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sábado, 28 de setembro de 2013

DE COMO DESPREZO GENTE FELIZ QUE SE CONTENTA E GENTE INFELIZ QUE NÃO SE CONTENTA NUNCA

Se o mundo fosse dividido apenas em pessoas felizes e infelizes, sem gradações, e sem mentiras, e falsos enganos, de que lado você estaria? E como pode ter tanta certeza? O que é felicidade? O que é tristeza? Não seria a certeza da felicidade uma negação suprema da dor? E não estaria você, que sofre, simplesmente acostumado com sua dor, a ponto de se sentir perfeitamente feliz e satisfeito com ela? Acostuma-se. Felicidade e tristeza, afinal, são questões de costume.

sábado, 16 de março de 2013

COMO DIZER...?

Como dizer para aquele seu amigo ou conhecido que, no inglês, o adjetivo vem antes do substantivo? Que você quer de volta aquele livro que emprestou há mais de um ano? Que os acentos não existem por acaso, e devem ser colocados nas palavras dos trabalhos que vocês fizerem juntos? Que o personagem que ele mais gosta vai morrer antes do final da série/livro e, por isso, é melhor não se afeiçoar tanto? Que ouvir sertanejo não o promove a uma categoria de seres humanos legais? Que usar os cortes de cabelo do Neymar não faz dele um grande jogador de futebol-pegador-ricaço? Que o perfume que usa dá náuseas? Que mastigar de boca aberta e fazendo barulho ainda não está na moda? Que batom azul assusta? Que você prefere pizza sem cebola? Que não quer ganhar um ovo de páscoa de Charge, porque não gosta de chocolate com amendoim? Que não se pronuncia "Keiti" Richards? Que as montagens fotográficas que ele faz são toscas? Que ninguém se interessa por seu coração partido semanalmente? Que ninguém quer saber onde ele está nem o que anda comendo? Que ninguém liga para o fato de se sentir feliz porque hoje é sábado? Que é chato - e ilógico -  reclamar de dor de cabeça e continuar no Facebook? Que Johnny Depp não é uma espécie de messias? Que elogiar a fotografia de um filme não faz dele um crítico de cinema? Que ele não sabe usar as palavras "paradigma", "estereótipo", "paradoxo" e "clichê" nos contextos certos? Que dor de corno nas redes sociais é mais repelente que ao vivo? Que ele não tem autoridade para corrigir a gramática de ninguém? Que ele superestima o consumo de Doritos? Que compartilhar fotos de cachorrinhos e bebês desconhecidos não o torna cativante? Que seu gosto musical o está reduzindo a uma ameba? Que ele coloca vírgulas onde não deveria? Que ser poeta de Facebook é mais ridículo que lírico? Que ninguém está dando a mínima para o seu aumento de bíceps? Que exibir glúteos e glândulas mamárias em fotos não atrai pensamentos saudáveis? Que ele não é bom em inventar piadas? Que não vai conseguir passar em Medicina? Que não desenha nem de perto "bem"? Que jamais será um escritor? Que seu francês é sofrível? Que aquela foi uma curtida irônica de fulano? Que ter pintado o cabelo foi um erro? Que gostar de velha MPB ou derivados não o faz mais adulto ou intelectual? Que ter dreads não o promove a nenhuma categoria de almejada idiossincrasia? Que ele não precisa baixar toda a discografia e decorar todos os nomes dos integrantes e seus parentes para se tornar fã de uma banda? Que ninguém jamais curtirá seus vídeos no YouTube gravados com a câmera do Motorola V3 e, se depender disso, jamais será um grande vlogger? Que "A batalha do apocalipse" não é "o melhor livro do mundo"? Que tirar fotos de boca torta é quase tão traumatizante quanto com a língua de fora? Que dá vergonha ao vê-lo citar Caio Fernando Abreu ou Paulo Coelho? Que andar com uma garrafinha de água pra cima e pra baixo é broxante?
Como? Como?
Faça o seguinte: mostre esta postagem a ele; cole no mural, faça o link sutilmente escorregar em alguma rede social, ou abra a janela no notebook e saia de fininho, e deixe o resto por conta do cidadão... E se, ao final, não resultar... Bem, arranje novos amigos.

