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sexta-feira, 14 de novembro de 2014

TUDO SUSPENSO

Na aula de Educação e Cinema, sem conseguir me concentrar. Vontade de chorar estranha, porém a conheço bem. Quero estar na minha cabeça e ao mesmo tempo fugir dela. Essa agonia de paixonite frustrada oprime. Preciso escrever para dar sentido a tudo isso... Ou na verdade esvaziar o sentido de tudo. Se não significar mais nada, estarei bem.
Não tenho fome. Não tenho vontade de lutar pelos trabalhos atrasados da faculdade. O semestre está quase no fim, mas há ainda um tanto a fazer. Não quero... Não me sinto no clima. Não desejo sair, não quero partir. O que quero não posso. Quero ficar e ter e ver e sentir e provar. Que estou certa em pensar que estou errada, mas estando errada me realizaria tanto...
Não posso pensar assim!
Confusa, é o que estou. Não, na verdade, muito convicta (de que o que eu quero não pode ser). Mas continuo querendo... Minha mente segue sem descanso em desvarios persistentes.
Que mais? Passam agora ali no quadro um vídeo em espanhol. Ninguém entende nada. Algo sobre edição de áudio. Suspiro.
Totalmente compreensível, assim, que eu me volte para mim mesma, desatenta ao mundo, perdida em palavras, perdida nos meus arremedos arruinados de sentimentações...
Minha mente fervilha. Socorro! Quero fugir de mim em mim. Poderei? É irrefreável vontade. Quero me entocar aqui dentro, mas, ao mesmo tempo, ao mesmo tempo em que a prisão mental me conforta, com suas ilusões tão doces e seus eflúvios langorosos, lúbricos, sei que me fará muito mal permanecer nela. Beiro o caos. Gosto dele. Contudo há de me tragar. Tremo.

sábado, 26 de abril de 2014

DRUMMOND

A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estreita, como se alargava.
Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres
em mim ressuscitados. Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.
Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

DESCREVER O QUE NÃO SE SENTE

A escrita nos abre milhões de janelas que só mesmo a imaginação pode construir. Uma dessas janelas abertas chama-se "experiência". Porque experiência não diz respeito necessariamente àquilo que se experimentou em vivência - ou seja, o que foi táctil, o que foi palpável, filtrado pelos sentidos mais físicos -, mas sim diz respeito a tudo aquilo que se pode degustar em espírito, com a mente. A palavra então traz esse mundo de areia construído sobre rochas de vento para a plataforma de papel - ou eletrônica, ou calçada, ou troncosa, o que seja!
Experimentar não é viver no corpo somente, mas também vivenciar dentro de um processo de pensamento completo, e tornar ainda mais sólido através da palavra. Descrever o que não se sente, descrever o frêmito, o arrepio, o toque. Dedos invisíveis que deslizam pela derme como um trem sem destino e sem pressa. Olhos que rolam preguiçosamente e com carinho sobre a pele que cheira a Nivea. Sorrisos que se insinuam porque o toque é bom. Dedos que, após o caminho, se entrelaçam. E os pelos dos braços ouriçados, e os pelos das pernas tolhidos pelo jeans. A mão agora atada em outra que sobe novamente pelo ombro macio e alcança a face que se cora, coraliza. E pula outra vez a bochecha num sorriso desses meigos de fazer o coração gelar e ferver ao mesmo tempo. E o sorriso de resposta, dono do toque-ouriço, tem a barba por fazer e espeta, mas é delícia. Roça no pescoço, dizer cangote é mais gostoso, aconchega-se naquele canto que a gente chama "curva dos enamorados", a pele macia, o vão entre nuca e clavícula, e cheira bom.
Chega mais perto, olhos nos olhos, eles se têm capturados. Quem dirá daqui a um ano, dois, dez...? Mas, que importa isso agora? Olha só como se olham, olhos nos olhos, e o acanhamento de finalmente se flagrar assim tão apaixonado, mas tão, que o termo perde o sentido, fica vagando desconexo entre duas almas e dois corpos que se querem bem mais do que precisam de espaço, tempo, ar. E, achegados, assim, de mansinho, vagarzinho, esse olhos nos olhos e dedos nos dedos, forte, porque o compromisso agora se mostrou em toda a sua proporção monumental, são as barrigas que se chocam, as respirações no compasso do descompasso, vem de novo, toma os lábios, e estes se abrem, e se achegam também.
E posso não estar vendo ou provando a cena, mas sei que acontece, porque se materializa em minha mente, escorre por essas paredes tão vazias, tão cheias de tudo, e então vêm pelo córrego direito, fazem a curva ao pé do leito miocárdio o outro extremo esquerdo, então desaguam pela mão destra, fazem seu caminho rumo a um texto tão bem, tão sem razão, que sua única certeza é ser brutalmente real, brutalmente sentido, mesmo não sendo.

sexta-feira, 9 de março de 2012

RECADO

Neste dia da mulher, seja homem.
Diga a ela o que você sente. Mas diga com todas as letras.
Diga a ela que você se arrepende, que se arrepende muito de sua última burrada, e que provavelmente voltará a cometer outras, mas tudo sempre estará bem se ela estiver com você.
Neste dia da mulher, fale a verdade.
Admita que você realmente olhou para a bunda da vizinha - mas não é ao lado dessa que você quer estar para o resto da vida.
Dê a ela uma flor, apanhada com todo o carinho. Não precisa ser um buquê de rosas vermelhas, opulentas... Não. Basta ser uma florzinha miúda, dessas róseas, amarelinhas ou brancas, que aparecem pelo chão, por entre as frestas da calçada, e que resistiu a todas as intempéries para estar com ela.
Seja generoso, afável, descontraído.
Ser generoso - dar a ela aquele beijo de cinema com o qual ela sempre sonhou, e dedicar uma parte sincera da sua atenção às coisas que ela tem a dizer.
Ser afável - tratar os cabelos dela, as mãos dela, o pescoço dela, o coração dela..., enfim, ela toda, com ternura. Sem medo de parecer fraco. Não há homem de caráter mais forte do que aquele que demonstra seus sentimentos, sem nem precisar dizê-los.
Ser descontraído - não pegar no pé dela caso tenha exagerado na maquiagem, no salto alto ou na chapinha. E rir um pouco dessa preocupação tão febril com a aparência, deixando claro que, para você, ela é musa até de pijama e rímel borrado.
Seja homem. Mas não seja só hoje. Que hoje seja só o ponto de partida. E que amanhã, e amanhã, e depois..., você prossiga sendo o homem que essa mulher pediu a Deus.
Não duvide. Ela com certeza pediu.
Então apenas... Seja.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

