Ela soava estridente e artificial sempre (como é possível?!), e talvez fosse a intenção, mas desvirtuar o maior traço da personagem do livro assim não me agradou em nada. Eu queria uma voz que me fizesse entender um pouco dessa "magia" que pairava ao redor de Daisy, e não simplesmente a voz de alguém que mal pode ser ouvida por seres humanos. Nada contra a Mia, que, ironia das ironias, tem uma voz doce e suave em todos os outros filmes. Ah, sei lá... Não sou graduada em vozes.
Contudo, em compensação, eu não poderia pensar em um melhor ator para encarnar Nick Carraway. E preciso dizer que me apaixonei por Nick? Tanto em sua exacerbada condescendência, o que muitas vezes o conduziu à omissão e, eventualmente, ao erro (mas ele estava justificado devidamente desde o início, ao afirmar que era muito cauteloso ao julgar as pessoas, preferindo dar seu voto de confiança a qualquer um, indistintamente, até as últimas consequências, esperando pelo momento quando enfim sua longa paciência se esgotaria e sua estima fosse perdida para sempre), quanto em sua extremada lealdade. Gostei de tudo a respeito dele, até do que não deveria inspirar paixão. Tanto o personagem literário, em sua essência invisível, mas bem palpável na página do livro, quanto do personagem na tela, andando, falando, pensando, bebendo. Impressionou-me ainda a precisão com que imaginei um Nick Carraway muito semelhante ao ator da versão de 1974, com a diferença dos cabelos, que em minha mente eram um pouco mais claros. Enfim, tolices de leitor.
Voltando ao próprio Gatsby. Após ver o filme, me senti inspirada e inclinada a caçar um pouco mais de Redford. Tudo o que eu já tinha visto dele se reduzia muito provavelmente a três títulos: "Nosso amor de ontem", "Proposta indecente" e "Butch Cassidy & The Sundance Kid". E como eu estava muito impregnada do surrealismo apavorante de David Lynch, e outros filmes ditos "mais sérios", "mais profundos", pensei em pescar por aí algum filme do Robert Redford em que ele estivesse em pele de galã e pronto para me arrancar suspiros. Acho este homem tão bonito - e não sou muito de admirar belezas óbvias, vou mais pela via do "é charmoso em sua estranheza", mas abro exceção ao Redford -, que chega a me dar até vontades de chorar. Pois então, eu buscava algo dele que fosse um meio-termo entre uma comédia-romântica e um filme profundo, que me fizesse sonhar e refletir, mas sem me jogar no abismo dos contos de fada, ou no outro abismo do drama e das depressões suicidas.
Fui ao Filmow (rede social que, por sinal, me faz mais feliz e satisfeita que todas as outras, quase se equiparando ao finado Orkut) e, olhando pôster por pôster da filmografia do Redford, achei este título, escrito sobre uma linda cena azulada: "Up close and personal". Achei promissor. Lancei-me ao desafio...
... Não me decepcionei em nada!!! E como as demandas para esse filme não estavam tão altas assim, meu horizonte de expectativa foi superado com maestria! E adivinhem quem que o personagem do grande Redford cita numa das passagens do filme? Scott Fitzgerald! Scott Fitzgerald, sim, e sua máxima recorrente sobre a voz que soa como dinheiro!... Por sinal, também já citada aqui.
Era o que eu estava precisando, esse filme... Não muito bobo, mas também não absurdamente sério e pretensioso, filme para entrar em minha humilde lista dos favoritos e ocupar minha mente com uma linda história persistente. Gostei bastante. Normalmente não me cativa a Michelle Pfeiffer, mas achei-a ótima nesse filme. Agora são dois que me aprazem: Esse e "Nunca é tarde para amar", com meu querido Paul Rudd.
Enfim, tudo isso para dizer que tomei uma overdose de Robert Redford, e morreria feliz.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012



                                                                        always.


DESCREVER O QUE NÃO SE SENTE

A escrita nos abre milhões de janelas que só mesmo a imaginação pode construir. Uma dessas janelas abertas chama-se "experiência". Porque experiência não diz respeito necessariamente àquilo que se experimentou em vivência - ou seja, o que foi táctil, o que foi palpável, filtrado pelos sentidos mais físicos -, mas sim diz respeito a tudo aquilo que se pode degustar em espírito, com a mente. A palavra então traz esse mundo de areia construído sobre rochas de vento para a plataforma de papel - ou eletrônica, ou calçada, ou troncosa, o que seja!
Experimentar não é viver no corpo somente, mas também vivenciar dentro de um processo de pensamento completo, e tornar ainda mais sólido através da palavra. Descrever o que não se sente, descrever o frêmito, o arrepio, o toque. Dedos invisíveis que deslizam pela derme como um trem sem destino e sem pressa. Olhos que rolam preguiçosamente e com carinho sobre a pele que cheira a Nivea. Sorrisos que se insinuam porque o toque é bom. Dedos que, após o caminho, se entrelaçam. E os pelos dos braços ouriçados, e os pelos das pernas tolhidos pelo jeans. A mão agora atada em outra que sobe novamente pelo ombro macio e alcança a face que se cora, coraliza. E pula outra vez a bochecha num sorriso desses meigos de fazer o coração gelar e ferver ao mesmo tempo. E o sorriso de resposta, dono do toque-ouriço, tem a barba por fazer e espeta, mas é delícia. Roça no pescoço, dizer cangote é mais gostoso, aconchega-se naquele canto que a gente chama "curva dos enamorados", a pele macia, o vão entre nuca e clavícula, e cheira bom.
Chega mais perto, olhos nos olhos, eles se têm capturados. Quem dirá daqui a um ano, dois, dez...? Mas, que importa isso agora? Olha só como se olham, olhos nos olhos, e o acanhamento de finalmente se flagrar assim tão apaixonado, mas tão, que o termo perde o sentido, fica vagando desconexo entre duas almas e dois corpos que se querem bem mais do que precisam de espaço, tempo, ar. E, achegados, assim, de mansinho, vagarzinho, esse olhos nos olhos e dedos nos dedos, forte, porque o compromisso agora se mostrou em toda a sua proporção monumental, são as barrigas que se chocam, as respirações no compasso do descompasso, vem de novo, toma os lábios, e estes se abrem, e se achegam também.
E posso não estar vendo ou provando a cena, mas sei que acontece, porque se materializa em minha mente, escorre por essas paredes tão vazias, tão cheias de tudo, e então vêm pelo córrego direito, fazem a curva ao pé do leito miocárdio o outro extremo esquerdo, então desaguam pela mão destra, fazem seu caminho rumo a um texto tão bem, tão sem razão, que sua única certeza é ser brutalmente real, brutalmente sentido, mesmo não sendo.