domingo, 10 de março de 2013

O GRANDE GATSBY + UP CLOSE AND PERSONAL

Terminei de ler "O grande Gatsby" (que, por sinal, gostei muito, apesar de a leitura ter começado um tanto arrastada), e fiquei com aquele gostinho na boca e na mente... Imediatamente após, fui fuçar sobre as versões cinematográficas. Nessas andanças pela internet, descobri que vão levá-lo de novo às telas agora em 2013, parece que em abril, com nosso imortal Tobey Homem-Aranha no papel de Nick, o narrador do livro, e ninguém menos que DiCaprio como o grande Gatsby. Parece-me que a Daisy será interpretada pela atriz que fez a irmã de Michael Fassbender em "Shame". O trailer é promissor.
Tudo isso só aguçou ainda mais meu interesse pela obra, então fui assistir à versão de "O grande Gatsby" de 1974, em que Robert Redford interpreta o personagem principal, e Mia Farrow, a mocinha. Não gostei muito da performance dela. Apesar de o livro ter seus personagens construídos com aquele teor performático, como caricaturas da própria época, em que os diálogos muitas vezes parecem surreais, impenetráveis, ou absurdamente frívolos - características literárias admiráveis, pois décadas depois ainda conseguimos saborear nesses diálogos o gosto apurado da ironia e mordacidade com que Fitzgerald tratou sua época, e o próprio estilo de vida que, mesmo criticando tão refinadamente, ele e a esposa perseguiram em toda a vida -, não gostei absolutamente da interpretação de Mia Farrow.
Poderia desenrolar um milhão de argumentos para atestar o que estou dizendo, mas acho que o que mais me aporrinhou foi o fato de ela não transmitir em nada uma das características mais marcantes de Daisy Buchanan: a voz. Aquela voz que, nas palavras dos próprios personagens, estava cheia de dinheiro. E, em outras passagens, uma voz sedutora, encantatória, para não dizer etérea. Enfim, uma voz com algo especial, uma entonação mais rouca, pausada, ou suave... Talvez como a voz da atriz que interpretou Jordan, enquanto que o timbre de Mia Farrow só me fazia pensar: "Cale a bendita boca!". Ela soava estridente e artificial sempre (como é possível?!), e talvez fosse a intenção, mas desvirtuar o maior traço da personagem do livro assim não me agradou em nada. Eu queria uma voz que me fizesse entender um pouco dessa "magia" que pairava ao redor de Daisy, e não simplesmente a voz de alguém que mal pode ser ouvida por seres humanos. Nada contra a Mia, que, ironia das ironias, tem uma voz doce e suave em todos os outros filmes. Ah, sei lá... Não sou graduada em vozes.
Contudo, em compensação, eu não poderia pensar em um melhor ator para encarnar Nick Carraway. E preciso dizer que me apaixonei por Nick? Tanto em sua exacerbada condescendência, o que muitas vezes o conduziu à omissão e, eventualmente, ao erro (mas ele estava justificado devidamente desde o início, ao afirmar que era muito cauteloso ao julgar as pessoas, preferindo dar seu voto de confiança a qualquer um, indistintamente, até as últimas consequências, esperando pelo momento quando enfim sua longa paciência se esgotaria e sua estima fosse perdida para sempre), quanto em sua extremada lealdade. Gostei de tudo a respeito dele, até do que não deveria inspirar paixão. Tanto o personagem literário, em sua essência invisível, mas bem palpável na página do livro, quanto do personagem na tela, andando, falando, pensando, bebendo. Impressionou-me ainda a precisão com que imaginei um Nick Carraway muito semelhante ao ator da versão de 1974, com a diferença dos cabelos, que em minha mente eram um pouco mais claros. Enfim, tolices de leitor.
Voltando ao próprio Gatsby. Após ver o filme, me senti inspirada e inclinada a caçar um pouco mais de Redford. Tudo o que eu já tinha visto dele se reduzia muito provavelmente a três títulos: "Nosso amor de ontem", "Proposta indecente" e "Butch Cassidy & The Sundance Kid". E como eu estava muito impregnada do surrealismo apavorante de David Lynch, e outros filmes ditos "mais sérios", "mais profundos", pensei em pescar por aí algum filme do Robert Redford em que ele estivesse em pele de galã e pronto para me arrancar suspiros. Acho este homem tão bonito - e não sou muito de admirar belezas óbvias, vou mais pela via do "é charmoso em sua estranheza", mas abro exceção ao Redford -, que chega a me dar até vontades de chorar. Pois então, eu buscava algo dele que fosse um meio-termo entre uma comédia-romântica e um filme profundo, que me fizesse sonhar e refletir, mas sem me jogar no abismo dos contos de fada, ou no outro abismo do drama e das depressões suicidas.
Fui ao Filmow (rede social que, por sinal, me faz mais feliz e satisfeita que todas as outras, quase se equiparando ao finado Orkut) e, olhando pôster por pôster da filmografia do Redford, achei este título, escrito sobre uma linda cena azulada: "Up close and personal". Achei promissor. Lancei-me ao desafio...
... Não me decepcionei em nada!!! E como as demandas para esse filme não estavam tão altas assim, meu horizonte de expectativa foi superado com maestria! E adivinhem quem que o personagem do grande Redford cita numa das passagens do filme? Scott Fitzgerald! Scott Fitzgerald, sim, e sua máxima recorrente sobre a voz que soa como dinheiro!... Por sinal, também já citada aqui.
Era o que eu estava precisando, esse filme... Não muito bobo, mas também não absurdamente sério e pretensioso, filme para entrar em minha humilde lista dos favoritos e ocupar minha mente com uma linda história persistente. Gostei bastante. Normalmente não me cativa a Michelle Pfeiffer, mas achei-a ótima nesse filme. Agora são dois que me aprazem: Esse e "Nunca é tarde para amar", com meu querido Paul Rudd.
Enfim, tudo isso para dizer que tomei uma overdose de Robert Redford, e morreria feliz.