ESPERANDO O GRANDE AMOR

Oh, garotas, garotas, não se contentem com pouco! O pouco é tão pouco, é tão chinfrim, é tão óbvio e é tão "na moda" que chega a desbotar.
Pelo contrário, minhas caras amigas, se contentem e busquem o muito, o antiquado, o que ficou para trás, e nunca deveria ter ido.
Peçam cavalheirismo, implorem, e, se for preciso, ensinem. Ah, espera, não... Nada de implorar. Se tiver de implorar a um obtuso que seja cordato, então ele não é o cara certo.
Não se contentem com a baba, o ínfimo, com o horário espremido entre as madrugadas insones no vídeo game e as tardes intermináveis de sono. Não se contentem.
Queiram aquele cara que nenhuma outra quer, porque ele não é a escolha óbvia. Aquele que pode te querer quase tão intensamente quanto deseja oxigênio nesta vida vertiginosa. Queira o cara que esperou por você, que zelou por você, que se mostra cordato por atitude própria. Queira o cara que não tem embustes, mas tem sutilezas. Queira aquele cara que vai sussurrar em seu ouvido as coisas mais lindas, mais íntimas... "I've Got You Under My Skin"... "Your body is a wonderland"... "Your taste in my mouth"...
Queira este cara maneiro, que é maneiro de verdade, e não maneiro babaca. Esperem por ele, e não se envergonhem de esperar. E também não se acovardem. Porque, se ele aparecer, você precisa reconhecê-lo no ato.
Queira o grande amor. Não o quase-amor, mas o grande amor. O amor desnudo, o amor com desprendimento, o amor de verdade. Queira o grande amor. Aquele amor que vem com doses de paixão e doses de carinho, que faz a cabeça girar, a pálpebra tremer, as luzes se acenderem e você sair do escuro.
Queira um amor que seja seu por inteiro, e lute para ser o grande amor do seu grande amor. Queira-o tanto como ele querer-te-á quando pôr os olhos em você. Queira o grande amor já sabendo que o tempo árduo de espera valeu, valerá. Faça do seu amor um grande amor, amor sem frescura, sem nó, e as demais coisas parecerão tão pequenininhas...

sexta-feira, 10 de junho de 2011

MOLHADO

Uma gota de chuva no asfalto
Semáforo fechado
Caso encerrado
Fim.

Um gato a se lamber no tapete
Lúgubre casa
E duas línguas quentes
A se amarem no escuro...

Eu sei o que está acontecendo
É de novo aquela tempestade
Aquele período interminável
De longas saudades de nada
De versos sem métrica
Sem rima
De poesias descabidas
De paixonites não saradas

quinta-feira, 26 de maio de 2011

MALDITO BENZALDEÍDO

Não gosto de falar de amor porque não me dou bem com ele. O último amor que tive foi arrancado de mim ainda na infância. Por isso mesmo é que, hoje, desgastado, já não tenho coração. Ademais, tenho um cachorro. Que é menos meu do que de minha vizinha, uma menininha loira de olhos castanhos, que certamente um dia irá morenecer...
Tenho medo desses escritores que falam de amor como se falassem de bife. Não quero me prolongar. Mas também temo aqueles que descrevem o amor sem conhecê-lo. Sim, não há problema em imaginar e, consequentemente, conceber o que não se conhece... Todo escritor faz isso, eu sei, sou um deles. Se viajei a tantos lugares como sugerem meus livros - lobos famigerados -, certamente metade dessas jornadas percorri sem sair da poltrona de minha sala.
Mas ainda assim sei que com amor não se brinca nem se inventa embustes. Fala dele quem o conhece, ponto. Fala dele quem o quer. Amor é coisa séria. E nunca o provei, indo com a colher até o fundo, mas sei que ele existe. Se não existisse, não teria eu tanto medo. E, admito, sou covarde.
A verdade, a verdade mesmo, é que fui podado muito jovem... Daí não me arrisco. Porque a casquinha da ferida me arrancaram demasiadamente cedo. Mas, se querem saber, eu conto.
Tinha só dez anos, veja bem. Uma idade insossa, eu até diria. Era novo na turma e havia uma garota. Ela sentava-se sempre ao meu lado. Não era bonita. Pelo menos ninguém lhe disputava a atenção. Mas, para mim, era linda. Era lindíssima. Tinha ares de precoce, madura. E um nariz adunco, desses de águia, com a ponta virada para baixo, que me fazia morrer de loucura por ela. À época, aquele nariz povoou muitos sonhos meus... Não posso dizer o que nos leva a amar alguém. Só posso dizer que a primeira coisa que amei foi aquele nariz.
Como nos sentávamos perto um do outro, eu na fileira da parede e ela na fila ao lado, não tardou fazermos amizade. Quer dizer, não sei. Éramos, pelo menos, colegas de trabalho. Eu não falava com ninguém. Extremamente introspectivo – e vejo aqui a falta de originalidade, o velho clichê do escritor solitário que se repete desde a infância. A guria, por sua vez, apesar de estar havia mais tempo que eu naquela escola, também não tinha muitos amigos ali. Por algum motivo obscuro as meninas a evitavam... Éramos então duas almas sozinhas que se aderiram, inevitavelmente.
E lembro-me ainda hoje como se fosse água... Complexa, mas transparentemente: terça-feira, alguma de junho. Foi então que me apaixonei por ela por completo. A situação: nós emaranhados entre mínimos e máximos denominadores comuns, ela se debruçou sem se dar conta sobre mim e eu senti o cheiro indescritível de sua pele.
Ah, meu Deus... O que foi aquilo? Ela tinha um daqueles cheiros doces e suaves que a gente sempre quis sentir, mas nunca descobriu em ninguém, e fica por parecer mais uma mentira de cinema. Cheiro de... Cheiro de... Eu não consigo dizer. Doce e suave, doce e suave, doce e suave. Não fui capaz de pensar em mais nada. Fiquei maluco. E segui para casa assim, no banco da frente do ônibus, pensando “que cheiro poderia ser aquele?”. Que nome ele teria, como decodificá-lo...?
Lá pela madrugada, mofando na cama, decifrei. Ela tinha cheiro de amêndoa. Amêndoas... E será que tinha gosto também? Só pude concluir que aquele aroma era todo dela, todo dela, irrepetível, de mais ninguém.
Ao longo dos meses, fui arrumando desculpas para me sentar mais ao seu lado, colado. Ela, com seu narizinho de ave feiosa no rosto magro, dizia-me que sim, eu podia, contanto que fizesse silêncio. Ela queria prestar atenção à aula. E eu faria, é claro, silêncio, entregue e rendido. Só me interessava cheirá-la...
Um dia, lá pelas tantas, descemos as escadas conversando e acabamos passando o recreio todo juntos. Num banco qualquer, no pátio da escola. Ali, em tom de confissão, ela me disse que odiava seu nariz, que tinha alergia a ovo e muito medo de morrer. Eu afirmei a ela que não, nunca, ela não morreria nunca! Ela era muito bonita para morrer. E, com mão suada, aproximei-me, naquela voz de quem ainda nem sabe dizer: "Você é tão bonita que me dói aqui por dentro". Tentei, ato contínuo, beijá-la. Ela, igualmente, me repeliu. Saiu correndo, espantada, e só deixou às minhas vísceras já tão doridas o doce rastro do seu misterioso cheiro amendoado. Lúdico-lúgubre-lúbrico amendoado.
Não nos falamos mais. Nunca, nunca mais. Permanecemos na mesma escola, até os dois anos seguintes, inclusive na mesma sala. E foi só. Um dia, quando estávamos já na casa dos treze, e ela não mais na mesma turma de sétima série em que eu, acabei por vê-la, numa tarde chuvosa, em frente ao portão de sua casa (eu a seguira secretamente até ali tantas vezes...), sim, a vi entrar num carro prateado.
Estreitei então meus olhos. Lá dentro, um cara. Por volta dos 40, grisalho, uma das mãos ao volante. Tinha barba, tinha paletó, tinha aliança. Através do para-brisa rasgado pela chuva, vi aquele ser estranho beijar a menina morena e cheirosa que, mesmo oniricamente, tanto me pertenceu.
Mais tarde, em outras tardes, de chuva ou de sol, outros momentos da vida, cheguei a vê-la entrar de novo em outros carros. E foi assim, com tantos carros, que ela deixou de ser minha.
E, um dia, eu já no ensino médio, li em um livro pesado de química orgânica a respeito do aldeído que, ligado a anel aromático, recebe o nome de "benzaldeído". Este capricho de nome feio tem, por sinal, um cheiro maravilhoso. Imita o de amêndoas. É usado comumente na fabricação de perfumes.
Comumente.
Bem... Bem. De raro e precioso, a ilusão só tem o tempo que dura. E foi assim que percebi ser hora de superar. Que eu já não podia também ser dela. Que ela nunca fora minha. Que essas coisas todas passam. Sim, um dia, elas todas passam. E não deixam nada além de vagas noções de química...