domingo, 7 de outubro de 2012

ESCRITA

Muitas vezes escrevo para cumprir tabela. Estou submersa na letargia, vaziedade ou insensibilidade do dia a dia, então grafo como um marido que só comparece para tentar aquele primogênito que nunca vem. E prossigo assim, inerte. Verbo, adverbo, adjetivo, preposiciono, conjugo, julgo, mas não transcendo.
Essa pacatez que rege a vida dos escritores fleumáticos acaba por acomodá-los também numa espécie de arrogância contente, contentada. Pensa que escreve bem, que o ofício é aquilo ali mesmo, acostuma-se à sua própria mediocridade e para de exigir mais e melhor de si, agarrando-se à falsa e tragicômica certeza de que repousa placidamente junto a grandes cânones literários. Está estático, deixou de ser extático.
Mas então vem. Vem o terremoto, a retomada do primeiro amor, o frenesi, aquele texto alheio, de outrem, impactante, atrevido, não anunciado (apesar de ser magnético desde o título). Num assalto, esse tal texto, qualquer que seja, de simplicidade, qualidade e brilhantismo invejáveis, nocauteia o escritor preguiçoso e faz com que este se veja diante da grande verdade: Não está bom. Nunca estará bom. Nunca, nunca estará bom o suficiente para se acomodar.
É paradoxal, mas essencialmente válido: Você nunca escreverá tão bem quanto poderia chegar um dia a escrever. Todavia, a ideia ajuda a impeli-lo rumo a uma busca constante, irrefreável. Não se pode deixar que a preguiça cale o talento, o empenho, a inclinação apaixonada, o polimento, o afinco.
Tem que ter suor. Exercitar o carpo. Pensar, pensar, pensar. Absorver, sorver, sorver. Remoer. Cuspir. Ler, ler, e ler. Mas não simplesmente ler... Beber do outro. Alimentar-se das possibilidades. Ler o texto estrangeiro e tumultuar-se, perguntar-se: "Como eu poderia escrever isto aqui tão bem quanto foi escrito? Eu poderia mesmo escrever assim um dia? Consigo? Puta louco, não, el(a)e é um gênio!"... E que não haja também acanhamento em reconhecer a genialidade alheia. Crescemos a cada vez que percebemos a nossa própria fragilidade, pequenez, significância titubeante. E acho que isso não se aplica somente ao mundo literário. Para todo crescer, há que se tornar pequeno.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

O ADEUS

De algum modo, eu sabia, pressentia que este momento chegaria.
Momento em que deixo para trás velhos hábitos. Momento em que descubro, bastante atordoada, mas ciente, em meio às esquinas da livraria, que os livros que sempre li e que sempre me emocionaram e me distraíram e me acalentaram já não me apetecem mais.
Momento em que chego à borda das lombadas, e capas cor-de-rosa e azul-celeste não me sugerem mais nada, não me seduzem. Momento em que passo pela estante da distração, do escapismo, da massificação, do infanto-juvenil, do chick-lit, do trivial, do bobo, e nada daquilo mais me chama.
2h frenéticas, à caça, e nada. Nem um arroubozinho sequer.
O que fazer?... Não sei.
O adeus. O momento em que percebo que, de certa forma, amadureci, pois o que antes para mim era normal, muitas vezes sagrado e inquestionável, hoje parece verde e infantil. Maturei, sim, talvez. Mas não o bastante para encarar os clássicos... Os quais ainda me cansam antes mesmo que eu comece a lê-los!
Parece que ainda não sou adulta, mas também não mais criança, nem adolescente - eis o meu vácuo literário... Estou vivendo-o. Na espera de que algum arroubo venha me tirar da letargia. Porque já não há tesão por Sheldon, Nora Roberts e Danielle Steel, contudo, ainda não estou preparada para Wilde, Byron, Mansfield, enfim, toda a corja britânica, e igualmente despreparada para Eco, García Márquez e Italo Calvino. Tanta pretensa intelectualidade aglomerada ao redor desses nomes me enfada, me enerva...
E eu fico assim mesmo, sem nada ler. Não conseguindo, assim, ler nada além de mim mesma.


