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sexta-feira, 17 de maio de 2013

A GRIPE QUE NUNCA PASSOU

Acho que, quando eu era pequena, peguei uma gripe e ela nunca sarou. Eu tenho essa moleza de espírito que me faz arrastar pelos dias a fio, sem fazer nada. Deixo para o último segundo todas as coisas, porque a cama me chama. O travesseiro, a preguiça. Um eterno protelar de quem tem o corpo todo dengoso de gripe...
Os meus olhos lacrimejam, o meu nariz escorre, e os ossos do crânio, os dentes, todos doem. É um estado permanente. Essa vontade passiva de morrer para o mundo, essa preguiça de viver. Nada muito definitivo, apenas parado, suspenso. Poderia ser verme, mas não, é gripe, gripe de alma, já diagnostiquei.
E quando o tempo piora, cai chuva, faz sol brabo, o meu estado, como fica? Assolado. Arrasado. Garganta cortada, inflamada, gosto amargo na boca, os olhos vazios, meio melados, molhados, a coriza do coração e o tapamento dos ouvidos, enquanto a tosse literária não me larga...
É gripe, na certa. É gripe.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

AS COISAS QUE EU DEVERIA ESTAR FAZENDO

Eu realmente deveria atualizar mais meu blog, e é o que estou fazendo agora, mas só porque, na verdade, eu deveria estar estudando, mas como estudar é a última coisa que eu faço sempre, a atualização do blog subiu na lista de prioridades e deixou de ser a coisa número um na lista de coisas não feitas que eu deveria estar fazendo. Mas não. Calma. Está confuso. A questão é: eu deveria estar fazendo uma porção de coisas, e como atualizar o blog deixou de ser uma delas, é ela que estou fazendo, porque normalmente deixo para fazer as coisas que já não deveria. Hunf.
Eu deveria estar melhorando a minha postura e deveria estar domando o meu psicológico. Eu deveria estar me autoanalisando e vendo o que precisa ser jogado fora. Eu deveria ter menos autocomiseração e chorar menos e agir mais. Eu deveria parar de ser tão íntima em domínios tão públicos. Eu deveria parar de fantasiar e ter mais foco. Eu deveria ter uma porção de amigos e saber cuidar bem deles, para não perder assim como já perdi uma tonelada de tantos outros. Eu deveria.
Eu deveria ter mais amor-próprio e melhorar a autoestima, eu deveria, porque conviver com pessoas inseguras é um troço muito chato. Eu deveria ser mais atenciosa com quem gosta de mim e me tolera, e deveria ser menos tolerante com quem me desaponta, se desponta de mim e me enerva. Eu deveria ser mais afável e menos bipolar - o problema é que eu não sei ser nenhum dos dois, mas deveria.
Eu deveria desaprender a alimentar paixões neoplatônicas, eu deveria. Eu deveria desistir logo dos sonhos literários, se ficar provado de uma vez por todas que não tenho talento. Eu deveria comer menos, beber menos refrigerante, beber mais água, encolher a barriga. Eu deveria condicionar meu próprio cérebro a não ter mais tantos pensamentos fixos - me livrar desses pensamentos fixos deveria ser minha fixação primordial. Eu deveria.
Eu deveria ouvir mais minha própria voz interna, porque ela sempre sabe quando eu tô errada. Eu deveria. Eu deveria ser menos dependente do alheio, eu deveria. Eu deveria reaprender a me alegrar com a minha melancolia, e reaprender a não mais ligar se estou só - o fato é que estamos todos muito sós e abandonados. Eu deveria. Não mais chorar por nada disso. Já disse.
Eu deveria não rir tanto do que os outros dizem, mas é que de tudo acho graça. Eu deveria não. Eu deveria lembrar mais do que já consegui, pra gostar mais de mim, mas essas conquistas não significam nada. Eu deveria aprender a ser mais crítica. Aprimorar meus argumentos. Eu deveria sorrir mais e rir menos. Eu deveria.
Eu deveria encontrar um modo de ficar mais tempo em paz. Eu deveria terminar as aulas de violão e sair aprendendo alguma coisa. Eu deveria ter trazido o violão quando pude. Ou não me importar sobremaneira com isso. Eu deveria não migalhar. Eu deveria ter dito, naquele dia, no fim da aula: "Não quero". Mas como eu poderia ter previsto? E daquela outra vez, ter dito não também. Eu deveria ter voltado todo o caminho e ter dito.
Eu deveria estar estudando, porque amanhã tem prova. Eu deveria. Mas faço?