sexta-feira, 25 de março de 2011

A IMPOSSIBILIDADE DE LER DALTON


Cometi o desatino de me aventurar a ler Dalton Trevisan. Na verdade, anterior a experiência, já conhecia um de seus contos, chamado "Uma Vela para Dario".
Então procurei outras coisas dele, preconizada por minha professora de Redação, a Josi, outro desses diamantes brutos e indescritíveis que raramente a gente encontra na vida.
Ainda hoje não o conheço muito a fundo, é verdade, mas, ao ser instigada por ela, nadei pela internet e descobri ainda mais alguns títulos do cara. Então, com ousadia, dei continuidade ao desafio mergulhando no livro dele chamado "A Polaquinha".
Comecei... Não terminei. Em parte, sufocada pelas provas da escola, mas também sufocada por outras leituras. Fico me martirizando até agora... Mas hei de um dia terminar.
No entanto, o que ainda me pergunto é o seguinte: "Onde eu estava com a cabeça quando encasquetei de ler Dalton?!"
Simplesmente, não dá. É maravilhoso demais, bizarro demais. Um tipo de linguagem, de estratagemas, tão peculiares e próprios, que só mesmo determinados estados de ânimo conseguem desvendá-lo.
Sua escrita é densa. Ao mesmo tempo, incisiva, simples, bruta, quase prosaica, como se conversasse balbuciando.
Uma economia de palavras absurda, uma inversão de termos e frases, verbos obrigatoriamente transitivos sem transitar, hipérbatos bizarros. Leitura bárbara. Seja no sentido excepcional ou devastador.
Não é qualquer um que tem a disposição, ou absorção, para se lançar em livros que requer muito da abstração e quase nada da simples leitura em si. É preciso ir além. Desvendar conexões, abrir caminhos, desmatar, para então saber exatamente, ou quase exatamente, o que lunáticos como Dalton querem dizer.
Morri de inveja de sua escrita. Na verdade, morro de inveja e de amores por qualquer autor que, já no título, me cativa. E tal deslumbramento foi tão grande, o choque, meu Deus, o choque, que estou até agora evitando um novo confronto com os livros dele. Decidi deixá-los para uma outra hora da vida, quando tudo o mais estiver conturbado, tal qual sua escrita. Quem sabe na confusão me encontro.
Ao iniciar a leitura de "A Polaquinha", de certa forma me remeti a um livro do Ignácio de Loyola Brandão, um dos meus livros favoritos, que li há muito tempo, chamado "O Beijo Não Vem da Boca". Este também me pescou pelo nome. Qualquer dia conto aqui meu enlace com a obra, que é, eu diria, um tanto dramático e pré-adolescêntico. Mas divertido.
Enfim, com o romance de Dalton, era como se olhasse outra vez para a obra de Loyola. Em "O Beijo Não Vem da Boca", a mesma narrativa difícil, conturbada, emaranhada se faz presente.
Há uma confusão tão grande dentro do eu-lírico, que se reflete até mesmo na disposição dos capítulos. O último no meio, o meio no início, o fim explicando o não dito... Simplesmente lindo e devastador.
Tive de ler "O Beijo Não Vem da Boca" duas vezes. A primeira, para me maravilhar, e babar, e sonhar, e curar as minhas feridas que, na época, pareciam se vestir tão bem com os trapos bem costurados daquele enredo... E depois, só na segunda vez, consegui desvendar as lacunas e sacadas por trás da história, concebi a trama de modo mais acessível.
Enfim. Enfim. Dalton Trevisan, ao contrário de alguns de seus simples e profundos contos, nos propõe em livros como "A Polaquinha" a mesma profundidade, mas deixando de lado a simplicidade, em troca de um cru remelexo na ferida. Como um conta-gotas, ele regula onde vai muito, onde vai pouco.
Leitura que choca, e faz parar, é leitura boa. Leitura proveitosa é aquela que te faz lembrar que você ainda não é tudo aquilo que pensou que fosse.
E até isso são palavras de uma mera leiga. Mas a leitura de modo geral, isto é, a boa leitura, é mesmo tão boa e poderosa que possibilita até mesmo aos leigos usufruir das palavras certas para emitir suas opiniões tão toscas.
Sendo assim, que me perdoem as tosquices despejadas aqui. Mas precisava, como a vontade louca de urinar que brota no meio da madrugada, falar um pouco deste desconhecido Dalton que é para mim.