terça-feira, 22 de maio de 2012

Texto com o qual competi no 7º concurso "Construindo a Igualdade de Gênero"

Ser menina, pobre e preta no Brasil
A primeira vez que me dei conta de haver um abismo separando homens e mulheres, foi quando descobri que meu pai ganhava mais que minha mãe, apesar de terem a mesma profissão.
Ele, por ser homem, detinha alguns privilégios. Para começar, sempre fazia suas rondas com um revólver, presente do chefe, com o qual poderia se proteger facilmente. Já mamãe, ela só contava com a ajuda dos próprios braços magros.
Além de desarmada, também não tinha a chance de receber as mesmas comissões que papai, o qual fazia trabalhos extras como segurança.
Assim, dei-me conta de que, apesar de homem e mulher terem sido feitos “à imagem e semelhança de Deus”, os homens eram um bocadinho mais semelhantes, e por isso ganhavam mais.
Gradualmente, meus olhos se abriram para uma série de outras disparidades de gênero dentro de casa. Meu irmão, dois anos mais velho, sempre teve a notável preferência do papai, que frequentemente trazia balinhas para nós depois de alguma vigília. Mas, para meu irmão, trazia também revistas. Vai ver achava que mulheres não gostavam de ler. Pode ser até que minha mãe, inconscientemente, o tenha convencido disso, já que não lia nunca. Mas, pobrezinha, o que não admitira nem mesmo para o marido é que era quase analfabeta. Começara a trabalhar desde cedo e, atestando um triste clichê brasileiro, acabou largando os estudos.
Embora os gibis que meu irmão ganhava fossem uma prova incontestável de sua “superioridade” aos olhos do papai, só comecei a perder as estribeiras mais tarde, quando percebi que as mulheres da casa eram tratadas como a criadagem. Fazíamos de tudo, eu principalmente. Desde lavar louça e trocar lâmpada até matar rato.
Meu pai e meu irmão não ajudavam. Este último só contribuía mesmo para as despesas, já que, ao longo dos anos, substituiu os gibis pelas revistas de mulher pelada, e a escola por uma namorada. Enquanto isso, além de estudar, eu tinha de limpar a sujeira, administrar a parca comida, lavar louça, roupa, banheiro... Enfim, impossível não guardar ressentimentos. Àquela altura, eu já era uma bomba de rancor prestes a explodir.
Minha amargura só aumentou quando o papai deixou a gente. Eu estava então com quinze anos, meu irmão com uma namorada grávida e minha mãe com uma coletânea de olhos roxos. Foi uma dissolução traumática porque, embora mamãe, imbuída de coragem, tenha recorrido por conta própria à Lei Maria da Penha, nós dependíamos do pai para manter a casa financeiramente. Ele havia mudado bastante nos últimos anos. Começara a beber e humilhar a família. Mas, apesar disso, logo após a partida dele, mamãe morreu não apenas de remorso, mas também de tuberculose.
Eu e meu irmão então começamos a passar fome, como nunca antes. Fui impelida a trabalhar fora. Devido a tudo isso, eu me encontrava depressiva, rancorosa, machucada... E ainda cursava o primeiro ano do ensino médio pela terceira vez, reprovada consecutivamente.
Foi na escola que fiz outra descoberta, a que faltava para anular ainda mais minha autoestima já tão judiada. Descobri que era feia. Tal revelação veio no meio de uma aula, quando reparei que algumas colegas cochichavam apontando para mim. Intuí que havia algo errado, senti-me desajustada, não só por ter repetido o ano. Apesar de sermos um rebanho de miseráveis ali, era eu a ovelha negra, e isso contava mais. Senti de repente o peso plúmbeo da exclusão.
Com o passar do tempo, os cochichos e insultos aumentavam. O passatempo da turma era maldizer a minha aparência e cor de pele. Meus colegas chamavam-me “nariz de fornalha”, “carne preta” e “Bombril”, por conta do meu “cabelo ruim”. Eles eram tão dissimulados ao me pisotear a alma, que nenhum professor jamais tomou conhecimento.
Houve um dia em que, demasiadamente oprimida, cheguei aos prantos em casa. Não tinha ninguém para me amparar, de modo que corri para o banheiro. Ali, de frente para meu algoz, um espelho baço, eu vi minha pele tão negra que beirava o roxo, meu nariz enorme e esborrachado, de narinas dilatadas, minha boca arrematando a caricatura grotesca de um símio. Naquele momento, fechei os olhos e quis sumir. Sem rastro, sem laivo, apenas me pulverizar, acabando de vez com a existência dolorosa.
Inconsciente do que fazia, passei a me odiar, por ser negra e feia. Criei dentro de mim um monstro racista, maior do que todo o preconceito que eu poderia encontrar por parte de outrem.
Um dia, no finalzinho do ano, achei um bilhete bem dobrado dentro do meu caderno. A nota dizia: “Preciso falar, antes que fique louco. Te amo!”. Não... O papel estava endereçado a mim, como poderia ser engano?
E o remetente? André. O garoto de olhos castanhos, pele branca, cabelo claro, absurdo ar maduro. Além do charme inefável, com um dos dentes, o canino, levemente torto. Não era possível que gostasse de mim. Mais uma brincadeira estúpida!
No mesmo dia, à hora da saída, vi André de longe, recostado ao portão. Percebi que me esperava, porque sorriu. Era surreal, afinal, durante todo o ano letivo, não trocáramos mais que cinco palavrinhas. Mas ele sorria sim. E aquele canino superior não poderia estar mentindo... Mas fechei meus olhos para a verdade contida no riso do primeiro amor, e só pude ouvir o que minha alma gritava. Eu era esterco, jamais despertaria qualquer paixão.
Antes que o coitado do André terminasse de perguntar se eu recebera seu bilhete, disparei todos os tipos de xingamentos e, ato contínuo, eu chutei-lhe o saco. Mandei que me esquecesse, me deixasse em paz. Ele ainda me olhou, confuso... E eu quase acreditei.
Desde aquele dia, não tive mais notícias do André. Mas cresci, e percebi coisas que, àquela altura, era criança demais para entender. Não posso dizer que superei todos os traumas de quinze anos atrás, mas posso dizer o que quero para mim agora e para o meu futuro.
Quero continuar a ser uma mulher bem-sucedida, segura e dona de mim, apesar do que sofri. Não quero pena nem compaixão, quero oportunidade. Não quero que me dissequem, me esmiucem e me cataloguem, dizendo que sou preta, rosa ou azul. Eu sou, antes de tudo, eu. Sou humana, com algum senso-crítico e responsabilidade social.
E quero para as minhas futuras filhas e filhos, que eles tenham a chance de crescer em um Brasil diferente, mais humano, longe do enganoso estereótipo de nação que abraça a todos como filhos, mas, na realidade, segrega àqueles que não correspondem a determinadas expectativas.
Quem sabe, daqui a poucos anos, depois de mais algumas lágrimas e infâncias arrancadas, não consigamos formular enfim, ainda que a preço de sangue, uma identidade nacional verdadeira e honesta, sem máscaras, sem estratos.
Sempre terei minha própria vida como exemplo: nascer menina, pobre e preta no Brasil pode ser um pesadelo, quando nós mesmas discriminamos e anulamos nossas chances de felicidade. Ou quando acreditamos que mulher é mula de carga, que branco não ama preta, que rica não ama pobre, que bonito não ama feio...
Mas, por outro lado, nascer menina, pobre e preta no Brasil também nos faz entender, depois de alguns calos, que não precisamos sofrer eternamente no altar dos sacrifícios. Que, antes de tudo, somos gente, feitos primeiro à base de emoção e só depois cobertos de carne. Estamos para além da questão da pele, da melanina, do sexo.
E os que vierem depois de mim saberão disso tudo. Porque já está mais do que na hora de superarmos nossas leviandades, nossas picuinhas, nossos medos, e calarmos de uma vez todos os monstros sociais que insistem em anular o que temos de mais bonito: a nossa essência puramente humana, sem rótulos nem adornos. Humana. Eu sou humana, muito prazer.