sexta-feira, 20 de julho de 2012

QUEM SOU EU

Eu sou
um sinal na bochecha.
Eu sou
uma dentição mal-feita.
Eu sou
uma cabeleira rebelde.
Eu sou
pele peluda.
Eu sou
resquícios de textos.
Eu sou
um nariz de tubérculo.
Eu sou
dois olhos manchados.
Eu sou
manto estriado.
Eu sou
pés chatos.
Eu sou
o que fazes de mim.
Quando, na verdade,
não sou.


quinta-feira, 10 de maio de 2012

MINHA PINTA

Simplesmente odeio esta pinta. Odeio. Ela sempre me passa a sensação de que não deveria estar aqui, tão folgadamente alinhada em meio a meus poros, na bochecha esquerda.
Querendo ou não, a pessoa que tem uma pinta é diferente das demais. Vive como se não a tivesse, mas tem. A todo momento, o subconsciente do indivíduo detentor da pinta faz com que esse pobre inocente acredite que a tal da pinta não está ali, esquecendo-a satisfatoriamente. No entanto, ela está. E é só cruzar com um espelho, que a verdade outra vez se desnuda: Eis a pinta! Austera, invasora, caótica, assimétrica.
Viver portando uma pinta não é tarefa fácil. Quem as possui, sim, vive, mas nem sempre se conforma ou tranquiliza. Eu me conformo, algumas vezes, quando deixo de achar que a pintinha tem alguma relevância em minha existência - meu fracasso ou meu sucesso... Mas, na maior parte do tempo, ei-la, me incomodando!
Eu tiraria esta pinta. Tiraria mesmo. Queria ter um rosto uniforme. Não gosto que a genética ou o acaso das pintas imponha-me algo que não deveria estar aqui. De fato, todo o resto se comporta, ainda que nem sempre belo: nariz grande tem sua razão de ser, olhos meio tristonhos, segundo minha mãe, também têm sua razão de ser, queixo fino tem sua razão de ser, testa larga tem sua razão de ser, dentes de ratinho têm sua razão de ser... Mas, pinta?! Não!
No entanto, nos momentos em que a dita cuja me consola, seja lá por qual motivo, quando somos só eu e ela... Não sei...
Nesses momentos, chego a pensar que esta pinta faz de mim um ser não puramente diferente, mas também especial. Chego a cogitar hipóteses tão belas para o futuro, em que passarei pela rua, e todos apontarão, deslumbrados: "Olha!... É a garota da pinta!...". E então esta pinta será até maior do que eu. E todos me conhecerão como "a garota da pinta no rosto", "a exótica garota da pinta no rosto", e não mais eu terei uma triste pinta, e sim a pinta é que me terá em seu rosto...
E o devaneio logo passa, e volto a odiá-la. Mas que seria belo, ah!, isso seria...


sábado, 30 de outubro de 2010

OS SEM-LICENÇA

Outro dia, na escola, meu professor falou, dentre outras desmotivacionais besteiras simplórias: [...] "É que os poetas dispõem de uma coisa que nós não temos - licença poética".
Opa! Espera aí. E os outros, como é que ficam? Os que não são escritores, não são compositores, não são poetas - ou poetisas, que seja -, como é que fazem? Como é que eu fico?
Eu preferia que naquele momento você fosse engolido por um peixe, professor.
Como é que eu fico? O que é que eu vou fazer da minha vida se eu, que não sou ninguém, não tiver a minha licencinha, a minha licençona poética? Mas nãããão!
Eu também preciso viver, preciso pensar, preciso escrever livremente. Eu me habituei a isso, campeão. Então não tire isso de mim.
Mas que coisa. Fico até agora me perguntando como alguém pode saber (ele diz) alemão, a língua aglutinadora, e ainda assim vir dizer que o pobre povo, ordinário (no elementar sentido de "simples"), a massa sonhadora e aspirante, não pode desfrutar da licença poética?
E só de graça, sabe o que eu fiz? Me rebelei, é isso mesmo. Estamos de mal até segunda ordem, eu não fiz mesmo o seu trabalho, e espero que você nao leia isso aqui.
Ah, mas que saudades daquele antigo professor que tanto nos motivou! Volta... Eu clamo.
Triste fim para o atual professor de português. Engolido por um peixe. O peixe da cegueira.
Até reconhecer que o meu eu-lírico também pode usufruir de umas doses de anarquismo literário.
Viva a literatura desmordaçada!