domingo, 19 de dezembro de 2010

CASA, AMOR E GASOLINA (parte I)

Ele chegou tão desnorteado em minha casa que, a princípio, tive medo. Veio até a porta arrastando-se pela calçada coberta de graminha como um coxo, deixando um rastro de sangue atrás de si, e uma poça escura bem no lugar onde parou sem ar.
No momento, eu acabava de sair de casa, estava ainda com as chaves na mão e mil coisas para fazer, quando avistei aquela massa humana e ensanguentada vindo em minha direção.
O pânico foi imediato, assim como o choque, que me paralisou. Contudo, bastou fitar seus olhos logo abaixo de mim para que uma pena brutal me atingisse em cheio. Não havia muito que fazer, afinal. Sendo enfermeira, deixei o instinto de sobrevivência de lado e acionei o instinto “ajudar ao próximo”. Larguei a bolsa e as chaves no chão e me agachei em direção ao seu rosto bronzeado, de alguém que trabalhava no sol. Estava retorcido de dor. As mãos que tentavam agarrar meus braços em busca de ar e socorro eram calosas como as de um pedreiro.
- Ei, camarada... Tudo bem aí? – obtive apenas um grunhido resfolegante como resposta.
O homem parecia um cachorro estufado, babão e à beira da morte.
- Ok. Vamos te tirar daqui.
Não foi fácil arrastá-lo escada acima até a varanda sob o alpendre. Reclamei um pouco, falando comigo mesma, enquanto pensava na melhor forma de tratar os ferimentos que agora eu observava de perto.
Foi fácil reconhecer as marcas. Eu lidava com aquilo todos os dias, na escola onde trabalhava, ao tratar das crianças que conviviam de perto – algumas vezes até dentro de casa – com a violência carniceira. Aqueles ali eram buracos de bala. Nas pernas, no abdome, e um inchaço no ombro direito.
- Pesado, hein?! Vamos, só mais um pouquinho. Preciso pelo menos te colocar na sombra.
Instantaneamente, ele fechou os olhos, como se assim pudesse ficar mais leve.
Foi o que imaginei. Ofegava.
- Com que gente o senhor foi se meter?... Espero que não esteja jurado de morte. Isso seria realmente um problema. Pronto.
Vi um traço de humor macabro em seus olhos, quando ele os abriu e notou que eu começava a rasgar-lhe a camisa – que um dia fora – azul escura, encharcada de sangue.
- Você... Você sabe...
- Shh... Eu sei o que estou fazendo. Sou enfermeira.
- Por favor, me ajude – ele agarrou meu braço, cerrando os dentes para não gritar de dor quando comecei a procurar mais buracos em sua pele.
- Tudo bem. É o que estou fazendo.
- Será que você pode dizer onde estou?
- Bom... – eu olhei rapidamente para ele, franzindo as sobrancelhas. – Estás em Macapá, afastado do centro da cidade. Ahn... Estamos perto da Lagoa dos Índios.
- Macapá... Macapá... Amapá.
- Isso. Isso. O meu nome é Beatriz. Bia, se preferir. Acho que nesse estado não vais conseguir dizer o nome todo. Trabalho numa escola pública, no Cabralzinho, como enfermeira. Esta é minha casa. Estás na minha casa, no Buriti, e tudo vai ficar bem.
Eu falava, tentando distraí-lo, enquanto avaliava o resto dos danos com a mão empapada de sangue.
- Dói aqui? – apertei seu ombro.
- Ai!
- Está fraturado. Provavelmente a clavícula. Mas que coisa, hein? Precisamos ir para o médico. Acho que te trituraram... O que tu fizeste?
Ele fechou os olhos.
- Eu atrasei você.
- Realmente. Mas duvido que seja por isso que te moeram desse jeito.
- Por favor... Não me deixe aqui... Eu vou morrer. Não estou vendo direito.
- É o menor dos seus problemas. Tudo bem, já disse que não deixo. Você escolheu a porta certa para vir morrer, porque não vai. Mas agora... Tu também precisas me ajudar, certo? Vou ter que te colocar dentro de um Fiat velho e apertado e correr para o hospital. Mas para isso precisas levantar e se apoiar em mim, pode ser? Vamos no três. Um... Dois... Três. Isso. Muito bem. Meu carro está logo ali. Só mais um pouquinho. Aguente firme!
Aquele foi um dia surreal. Eu saíra de casa às seis da manhã, para encontrar um moribundo ensanguentado bem na porta. Um moribundo sem nome, sem pistas, sem memória.
Mas isso não significava que eu ia ficar sem respostas.
Ele havia feito com que eu perdesse uma segunda feira agitada na escola... Não fazia mal então que, em troca, fosse submetido a um pequeno interrogatório.
Mas eu duvidava que ele fosse se lembrar. Não conseguia raciocinar direito, os olhos estavam vidrados, os membros convulsivos, e a barriga toda furada. Até mesmo depois de atendido, quando voltei com ele em silêncio para a minha casa, seu olhar perdido permanecia confuso.
Era, sem sombra de dúvidas, um bandido. Devia estar metido com gangues, drogas, roubos, alguma fuga do IAPEN... qualquer tipo de coisa assim. Eu não duvidava e, apesar disso, não tinha medo. Só o que corria pelas minhas veias era uma curiosidade mórbida. Tentei controlá-la até que ele estivesse instalado. Na minha casa.
A amnésia momentânea tinha vindo bem a calhar. Por uns dias, até a recuperação completa, ele estaria fora das ruas e, se Deus quisesse, em segurança. Trancafiado num dos quartos da minúscula casa de uma enfermeira solteira e de poucas posses. Bem. Eu duvidava que ele pudesse reclamar de algo. Mal falava, e aquela situação deveria ser muito melhor que seu estado anterior.
O médico havia dito que a perda de memória se devia, provavelmente, a alguma experiência muito traumática que ele vivenciara havia algumas horas. Talvez demorasse uma soneca para voltar. Ou talvez as memórias sumissem por meses. Ou talvez não voltassem. Era difícil precisar, principalmente com tão poucos mecanismos, e ainda por cima precários, como o que havia no hospital onde o levei. Era muita ciência, muita predestinação, muito surrealismo para um médico cansado e cheio de olheiras de um hospital quase interiorano.