segunda-feira, 21 de maio de 2012

MULHERES, REPITAM COMIGO:

— Não mendigarei o amor de ninguém. Também não barganharei usando o amor como moeda de troca. Amarei indistintamente. Amarei como me amo. Se não me amarem de volta, azar de quem me perdeu. Ou melhor, não sou coisa para ser possuída e perdida. Então azar mesmo é de quem não soube me valorizar. Todavia, ponho-me superior a tudo isso - sentimentos são preciosos demais para que eu estrague minha própria vida chateada ante a incapacidade ou desleixo emocional de terceiros.
Não vou deixar que me classifiquem, massacrando-me, nem aceitar rótulos alheios. Meu bom-gosto ou falta dele pode até ser julgado de acordo com o que porto ou trajo, mas isso também é relativo, e o meu valor real não é medido pelo tamanho do meu salto, pela cor do meu sapato, pela cor do meu esmalte, pela cor do meu cabelo ou pela cor da minha pele. Não tenho que me sentir inferior por que alguém diz: "Prefiro as branquinhas". Não tenho que me sentir inferior por que alguém diz: "Mulheres negras têm o corpo perfeito, as outras não". O que é o corpo? Matéria que se corrói. Não tenho que me sentir inferior nem mesmo se as minhas feições todas, até as microscópicas nuanças, não correspondem ao padrão de beleza preponderante. Não faço parte d'um gado. Ainda que eu busque minha identidade dentro de uma coletividade osmótica, não sou cópia, não sou réplica, não sou arremedo de ninguém.
Não vou deixar nenhum tolo tacanho me lobotomizar, fazendo-me acreditar que a sortuda sou eu, por ele estar junto comigo. Não vou encarar a vida como uma missão a ser cumprida unicamente para se subir ao altar e afins. Porque, se assim encaro, deixo de viver no momento em que me enrolar por entre as rendas matrimoniais ou amigadas. E fim.
Também não azucrinarei ninguém com minhas próprias exigências. Se quero algo, que venha de mim, e que eu seja a primeira dar. Mas que eu não seja a única. No momento cauteloso das primeiras interações, em que eu perceber que a hipotética outra metade não é a minha exata metade, da mesma maneira doada e rendida, revejo o cenário, pulo fora de cena.
Ademais, não fingirei que sou um poço de atitude, quando tudo o que eu quero é mergulhar-me em letargia, ver filmes românticos, de coque e pantufa, sentada no sofá com meus velhos.
Não vou fingir que tenho a vida mais emocionante do mundo, que fui a todos os lugares, que vi de tudo e provei de tudo, quando na verdade ser pura e simplesmente eu é tudo o que o meu coração almeja.
Não vou me iludir, fantasiar, por exemplo, repetindo o mantra: “Todos os machos da espécie me desejam”, com a convicção ilusória de que isso é felicidade, e de que minha "presença de palco" seduz a todos, e meu espírito aventureiro não me prende a ninguém, deixando, assim, um rastro de lágrimas e cacos aos meus pés.
Tudo o que eu quero, e que vou ser, é ser eu, sem a pretensão arrogante de ser eu e mais um pouco, quando o meu eu já encerra tudo. Terei dois ou três admiradores, dentre os quais papai e/ou mamãe, nenhuma bisonha ambição de sair por aí ferindo os corações de outrem, por mais glamoroso que isso pareça através das lentes cor-de-rosa.
Vou ser uma pessoa centrada, se é o que quero ser; cuidando bem de mim também, e zelando pela vida que carrego, por mais que vozes no entorno digam que o bacana mesmo é relevar, curtir despreocupadamente, desesperadamente, pular de noite em noite, de agito em agito, de trago em trago, de espetáculo em espetáculo, de horror em horror, de vazio em vazio. Banalidade cíclica! E se eu quiser ser quadrada? E se gosto de mim muito mais quando sou quadrada? Serei quadrada e pronto!
Que se danem as expectativas não maturadas. Os lugares que eu "tenho" que ir, as pessoas que eu "tenho" que conhecer, as iguarias que eu "tenho" que provar, os olhos que eu "tenho" que capturar!
Eu não tenho que comer sushi/sashimi só porque os outros ocidentais encasquetaram de "sacralizar" o arroz empapado e o peixe cru. Não tenho que ler os livros que todo mundo lê só pelo medo de, caso não o faça, parecer burra, bitolada ou antiquada e démodé.
Eu não tenho, na verdade, a obrigação de ser nada. E se eu quiser ser um nada, que seja, essa será a minha única obrigação! O meu dever, primeiramente, é comigo. Eu sou, aqui na Terra, em termos triviais e brutos, o meu melhor amigo. Pois eu é que convivo comigo mesma todos os dias da minha vida, convivo de dentro para fora, e vejo o mundo através dos meus próprios olhos. Se eu não buscar ser eu, rapidamente me sufocarei, e me matarei, e então viver dentro de mim será insuportável, porque serei eu e milhões de outros eus intoleráveis, intragáveis, oscilantes, multipolares. Por isso mesmo é que todas as mulheres de mim, já as matei. E a cada novo dia será um novo dia, mas eu permaneço sendo eu, aqui, aprendendo de mim e dos outros, crescendo e moldando-me, no entanto portando a mesma essência do meu eu, que é única, irrepetível, e só minha. Só eu.