quinta-feira, 7 de março de 2013

OS QUE FUNCIONAM EM OUTRA FREQUÊNCIA

Me intriga, e talvez também me assuste, essa coisa das pessoas que funcionam em outra frequência. Tomando por padrão o regular, tomando por comum o frequente, o que eu vejo? Minhas amigas tendo bebês. Não sei se é idade suficiente, mas, não, talvez já não seja essa velha questão de idade (o ponto é que eu perdi a noção de adolescência e juventude depois dos quinze, já não sei quão jovem - ou quão velho - é ter 19/20 anos). Esqueçamos a idade. É mais sobre lidar com esse fato de pessoas tão próximas a você estarem fazendo novas pessoas dentro delas... Parece clichê, mas se torna curioso e levemente surreal quando se prova tête-à-tête: as crianças cresceram e agora estão botando no mundo outras crianças.
Contudo, não diz respeito somente à maternidade - prematura ou não, a questão é: inesperada; você não viu isso chegar -, mas a outros fatores da vida. Você agora é grande o bastante para ver pessoas casarem. Grande o bastante para ver pessoas morrerem. Grande o bastante para ver alguns de seus ídolos - e nem precisa necessariamente ser um de seus ídolos, basta alguém que você considerava imorrível ou inexpugnável, pode ser Chávez, ou até mesmo o Papa - irem embora um a um... E você vai se tornando esse ser absurdo que costumava ser seus pais: gente velha que admirava estátuas que já tinham morrido. Os seus estão morrendo agora também.
Então vem a questão da frequência diferente: você não se acostuma. Não tem jeito, você não consegue fazer o coração bater nesse mesmo ritmo - lento e suave ou forte e perigoso - que agora bate o coração dos outros que estiverem todo esse tempo com você. Seu coração não funciona mais como o deles, ou nunca funcionou. Sua mente também trabalha à parte, é mais lenta, mais profunda, demora a se acostumar. Sua alma também não sabe...
É essa a outra frequência assustadora: você ver tudo mudar ao redor enquanto permanece caçando mistérios num instante perdido depois da meia-noite, enquanto todos os outros dormem, ou simplesmente existem...