Então, eu e o baleado ficamos acertados tacitamente que ele permaneceria em minha casa.
Numa noite, depois de trocar suas bandagens, enfaixar com gaze nova os seus pontos de bala, e massagear a clavícula quebrada com azeite de andiroba, ele adormeceu.
Com calma e silêncio – coisas antinaturais numa pessoa elétrica e falante como eu -, tive o cuidado de colocar sua tipoia de volta como se estivesse tratando de uma criança. Então pude olhar melhor para ele.
Fazia duas semanas que estávamos naquela rotina. E ainda assim todo dia parecia algo novo. Ele me olhava, e me olhava, e me olhava... Enquanto eu tratava dos ferimentos. E nunca dizia nada. Quase nada. A não ser, é claro, aquele “obrigado” murmurado e emocionado depois de cada dia de curativos e esparadrapos.
No total, ele parecia um homem calmo. Algumas vezes, eu me excedia e falava tanto, mas tanto... E ele ouvia. Isso era o mais engraçado. Tinha comentários estranhos, engraçados ou inteligentes para fazer sobre o que quer que eu dissesse, e ainda assim não se lembrava de nada antes do dia em que chegara arrastando-se até a minha porta. E agora eu tinha certeza de uma coisa: ele não era um bandido.
Não um bandido no sentido mais brutal ao qual costumamos associar. Não... era algo mais. Podia até ser do tipo obscuro, o que eu duvidava, mas havia nele uma passividade régia, um jeito calmo, controlado, reservado de conversar. Sua voz era sóbria, seus gestos eram contidos e ele nunca reclamava. Transpirava até certa autoridade. E apesar de tanta calma e paz, os seus olhos transbordavam mistério e palavras. Vinte e quatro horas por dia.
Olhei para ele. Tirei-lhe aquele monte de cabelo liso da testa e penteei-os para trás. Sim, agora estava com os tais olhos fechados. Mas normalmente, esses mesmos olhos, olhos cinza, costumavam olhar para mim como se soubessem quem eu era, o que queria, como se conhecessem meus planos, minha alma. Havia um calor sinistro e provocante ali dentro. Um calor que beirava a estupidez romântica dos poetas. Um desses calores que a gente encontra nos olhos da nossa mãe, ou nos nossos próprios olhos, quando estamos de algum modo apaixonados. E seja pelo que for.
Ele tinha esses olhos. Cinza. O que me fez deduzir que não era um nativo da minha cidade. Mas não apenas por suas características genéticas, tão patentemente “sudeste”, “sul”, ou sei lá o quê... Mas também pelo sotaque. Era difícil de rastrear.
No dia seguinte, depois do café, ele pediu que eu o levasse até o deque. Não era normal que eu o arrastasse pelos minúsculos cômodos da casa, mas algumas vezes ele gostava de olhar para fora, pela varanda do quarto onde estava ou ainda pela janela de trás, que dava para a lagoa.
Minha casa era pequena, como se feita para alguma boneca Polly. No entanto, havia ali uma graça infantil que me encantara desde que eu saíra da casa dos meus pais em busca de um lugar só meu. Eu tinha dois quartos, um banheiro, uma cozinha, uma sala ampla no térreo e um deque, numa casa de dois andares. Era tudo o que eu precisava. E, afinal de contas, sem pagar nenhum centavo, já que o imóvel tinha sido presente do papai. Um brinde à independência dependente!
Ao ar livre no deque, ajudei-o a sentar-se numa das cadeiras acolchoada e redobrável e ficamos a observar o céu nublado de dezembro. Imaginei que o tempo não estivesse exatamente “frio” se comparado ao frio que ele estava acostumado - se fosse mesmo do sul ou sudeste -, mas ainda assim, passados alguns minutos eu voltei ao quarto e apanhei um edredom para envolvê-lo. Com o braço direito imobilizado, e o resto do corpo enfaixado, ele não fazia quase nada sem ajuda.
- Obrigado – disse com um sorriso largo, embora rápido, enquanto eu voltava a me sentar.
Ficamos assim um tempo, em silêncio. Eu terminava a minha caneca de Nescau quente. De vez em quando ele me olhava pelo rabinho do olho.
- Quantos anos você tem? – ele perguntou de repente. Fiquei um pouco embaraçada.
- Por quê?
- Por que o quê?
- Por que queres saber?
- Por... Curiosidade.
- 23. E tu?
Ele me olhou e sorriu.
- Ops! Desculpa.
- Tudo bem. Não é culpa sua eu não poder lembrar.
Eu sorri aliviada.
- Obrigado pelo que está fazendo, Bia.
- Ah... – descartei o agradecimento com a mão. – Não é nada. Costumo ajudar desconhecidos baleados que batem à porta da minha casa e melam meu carro de sangue. É uma espécie de hobbie.
Ele riu.
- Sabe... Amanhã é véspera de Natal. Já tens planos?
Ele me olhou captando meu ar sardônico.
- Você é insuportável às vezes.
- Eu sei!
- É claro que tenho planos. Vou fazer o que você fizer.
- Bem... Então aí complica.
- Por quê?
- Meus pais... Eu passo todo Natal na casa deles. Não sei se eu poderia dessa vez, contigo aqui.
- Mas por quê? Você pode ir, se quiser. Não se preocupe comigo.
- Eu gostaria que tu fosses comigo, essa é a verdade. Mas acho que meus pais estranhariam. Seria estranho, não seria? Contar isso para eles... Bem, fico imaginando quantos anos tu tens.
- E que isso tem a ver com a conversa que estamos tendo?
- Ah, teus olhos dizem que deves ter uns trinta. Não vou chegar em casa toda saltitante e, do nada, apresentar um namorado de trinta anos. Cairia mal. Também não posso esclarecer todo o potencial de bandido que tem o seu histórico recente. Então o jeito é ficarmos por aqui.
- Isso não me parece bem.
- Ei, eu mando aqui. Sou eu quem ainda está com a memória legal, esqueceu? Quem pode se lembrar do próprio nome faz as regras.
- Ok. Você manda. E o que vai dizer pra eles?
- Eu me viro. Gostas de peru?
Ele fuzilou-me com os olhos, mas riu.
- É o que vamos descobrir.