“Todas as belezas contêm, assim como todos os fenômenos possíveis, algo de eterno e algo de transitório, de absoluto e de particular. A beleza absoluta e eterna inexiste, ou melhor, é apenas uma abstração empobrecida na superfície geral das diferentes belezas. O elemento particular de cada beleza vem das paixões, e como temos nossas paixões particulares, temos nossa beleza particular.”
Charles Baudelaire



sexta-feira, 25 de março de 2011

A IMPOSSIBILIDADE DE LER DALTON


Cometi o desatino de me aventurar a ler Dalton Trevisan. Na verdade, anterior a experiência, já conhecia um de seus contos, chamado "Uma Vela para Dario".
Então procurei outras coisas dele, preconizada por minha professora de Redação, a Josi, outro desses diamantes brutos e indescritíveis que raramente a gente encontra na vida.
Ainda hoje não o conheço muito a fundo, é verdade, mas, ao ser instigada por ela, nadei pela internet e descobri ainda mais alguns títulos do cara. Então, com ousadia, dei continuidade ao desafio mergulhando no livro dele chamado "A Polaquinha".
Comecei... Não terminei. Em parte, sufocada pelas provas da escola, mas também sufocada por outras leituras. Fico me martirizando até agora... Mas hei de um dia terminar.
No entanto, o que ainda me pergunto é o seguinte: "Onde eu estava com a cabeça quando encasquetei de ler Dalton?!"
Simplesmente, não dá. É maravilhoso demais, bizarro demais. Um tipo de linguagem, de estratagemas, tão peculiares e próprios, que só mesmo determinados estados de ânimo conseguem desvendá-lo.
Sua escrita é densa. Ao mesmo tempo, incisiva, simples, bruta, quase prosaica, como se conversasse balbuciando.
Uma economia de palavras absurda, uma inversão de termos e frases, verbos obrigatoriamente transitivos sem transitar, hipérbatos bizarros. Leitura bárbara. Seja no sentido excepcional ou devastador.
Não é qualquer um que tem a disposição, ou absorção, para se lançar em livros que requer muito da abstração e quase nada da simples leitura em si. É preciso ir além. Desvendar conexões, abrir caminhos, desmatar, para então saber exatamente, ou quase exatamente, o que lunáticos como Dalton querem dizer.
Morri de inveja de sua escrita. Na verdade, morro de inveja e de amores por qualquer autor que, já no título, me cativa. E tal deslumbramento foi tão grande, o choque, meu Deus, o choque, que estou até agora evitando um novo confronto com os livros dele. Decidi deixá-los para uma outra hora da vida, quando tudo o mais estiver conturbado, tal qual sua escrita. Quem sabe na confusão me encontro.
Ao iniciar a leitura de "A Polaquinha", de certa forma me remeti a um livro do Ignácio de Loyola Brandão, um dos meus livros favoritos, que li há muito tempo, chamado "O Beijo Não Vem da Boca". Este também me pescou pelo nome. Qualquer dia conto aqui meu enlace com a obra, que é, eu diria, um tanto dramático e pré-adolescêntico. Mas divertido.
Enfim, com o romance de Dalton, era como se olhasse outra vez para a obra de Loyola. Em "O Beijo Não Vem da Boca", a mesma narrativa difícil, conturbada, emaranhada se faz presente.
Há uma confusão tão grande dentro do eu-lírico, que se reflete até mesmo na disposição dos capítulos. O último no meio, o meio no início, o fim explicando o não dito... Simplesmente lindo e devastador.
Tive de ler "O Beijo Não Vem da Boca" duas vezes. A primeira, para me maravilhar, e babar, e sonhar, e curar as minhas feridas que, na época, pareciam se vestir tão bem com os trapos bem costurados daquele enredo... E depois, só na segunda vez, consegui desvendar as lacunas e sacadas por trás da história, concebi a trama de modo mais acessível.
Enfim. Enfim. Dalton Trevisan, ao contrário de alguns de seus simples e profundos contos, nos propõe em livros como "A Polaquinha" a mesma profundidade, mas deixando de lado a simplicidade, em troca de um cru remelexo na ferida. Como um conta-gotas, ele regula onde vai muito, onde vai pouco.
Leitura que choca, e faz parar, é leitura boa. Leitura proveitosa é aquela que te faz lembrar que você ainda não é tudo aquilo que pensou que fosse.
E até isso são palavras de uma mera leiga. Mas a leitura de modo geral, isto é, a boa leitura, é mesmo tão boa e poderosa que possibilita até mesmo aos leigos usufruir das palavras certas para emitir suas opiniões tão toscas.
Sendo assim, que me perdoem as tosquices despejadas aqui. Mas precisava, como a vontade louca de urinar que brota no meio da madrugada, falar um pouco deste desconhecido Dalton que é para mim.