domingo, 7 de outubro de 2012

ESCRITA

Muitas vezes escrevo para cumprir tabela. Estou submersa na letargia, vaziedade ou insensibilidade do dia a dia, então grafo como um marido que só comparece para tentar aquele primogênito que nunca vem. E prossigo assim, inerte. Verbo, adverbo, adjetivo, preposiciono, conjugo, julgo, mas não transcendo.
Essa pacatez que rege a vida dos escritores fleumáticos acaba por acomodá-los também numa espécie de arrogância contente, contentada. Pensa que escreve bem, que o ofício é aquilo ali mesmo, acostuma-se à sua própria mediocridade e para de exigir mais e melhor de si, agarrando-se à falsa e tragicômica certeza de que repousa placidamente junto a grandes cânones literários. Está estático, deixou de ser extático.
Mas então vem. Vem o terremoto, a retomada do primeiro amor, o frenesi, aquele texto alheio, de outrem, impactante, atrevido, não anunciado (apesar de ser magnético desde o título). Num assalto, esse tal texto, qualquer que seja, de simplicidade, qualidade e brilhantismo invejáveis, nocauteia o escritor preguiçoso e faz com que este se veja diante da grande verdade: Não está bom. Nunca estará bom. Nunca, nunca estará bom o suficiente para se acomodar.
É paradoxal, mas essencialmente válido: Você nunca escreverá tão bem quanto poderia chegar um dia a escrever. Todavia, a ideia ajuda a impeli-lo rumo a uma busca constante, irrefreável. Não se pode deixar que a preguiça cale o talento, o empenho, a inclinação apaixonada, o polimento, o afinco.
Tem que ter suor. Exercitar o carpo. Pensar, pensar, pensar. Absorver, sorver, sorver. Remoer. Cuspir. Ler, ler, e ler. Mas não simplesmente ler... Beber do outro. Alimentar-se das possibilidades. Ler o texto estrangeiro e tumultuar-se, perguntar-se: "Como eu poderia escrever isto aqui tão bem quanto foi escrito? Eu poderia mesmo escrever assim um dia? Consigo? Puta louco, não, el(a)e é um gênio!"... E que não haja também acanhamento em reconhecer a genialidade alheia. Crescemos a cada vez que percebemos a nossa própria fragilidade, pequenez, significância titubeante. E acho que isso não se aplica somente ao mundo literário. Para todo crescer, há que se tornar pequeno.

sábado, 9 de junho de 2012

NÃO SE DESAMA DANDO UM MERO TCHAU

Porque deixar de amar não é normal...