CASA, AMOR E GASOLINA (parte II)

Nossa véspera de Natal juntos, apesar de tudo, foi especial. Eu tinha montado a minha árvore ainda no mês de novembro, e quando o dia 24 enfim chegou tudo já estava pronto. Bastou colocar os presentes sob a árvore e comprar os ingredientes para a ceia. Tudo sairia delicioso, graças aos segredos culinários legados a mim pela minha vó. Eu faria daquele o melhor Natal para ele.
O que não era imediatamente tão difícil, levando em conta a falta de concorrência graças a sua perda de memória.
- Oi, cheguei.
- Oi... – ele veio mancando da cozinha, enquanto segurava o braço na tipoia. Começara a se movimentar melhor pela casa e já fazia pequenas tarefas.
- Tudo bem?
- Tudo. Deixa-me ajudar você com essas sacolas... Só as mais leves. Não quero me estripar.
Ele parecia estar escondendo alguma coisa. Posicionara o corpo bem na minha frente, de um modo um tanto estranho e desengonçado, ficando entre mim e a árvore de Natal perto da escada, e tapando meu campo de visão. Arrastou-me para a cozinha.
- O que você trouxe?
- Tira a mão daí! Caramba... Comes que nem um adolescente.
- Talvez eu seja.
- Ha, ha. Essa é boa. Olha essa cara. Tens até pé-de-galinha!
- Isso é porque eu sorrio muito, você não reparou? E você também não é nenhuma jovenzinha.
Eu nem respondi, pois já estava concentrada em outras coisas. De repente, perguntei, enquanto ele guardava – não com pouco esforço – o peru no freezer.
- O que você tá escondendo? E, ah, deixe isso do lado de fora. Vamos cozinhar agora.
- Algo mais, chef?
- O que está escondendo? Vamos, diga. Não quero ter que usar seu codinome.
Ficamos acordados que, enquanto ele não lembrasse o próprio nome, eu o chamaria de MacGyver.
Quer dizer, eu decidira assim. Havia pensado isso logo no primeiro dia, quando voltamos do hospital, pelo simples motivo de que ninguém sobreviveria a tantas balas e tantos traumas se não fosse, pelo menos, algum pseudo hiper-agente digno de filme.
Ele não teve como reclamar. Na verdade, nem contestou: não sabia mesmo quem era MacGyver.
- De onde você tirou que eu estou escondendo alguma coisa?
- Dá para perceber. São esses teus olhos que te entregam.
Ele me ignorou.
- O que eu posso fazer?
- Comece lavando as frutas.
Ele fez uma careta.
- E tente não morrer com isso.
No mais, a festa foi boa. Meus pais ligaram à meia-noite e tudo correu bem com a troca de felicitações. Sem muitas perguntas, apenas o contentamento de que a filha estava crescendo. Depois das doze badaladas, tivemos a ceia e, quando satisfeito e certo de que gostava mesmo de peru, tivemos a troca de presentes.
Até onde eu sabia, não seria uma troca. Apenas eu tinha saído e comprado algumas quinquilharias para dar a ele. Inclusive um rolo de gaze, numa espécie de piadinha de mau-gosto. Mas a surpresa foi grande quando descobri um pacote suspeito na árvore.
- O que é isso? – apontei para a caixinha e apanhei-a.
- Vamos, abra. É um presente meu pra você.
Deixei cair o queixo.
- Como assim? Quando? Tu...?
- É, eu comprei. Na verdade, não eu. O seu vizinho. Eu pedi que ele me fizesse esse pequeno favor. É um senhor muito simpático, por sinal, mas não pouco curioso. Enfim, contornado esse problema... Ah, claro. O dinheiro. Foi tudo pago com muita dignidade, ouviu? Eu gastei aquela grana que nós achamos no bolso da minha calça jeans, na noite em que vim bater aqui, ensanguentado.
- Eu lembro. Era uma boa grana.
- Mas o presente não é nem metade do que eu queria dar. O que você fez aqui comigo foi... Realmente... Algo estranho. Duvido que alguém mais fizesse. Na certa você pensou que eu fosse um bandido ou sei lá, mas eu não... Eu quero muito acreditar que não sou. E que esse dinheiro comigo era realmente meu. E com ele eu posso fazer o que quiser. E dar um presente a você. E agradecer pelo que fez até aqui. As roupas, a comida, a casa... Eu... Obrigado.
- Claro.
Não quis dizer mais nada. Estava extasiada, surpresa, atônita. Abracei-o.
- E agora é a parte em que você abre.
- Ah, desculpe! – eu ri. – Ainda estou meio pasma.
- Não fique. Até onde eu me lembro, as pessoas costumam ganhar coisas no Natal.
- Você não lembra – abri a caixa.
Era um colar, lindo, lindo. Uma corrente dourada simples contornada por pedrinhas coloridas. Talvez semipreciosas. O dinheiro dele daria para algo assim – mas só se gasto completamente.
- Gostou?
- É lindo... Mas acho que significa que tu gastaste todo o teu dinheiro e que eu não vou te ver longe daqui tão cedo.
Ele viu.
- Venha cá. Vamos experimentar nesse pescoço de ganso.
- Abusado.
Aproximei-me e, com delicadeza, ele apanhou o colar com a mão esquerda e colocou-o em meu pescoço de frente para mim, olhando-me nos olhos.
- Isso é tudo o que sabes fazer? – perguntei, esperando mais alguma reação quando ele apenas ficou olhando, distraído e concentrado, para o meu pescoço. Então me encarou e indicou o braço direito.
- Acredito que você vá ter que se virar com o fecho.
Revirei os olhos.
- Claro. Tanta galanteria não ia dar em nada mesmo! Como sempre, eu faço o trabalho pesado.
- Eu ajudei com as frutas, não ajudei?
Eu sorri e abracei-o de novo.
- Obrigada, é lindo. MacGyver.
Ele afastou-me com uma mão e beijou-me o rosto. Ficamos num silêncio constrangido até que eu desse um jeito:
- Vamos subir. Teu ferimento deve estar doendo. Vou fazer uma massagem e então volto para arrumar tudo aqui embaixo, está bem?
- Certo. Ajuda aqui com essa perna.
Subimos e ele, antes que pudesse disfarçar, logo cedeu ao cansaço. Estava exausto, e desabou na cama.
- Seu ombro tá latejando, não é? – perguntei depois de trocar os curativos no tronco. Ele nem precisou responder. – Não falta muito pra tirar os pontos, talvez semana que vem. Agora, vamos dar um jeito nesse ombro.
Obediente e calado, ele sentou-se ereto na cama para que eu ajeitasse o travesseiro bem direitinho às suas costas. Com a intenção de massagear-lhe o ombro, ajudei-o a tirar a camisa sem mangas, passando-a pelo tórax enfaixado e pela tipoia. Ele fez uma careta.
- Tudo bem aí? – perguntei penteando o cabelo louro escuro para trás, até ver a testa.
- Tudo. E agora? – ele olhou-me.
- O quê?- sussurrei de volta, sem entender.
Ficamos em silêncio um instante.
- Bia...
- Hum?
- Eu... Nada.
Por impulso, beijei-o. Bem de leve. Só encostei meus lábios.
- Desculpa.
- Shh... Não se desculpe por uma coisa dessas.
- Tá bom.
- Mas por que fez isso?
- Juro, eu não sei.
- Talvez devêssemos tentar de novo. Talvez a gente descubra.
Então eu sorri.
- Prometo ter cuidado.
Encostei-me de leve em seu peito e beijei-o. Esbarrei algumas vezes em seu braço, me empolguei, mas ele suportou tudo estoicamente. E me abraçou como se eu fosse de vidro, como se quisesse tocar minha alma. Quando percebi, não havia mais qualquer tecido, nem um fio entre nós. Ele ofegou quando pressionei demais meu corpo contra seu tórax, então desgrudou os lábios dos meus, a mão boa subiu até meu cabelo e enrolou-se nos cachos.
- Desculpe... Eu te machuquei. Fiquei empolgada – ri sem jeito.
- Acho que não existe uma maneira simples de fazermos isso – ele puxou o ar.
Preocupada, comecei a desmontar de cima dele, para que pudesse respirar.
- Afinal de contas – comentei - não é o MacGyver.
Então ele riu, segurando o estômago para não desbocar de vez.
- Calma, calma... – puxou-me de volta. – Espere. Deixe-me pensar.
Ele então me olhou com um brilho travesso nos olhos. Como se tivesse uma ideia. E disse:
- Você sabe cavalgar?