domingo, 19 de dezembro de 2010

FRASES CÉLEBRES PARA DESCONTRAIR


Oi, pessoal! Essa antologia de citações venenosas foi extraída do livro "O Melhor do Mau Humor", de Ruy Castro. Espero que gostem e, se gostarem, vale a pena comprar o livro... É uma boa munição de respostas rápidas para as horas críticas.

Animais

"Meu animal favorito: bife."
(Fran Lebowttz)

Beijo
"O homem rouba o primeiro beijo, implora pelo segundo, exige o terceiro, recebe o quarto, aceita o quinto, e suporta os restantes."
(Helen Rowland)

Casamento
"O segundo casamento é o triunfo da esperança sobre a experiência."
(Samuel Johnson)

Crianças

"Só pergunte a uma criança o que ela vai querer para jantar se ela estiver pagando."
(Franz Lebowttz)

Dinheiro

"O dinheiro pode não comprar a saúde, mas eu me contentaria com uma cadeira de rodas cravejada de diamantes."
(Dorothy Parker)

"As únicas pessoas que pensam mais em dinheiro do que os ricos são, naturalmente, os pobres."
(Oscar Wilde)

Egoísmo

"Egoísta, s.m. Um sujeito que pensa mais em si mesmo do que em mim."
(Ambrose Bierce)

Filosofia
"O truque da filosofia é começar por algo tão simples que ninguém ache digno de nota e terminar por algo tão complexo que ninguém entenda."
(Bertrand Russel)

Governo
"É uma pena que todas as pessoas que sabem como governar o país estejam ocupadas dirigindo táxis ou cortando cabelo."
(George Burns)

Homens
"A única profundidade que os homens admiram numa mulher é o seu decote."
(Zsa Zsa Gabor)

"Homens são criaturas com duas pernas e oito mãos."
(Jayne Mansfield)

"Uma vez igualadas aos homens, as mulheres se tornam seus superiores."
(Sócrates)

Ilusão
"O sábado é uma ilusão."
(Nelson Rodrigues)

Jornalismo

"Primeiro, apure os fatos. Depois, pode distorcê-los à vontade."
(Mark Twain)

Jovens
"Jovens de todo o mundo: envelheçam."
(Nelson Rodrigues)

Literatura

"Quando se diz que um escritor está na moda, é porque ele é admirado por menores de trinta anos."
(George Orwell)

"Alguns livros são do tipo que, quando você os larga, não consegue pegar mais."
(Millôr Fernandes)

Moda
"Certas roupas femininas nunca saem de moda. Apenas ficam mais ridículas com o passar dos anos."
(Fred Allen)

Mulheres
"Amo as mulheres, mas não as admiro."
(Charles Chaplin)

Negócios

"Reuniões são indispensáveis quando não se quer decidir nada."
(John Kenneth Galbraith)

Ódio
"Sou livre de qualquer preconceito. Odeio todo mundo, indistintamente."
(W. C. Fields)

Pais
"Papai e mamãe eram duas crianças quando se casaram. Ele tinha dezoito anos, ela dezesseis e eu três."
(Billie Holiday)

Paixão
"Muitos homens que se apaixonam pela covinha de um sorriso cometem o erro de se casar com a garota inteira."
(Stephen Leacock)

"Estou apaixonado pela mesma mulher há 41 anos. Se minha esposa descobrir, vai me matar."
(Henny Youngman)

Rock
"Não sei uma nota de música. Nem preciso."
(Elvis Presley)

"Adoro Beethoven, especialmente os poemas."
(Ringo Starr)