A sabedoria musical é incrível. Ensinando um mundo com apenas um verso.
Muitas vezes, independentemente de qual canção se trate, você de repente se depara com uma verdadeira pérola da essência e experiência humana...
Penso, na verdade não só eu, afinal, é um fato conhecido por pessoas sábias e conscientes, que o amor não é essa coisa despretensiosa e à-toa que muita gente sente, julgando ser válido, como se se pudesse amar movido por forças estranhas e oscilantes, morríveis a qualquer momento. O amor não é isso, é claro que não. Não assim - descartável. Coisa aleatória e descartável. O amor não. E, de fato, deixar de amar não é normal. Porque se você escolhe amar alguém, a tendência é que seja uma atitude definitiva, não? É um paradoxo pensar num amor que acaba, que se extingue. Estamos falando de amor como tem que ser. Dificilmente alcançado, mas possível. Porque pessoas capazes de entendê-lo existem sim.
Enfim, a infinitude do amor já está contida nele mesmo. É idiotizante supor que o "produto" vem com prazo de validade. Mais triste ainda é comprá-lo vencido. A mercadoria então era falsa.
O ponto é: admirável essa sapiência musical que paira ao redor de nós e na qual poucas vezes reparamos. Como uma espécie de cérebro que maquina a lógica das palavras por trás das rimas, e que existe independente de quem as executa ou como as executa. Parece uma instituição autônoma, que planta suas profundas considerações nas músicas que bem lhe aprouver, falando a nossas almas e mentes de maneira tão deliciosamente misteriosa e bem traduzida!...

segunda-feira, 21 de maio de 2012

MULHERES, REPITAM COMIGO:

— Não mendigarei o amor de ninguém. Também não barganharei usando o amor como moeda de troca. Amarei indistintamente. Amarei como me amo. Se não me amarem de volta, azar de quem me perdeu. Ou melhor, não sou coisa para ser possuída e perdida. Então azar mesmo é de quem não soube me valorizar. Todavia, ponho-me superior a tudo isso - sentimentos são preciosos demais para que eu estrague minha própria vida chateada ante a incapacidade ou desleixo emocional de terceiros.
Não vou deixar que me classifiquem, massacrando-me, nem aceitar rótulos alheios. Meu bom-gosto ou falta dele pode até ser julgado de acordo com o que porto ou trajo, mas isso também é relativo, e o meu valor real não é medido pelo tamanho do meu salto, pela cor do meu sapato, pela cor do meu esmalte, pela cor do meu cabelo ou pela cor da minha pele. Não tenho que me sentir inferior por que alguém diz: "Prefiro as branquinhas". Não tenho que me sentir inferior por que alguém diz: "Mulheres negras têm o corpo perfeito, as outras não". O que é o corpo? Matéria que se corrói. Não tenho que me sentir inferior nem mesmo se as minhas feições todas, até as microscópicas nuanças, não correspondem ao padrão de beleza preponderante. Não faço parte d'um gado. Ainda que eu busque minha identidade dentro de uma coletividade osmótica, não sou cópia, não sou réplica, não sou arremedo de ninguém.
Não vou deixar nenhum tolo tacanho me lobotomizar, fazendo-me acreditar que a sortuda sou eu, por ele estar junto comigo. Não vou encarar a vida como uma missão a ser cumprida unicamente para se subir ao altar e afins. Porque, se assim encaro, deixo de viver no momento em que me enrolar por entre as rendas matrimoniais ou amigadas. E fim.
Também não azucrinarei ninguém com minhas próprias exigências. Se quero algo, que venha de mim, e que eu seja a primeira dar. Mas que eu não seja a única. No momento cauteloso das primeiras interações, em que eu perceber que a hipotética outra metade não é a minha exata metade, da mesma maneira doada e rendida, revejo o cenário, pulo fora de cena.
Ademais, não fingirei que sou um poço de atitude, quando tudo o que eu quero é mergulhar-me em letargia, ver filmes românticos, de coque e pantufa, sentada no sofá com meus velhos.
Não vou fingir que tenho a vida mais emocionante do mundo, que fui a todos os lugares, que vi de tudo e provei de tudo, quando na verdade ser pura e simplesmente eu é tudo o que o meu coração almeja.
Não vou me iludir, fantasiar, por exemplo, repetindo o mantra: “Todos os machos da espécie me desejam”, com a convicção ilusória de que isso é felicidade, e de que minha "presença de palco" seduz a todos, e meu espírito aventureiro não me prende a ninguém, deixando, assim, um rastro de lágrimas e cacos aos meus pés.
Tudo o que eu quero, e que vou ser, é ser eu, sem a pretensão arrogante de ser eu e mais um pouco, quando o meu eu já encerra tudo. Terei dois ou três admiradores, dentre os quais papai e/ou mamãe, nenhuma bisonha ambição de sair por aí ferindo os corações de outrem, por mais glamoroso que isso pareça através das lentes cor-de-rosa.
Vou ser uma pessoa centrada, se é o que quero ser; cuidando bem de mim também, e zelando pela vida que carrego, por mais que vozes no entorno digam que o bacana mesmo é relevar, curtir despreocupadamente, desesperadamente, pular de noite em noite, de agito em agito, de trago em trago, de espetáculo em espetáculo, de horror em horror, de vazio em vazio. Banalidade cíclica! E se eu quiser ser quadrada? E se gosto de mim muito mais quando sou quadrada? Serei quadrada e pronto!
Que se danem as expectativas não maturadas. Os lugares que eu "tenho" que ir, as pessoas que eu "tenho" que conhecer, as iguarias que eu "tenho" que provar, os olhos que eu "tenho" que capturar!
Eu não tenho que comer sushi/sashimi só porque os outros ocidentais encasquetaram de "sacralizar" o arroz empapado e o peixe cru. Não tenho que ler os livros que todo mundo lê só pelo medo de, caso não o faça, parecer burra, bitolada ou antiquada e démodé.
Eu não tenho, na verdade, a obrigação de ser nada. E se eu quiser ser um nada, que seja, essa será a minha única obrigação! O meu dever, primeiramente, é comigo. Eu sou, aqui na Terra, em termos triviais e brutos, o meu melhor amigo. Pois eu é que convivo comigo mesma todos os dias da minha vida, convivo de dentro para fora, e vejo o mundo através dos meus próprios olhos. Se eu não buscar ser eu, rapidamente me sufocarei, e me matarei, e então viver dentro de mim será insuportável, porque serei eu e milhões de outros eus intoleráveis, intragáveis, oscilantes, multipolares. Por isso mesmo é que todas as mulheres de mim, já as matei. E a cada novo dia será um novo dia, mas eu permaneço sendo eu, aqui, aprendendo de mim e dos outros, crescendo e moldando-me, no entanto portando a mesma essência do meu eu, que é única, irrepetível, e só minha. Só eu.