CASA, AMOR E GASOLINA (parte III)

A manhã acordou sincera. Sem nenhuma nuvem no céu, mas fria para os padrões de Macapá. Não chovia, mas o cheiro do orvalho estava ali, em algum lugar. Havia um homem com o dobro do meu peso sob mim e aquilo não me espantou.
- Meus pés amanheceram quentes, pela primeira vez – ele murmurou em meu ouvido.
Eu ronronei em resposta.
- Acho que te amo – ele beijou-me o cabelo. – Vá preparar o meu café.
Eu ri e rolei preguiçosamente para o lado.
- Ah, sim. Aí está a verdadeira intenção. Parece que ao menos o teu instinto masculino tu não esqueceste.
- Se é instinto, não dá para esquecer - ele beijou-me a nuca, sobre o colar delicado que ainda estava ali.
- O que acha de uma voltinha ali no deque, enquanto eu cozinho? Prometo subir rápido pra te chamar. E trago o teu bendito café.
- Tudo bem, eu vou – ele sorriu e custou a levantar-se, olhando-me esparramada na estreita cama. – Porque não quero nem ver sua cara quando lembrar a bagunça que está lá embaixo – ele fugiu para o deque.
Quando subi de novo com uma xícara na mão, encontrei-o debruçado, olhando para a rua molhada da noite. A vizinhança estava tranquila. Com exceção de um homem que passava àquela hora, tão cedo, bem em frente da casa com uma garrafa de coca-cola na mão, dessas de 2 litros, com um Papai Noel e enfeites natalinos ilustrando o rótulo, e cheia de um líquido amarelado e denso. Seu carro estava mais a frente, provavelmente no prego.
- O que estás vendo? – perguntei ao ver seu olhar fixo lá embaixo.
- Eu... Eu acho...
- Ei, o que foi? – olhei de novo para o homem que passava na rua, procurando o motivo para o espanto do meu desconhecido. – É só gasolina. Os carros precisam disso para sobreviver.
Ele riu. Quase.
- Eu sei. Lembro a parte técnica da coisa. Eu só não...
Franziu o cenho e eu me espantei. Ele começou a debruçar-se sobre si mesmo e oscilou, para frente e pra trás.
- Ai, não... Estás sentindo dor? – aquele homem nu no meu deque prestes a desmaiar com um estrondo e acordar toda a vizinhança não era nada bom. - Ei! Fala comigo! – eu bati em suas costas, longe do ombro fraturado.
- Beatriz...
Então ele riu e tentou segurar meu rosto com a mão. Estava estranhamente grogue, nauseado e esfuziante.
- Foi um acidente. Um acidente de carro. Eu não...
- Calma, senta aqui. Senta.
- Não quero sentar. Não posso sentar. Eu estava vindo de Santana. Passei pela penitenciária. Havia um tiroteio. Houve um tiroteio. Uma fuga. Estavam fugindo de lá. E eu passei bem em frente, bem na hora.
- Péssima hora, péssimo lugar.
- Shh... – ele calou-me com um beijo, aos risos. Seus olhos não estavam bem. Ele parecia zonzo. – Eu sei, eu sei, Bia. Eu sei. Eu não lembro bem quem eu sou, mas eu sei... Sei como aconteceu... Eu estava lá. Levei os tiros, no meio do fogo cruzado. Um carro, na correria, bateu na porta do passageiro do meu carro e me arrastou pela estrada. Talvez até o Cabralzinho, não sei. Demorou a chegar socorro. Não chegou ninguém. A polícia não parou. O carro, o outro carro que tinha me batido, entrou no meu pela porta do carona e esmagou meu braço direito. Eu me estraçalhei mais ainda até conseguir sair. Eu lembro o cheiro da gasolina. Podia explodir, então eu tinha que sair e me afastar o máximo que pudesse. Era um Honda Civic preto. Eu lembro.
- Calma...
- Eu saí do carro, me arrastei para longe. Perdi a consciência. Acordei. Me arrastei mais um pouco e então cheguei aqui. Na sua porta. Eu...
Foi nessa hora. Ele virou-se tanto para frente que oscilou de vez. Então seu corpo dobrou-se até que ele estava no ar, em queda livre até embaixo. Gritei e debrucei-me a tempo de ver o corpo nu passar arrastando pelo deque que se transformava na cobertura do alpendre e aí cair bem no jardim de frente para a entrada da casa. Estava morto.
Desatei desesperada a correr pela escada, envolta no lençol que apanhei às pressas, e deixei-me cair sobre ele lá fora. Chorei em suas costas. Estava de bruços. Tive que vira-lo, desesperada, para olhar seu rosto.
Ele abriu os olhos.
- Bia... – tocou-me a bochecha. Eu gritei engolfada em lágrimas, entre alívio e estupefação.
- Meu Deus! Meu Deus!
Ele abriu mais os olhos desfocados.
- Max. Max é meu nome. E eu não sou bandido... Sou só a porcaria de um engenheiro! - ele ri.
Então eu olhei fundo naqueles olhos cinza e ri também, e funguei, maldito susto!, e ri mais. E debrucei-me de vez sobre ele, enchi-o de beijos, e em meio ao riso, foi inevitável perguntar:
- Tu não morre nunca?