Sexo
"É perda de tempo procurar zonas erógenas no corpo de uma mulher. Ou elas estão em toda parte ou em parte alguma."
(Joseph Heller)

"Nada mais grotesco do que dois americanos se congratulando por ser heterossexuais. Isto só acontece nos Estados Unidos. Nunca vi dois italianos se congratulando por gostar de mulheres. Para eles, isso é normal."
(Gore Vidal)

"O ato sexual é uma mijada."
(Nelson Rodrigues)

Silêncio

"Silêncio - aquela insuportável réplica."
(G. K. Chesterton)

Transporte
"Odeio carros. Os antigos inclusive. Prefiro cavalos. Pô, pelo menos os cavalos são humanos!"
(J. D. Salinger)

"Avião: é mais pesado do que o ar, tem motor à explosão e foi inventado por um brasileiro. Não pode funcionar."
(Vinícius de Moraes)

Últimas palavras

"Hei de fazer do Brasil o líder dos países pobres."
(Luis Inácio Lula da Silva)

Vaidade

"Só conheci três gênios na vida: Pablo Picasso, Alfred North Whitehead e Gertrude Stein."
(Gertrude Stein)

Xenofobia

"Um americano pode viver vinte anos no Brasil e, quando volta para os Estados Unidos, ninguém o chama de brasileiro. Já ao nativo, ao indígena, ao aborígine, é proibido sair da taba."
(Tom Jobim)

Zoo

"O tipo de sujeito que gosta de passar o tempo contemplando um camelo babar, araras matraqueando ou um lagarto comendo moscas, é exatamente o tipo de sujeito cuja debilidade mental deve ser combatida, não estimulada."
(H. L. Mencken)


DE NOITINHA

O vento quente na noite fria
O vento frio na noite quente
Árvores que sussurram na noite vazia
Um gole em seco na rua escura

A fria noite de noite crua
Um sussurro pesado de meias palavras
Coruja branca na noite sem lua
Um peito pesado de frases não ditas

Um mar de estrelas desiludidas
Silêncio, silêncio, silêncio
É noite, é noite, tão noite que dói

E explode no céu então o sol de alegria
Um riso abafado
Um pulo sem fardo

E um poema assim, tão inacabado!...

sábado, 30 de outubro de 2010

OS SEM-LICENÇA

Outro dia, na escola, meu professor falou, dentre outras desmotivacionais besteiras simplórias: [...] "É que os poetas dispõem de uma coisa que nós não temos - licença poética".
Opa! Espera aí. E os outros, como é que ficam? Os que não são escritores, não são compositores, não são poetas - ou poetisas, que seja -, como é que fazem? Como é que eu fico?
Eu preferia que naquele momento você fosse engolido por um peixe, professor.
Como é que eu fico? O que é que eu vou fazer da minha vida se eu, que não sou ninguém, não tiver a minha licencinha, a minha licençona poética? Mas nãããão!
Eu também preciso viver, preciso pensar, preciso escrever livremente. Eu me habituei a isso, campeão. Então não tire isso de mim.
Mas que coisa. Fico até agora me perguntando como alguém pode saber (ele diz) alemão, a língua aglutinadora, e ainda assim vir dizer que o pobre povo, ordinário (no elementar sentido de "simples"), a massa sonhadora e aspirante, não pode desfrutar da licença poética?
E só de graça, sabe o que eu fiz? Me rebelei, é isso mesmo. Estamos de mal até segunda ordem, eu não fiz mesmo o seu trabalho, e espero que você nao leia isso aqui.
Ah, mas que saudades daquele antigo professor que tanto nos motivou! Volta... Eu clamo.
Triste fim para o atual professor de português. Engolido por um peixe. O peixe da cegueira.
Até reconhecer que o meu eu-lírico também pode usufruir de umas doses de anarquismo literário.
Viva a literatura desmordaçada!

JANE EYRE


Que filme lindo! Não é nenhum Titanic, nenhum Avatar, ou a videografia do Justin Bieber, coisas que a aclamação pública insiste em sacralizar. É simplesmente a versão antiga, em preto e branco, para o cinema, de um livro clássico e belíssimo da literatura inglesa.
Agora, estou lendo o livro. Sim, lindo. E claro, bem mais detalhado, mais denso, um bocado mais profundo que a película. Gostei do filme, assisti com a minha mãe, num canal de clássicos da TV a cabo.
A verdade é que o livro da Charlotte Brontë estava no meu computador há séculos (ei, não me julguem!), tinha baixado há algum tempo a fim de conhecer melhor a obra ao vê-la sendo citada em inúmeras outras fontes.
Mas então, à época, depois de protelar mais ou menos uns seis meses, desisti de ler o tal clássico - na verdade nem comecei. Foi mais ou menos o que aconteceu também com um outro livro que baixei, uma peça do Shakespeare. A Megera Domada, que abandonei após ler só até a metade. Bom, mesmo já sabendo o fim da peça - o que normalmente me motiva potencialmente a prosseguir - acabei deixando A Megera de lado, e releguei-a à pasta "Nunca Lerei" no PC. Enfim, o mesmo destino acabou tendo Jane Eyre, por pura tolice minha.
Mas então, a um golpe qualquer da vida, lá estava eu, ligada ao TCM - que, louvado seja Deus, não tem intervalo - e me rendi inteira à doçura dramática, à simplicidade antiga do filme baseado na obra de mesmo nome.
Gostei bastante, ainda estou em estado de graça. Gostei de ouvir um homem rude - ou, quem sabe, apenas escravo de uma terna e cativante brusquidão -, se declarar com algo do tipo: "Mas como assim, não está chorando?! Posso ver as lágrimas agora mesmo, boiando aí nos seus olhos, quase a ponto de cair"... E vê-lo render-se irrevogavelmente a um par de "mãos geladas".