sábado, 30 de outubro de 2010

AMOR DE TRAVESSEIRO

Um amor de anedota, um amor de folhetim, um amor de vanguarda, um amor de verão...? Nada disso se compara a um "amor de travesseiro". Amor inexplicável, que surge do mistério, do mistério de cada dia, e cada dia um dia-a-dia.
Quando eu digo que te amo, é porque te amo mesmo. No travesseiro, na cama, fora dele, em qualquer lugar. E seu eu não digo com palavras, digo com olhos, então me olhe.
Às vezes, eu digo mesmo, tanta besteira, tanta coisa pouca... Mas o que eu quero? Te quero, ora! E quando eu digo que não quero nada, quando eu digo que pra mim já chega, quando eu digo que estamos por um fio, que eu não quero conversar, que eu não quero brigar, só o que que eu quero dizer é: "Me abraça".
O meu amor de travesseiro é você. Quem mais? Um amor que eu ainda nem descobri de todo.
Chego em casa exausta, os pés latejam, os olhos ardem. Você me espera. Na cama? Talvez. Deitado no sofá, a TV ligada, a cochilar, um locutor de esporte - um jogo qualquer - a falar de coisas que eu não entendo, mas que você curte e entenderia, se nesse momento não estivesse pescando no sétimo sono.
Eu me aproximo. Talvez um tabefe. Um tabefe leve, carinhoso. Não, poderia ser mal interpretado. E só o que eu quero... É pular, me rasgar, me debruçar inteira, me expor, me mostrar, e dizer: "Vê só? Essa sou eu. E ainda continuo apaixonada por você desde aquele primeiro dia".
Então uma canção tira sarro de mim no rádio. "If you fall for me...". Eu sorrio. Algum rádio distante, não, um iPod conectado, a vizinha, a pré-adolescente, nada de rádio, os tempos mudaram. E eu sorrindo, parada na sala, a te contemplar, sabendo quão boboca é ser durona e estar apaixonada.
Amando um cara com quem você está há... Há quanto tempo? Quando se casaram? Ontem, hoje, dois anos, dez anos atrás? Nem sei, não sei bem. Sei que esse momento eu não troco. Porque é tão difícil separar um em que eu não esteja gritando com você... E eu odeio fazer isso... Gritar, brigar contigo, te xingar e te abraçar, para então ir dormir nos teus braços. Pois é. Suspiro. "Se você ficar caidinha por mim..." Ah, meu querido, eu já estou.
Eu me ajoelho. Eu deixo a pasta logo ao lado, ajoelhada também, no chão. E te olho. E meus olhos se enchem de uma água misteriosa, que coisa mais engraçada! Eu nunca choro. E quero tanto dizer que te amo, eu... Você acorda.
E sussurra bem baixinho um oi, um sorriso, mas a voz é rouca, áspera de sono. E sua mão, como se tivesse nascido ali, como se nunca tivesse saído, sobe pelo ar e pousa no meu rosto, na minha bochecha esquerda, até que eu incline a cabeça assim de leve, a fim de repousar nos teus dedos. O que é, hein? O que conseguimos, o que construímos, como sobrevivemos sem que eu destruísse você? É que às vezes sou tão má. E tenho medo de não ser capaz de contar a novidade. Será que ele vai gostar?
Ele me beija. Percebe que estou mexida, mas não comenta. Sempre tão doce, tão calado, tão calmo e tranquilo. Um cara tranquilo. O que será que faz comigo? Sua mão descobre a blusa e me descobre. Apalpa o seio. Aprofunda o beijo. Me puxa para cima, sobre ele, no sofá. Rostinhos colados, tenho quase medo. Ainda não superei essa fase?
Ele me pergunta se estou bem, subindo a mão pela minha coxa. Estou, é claro, estou, estou bem, como não? O medo é daquela outra parte, aquela em que fico em dúvida se você ainda me quer ou não. Se vai aguentar, se vai me aguentar até o fim. Porque sou tão má, tão maldosa, tão egoísta, tão cheia de coisas. Explodo com facilidade, grito, esperneio, chantagista, e depois jogo tudo em você. Mas que coisa, cara, o que é que você fez comigo? Me transformou numa molenga e depois atira a minha saia de linho fino num sofá à meia-luz, seis horas da tarde de uma tarde de locutor de esporte.
Te amo. Te amo mesmo. Me desculpe por tudo o que falei, por tudo o que disse, por tudo o que gritei.
Aquela noite, eu não consigo esquecer. Eu estava tão brava com você, brava comigo, por não ser mais delicada, por sempre te espezinhar, e por te fazer fazer um esforço duplo, o meu e o seu, pra esse casamento dar certo. E então eu estava chorando, chorando baixinho, porque odeio chorar, odeio ser fraca, de costas para você. E não suportando mais aquelas duas horas que passamos de mal, de repente você me busca debaixo do edredom, sobe no meu travesseiro - sua cabeça ocupa todo o espaço! - e então eu reclamo, rindo, rindo do meu amor de travesseiro, que me pede desculpa até quando eu sou a culpada, quando causei a briga e não sei fazer mais nada. E ele me pega, me olha assim tão fundo, diz que o meu nariz está gelado, mas que ele não se importa, e me vê chorar. E eu ando tão triste, tão confusa. Agora, calma, ele me pergunta o porquê. Não quero dizer, não tenho certeza. Ele me abraça, me aconchega, me faz um cafuné, me enche de desejo. E então eu percebo que não quero outra coisa além de um amor de travesseiro.
Talvez um amor de travesseirinho.
E meus olhos na sala se enchem de água.
- O que foi, amor?
- Estou chorando.
- Eu sei. Percebi. Mas por que é?
- Porque você me suporta.
Ele ri.
- Quero te contar uma coisa.
E me beija e estica a alça do sutiã.
- Vamos em frente.
Eu respiro fundo. Quero arrancar os pulmões. É ele, o meu prometido, o meu comedor de sapos, um verdadeiro príncipe. Eu sou rã.
Então eu solto o ar lentamente. Olho nos olhos dele, que tira uma lágrima sacana que teima em rasgar o momento. E uma trilha de fogo daqueles olhos castanhos. E é tudo o que eu preciso.
- Estou grávida.
E ele me olha. E explode de alegria. E chora e ri, e me põe de lado, esquecendo por um momento que sem mim não há cria. Mas então me pega de novo, de pé, me gira, e depois me olha preocupado, se perguntando se me chacoalhar pode ser ruim para o bebê. E como é que pode? Eu demorei duas semanas para perceber, mais duas para entender, três dias para confirmar, e mais dois para me acostumar. E ele age assim, em menos de dez segundos.
Ah, o meu amor... Um amor de travesseiro. Que à noite, de madrugada, quando acha que eu estou dormindo, percorre minhas costas com os dedos, beija meu queixo, e me puxa pra perto.
Um amor de travesseiro.
Agora são dois.