* Caramba, não consigo pronunciar esse sobrenome! "Jane Rrrrrrr"...

domingo, 17 de outubro de 2010

AINDA TENHO MUITO A DIZER

Principalmente quando não digo nada. Quem sabe um gemido rouco, um grito ao alto, uma asa que corta o céu. Gosto quando sou só eu e o fundo, uma prisão infinita, um rasgo no mar de palavras não ditas, e que por enquanto permanecerão assim, silentes, mas não estagnadas.
Gosto do cheiro das palavras, gosto de tocá-las, de sentir o gosto delas na ponta da língua quando ainda nem sequer as mastiguei. Primeiro é sonho... O momento da antecipação.
Tenho ainda a dizer o que não digo. Tenho fundura, rastro, certeza, mil dúvidas, um eco. Grandezas proporcionais, o toque de um som, a sílaba que cai no hiato, e o verso que às não vem.
Então fico muda. Mudez improdutiva, estéril. Quando não consigo dizer no silêncio aquilo que tanto quero gritar. Dois silêncios diferentes, cada um, a seu modo, arrasador. E essa loucura de não poder dizer o que se sente!... De ser tão amigo das palavras silentes, tácito acordo, e quando se precisa delas, elas somem, fogem, escapulem (escapolem, escapulam?), escorregam naquele brinquedo da infância e vão para longe, onde não podemos alcançá-las, onde eu não posso alcançá-las, distante demais para lembrá-las, ou ainda longe demais que as não conheço.
E gosto desses silêncios. Prefiro o primeiro. Quando a minha voz me entende melhor do que entende todo o mundo ao redor que finge que sente algo que realmente não se diz, não se fala, mas carrega. Eu e o meu silêncio, assim, de lado, de banda, de acordo. Sou mais bela com ele.

sábado, 16 de outubro de 2010

AO MEU MENTOR

Ainda lembro a primeira vez em que o vi. Branco, cabelos de um tom indefinível de castanho, desses louros assim, meio escuros, meio acabrunhados. Aparelho nos dentes e boné. Meu Deus, quem diria que era um professor? Ele é. Mas foi além, muito além disso. Ele foi o meu mentor desajustado, dos ajustes mais perfeitos, mais sinceros, mais bacanas. Encaixou. Pude até ouvir um "clic" quando a ficha caiu: "É ele!".
Confesso que no início menosprezei, por medo, eu estava amedrontada. Mas isso durou apenas uns dois, três minutos. Até que sua primeira aula começou e eu entendi que era ele. Ele e ele. Engraçadíssimo. Sacana. Eu tentei... Mas o riso explodiu, inevitável!
Eu sinto uma saudade imensa porque este homem-rapaz foi para mim muito mais que um mestre. Ele deu valor a coisas minhas que ninguém jamais deu... Como uma boa resposta, como citar Paulo Leminski e a poesia marginal numa prova. Ele deu valor a uma sede que existia aqui por dentro - esse meu interior ainda misterioso - e eu nem ao menos conhecia sua extensão: a sede de escrever. De viver. Meu Deus... De viver! Eu só devo agradecer.
Um homem inteligentíssimo. Um garoto. Inefável. Poderia ser meu irmão mais velho, imaginem só. Ouvir suas histórias, contos incisivos, picantes, azedos, melados, lindos, bons, era como ser transportado com um chute no estômago até um local inimaginável. Cores escorrendo pelas paredes, o sonho e o talento vibrando por cada acento agudo na voz, quem sabe uma batida sussurrada, o eco que assenta, e o fim magistral.
Eu amei cada segundo com esse professor. Eu amo. E muito. Ora, nem me contradigo! Por mais complicada e indecisa e desajuizada que eu seja - por ter deixado arrefecer nossos caminhos cruzados, o meu e o dele -, ainda assim digo sem errar: Ele foi o meu mestre literário. O original. O primário. O primogênito que atiçou minha mão direita, com a qual escrevo. Ele foi maravilhoso. Ele é.
Bruno. Pardo. Moreno. Nem é. É branquinho... Aparentemente calmo. Mas experimente provocá-lo. Não, não experimente.
Sabe-se lá por onde anda agora. Será que lembra de mim? Será que sente saudades? O meu letrado futuro doutor. Mestre já é. Certeza. O nosso. De uma turma inteira. Não só uma turma, mas uma trupe barulhenta e ainda assim acanhada de amigos que foram consquistados com um tiro no peito. Irrevogável.
Hoje, esse sangue nostálgico e saudoso que escorre do trauma de bala é o mesmo rio que flui e jorra dos meus dedos quando quero meditar, escrever. Penso nele, aquele professor, e fico matutando... Eu também quero vencer. Vencer a mim mesma. Vencer as circunstâncias que diziam ser improvável que um coração interiorano caísse nas graças do mundo vasto mundo.
Ainda penso nele quando escrevo, penso em vitória, em cansaço, em sirene. Meu mentor. Sem seu estímulo teria sido tudo muito mais lento. O que posso dizer? Veja se volte. Tenho saudades. E o que mais? Obrigada. De B para B, mil vezes: Obrigada!

Ao meu mentor.