“Todas as belezas contêm, assim como todos os fenômenos possíveis, algo de eterno e algo de transitório, de absoluto e de particular. A beleza absoluta e eterna inexiste, ou melhor, é apenas uma abstração empobrecida na superfície geral das diferentes belezas. O elemento particular de cada beleza vem das paixões, e como temos nossas paixões particulares, temos nossa beleza particular.”
Charles Baudelaire



quarta-feira, 14 de março de 2012

EMPANTIPATIA

Só quem já provou um verdadeiro desamor à primeira vista, pode ter noção do que vem a ser a empantipatia.
"Empantipatia" é, como bem suposto, a junção de antipatia com empatia. Configura-se "empantipatia" quando antipatia e empatia coexistem de maneira inconsciente e perfeitamente instável.
Essa mescla de emoções, que na realidade consiste num só sentimento, aparece normalmente quando um indivíduo se sente pessoal e profundamente perturbado com a existência de um outro determinado indivíduo. Aí está o desamor à primeira vista, também conhecido por "nojinho", e este desamor é sempre prenúncio à tal empantipatia.
Não passa de um amor não professado. Sabe-se lá por quais medos, projeções, anseios...
Mas voltemos.
O quadro de sutil desamor logo evolui e transforma-se em antipatia bruta, nojo mortal, asco sem limites e indefinível. Você não sabe muito bem por que despreza tanto a esse seu semelhante, mas sabe unicamente que a mera pronúncia do nome da pessoa já é capaz de despertar em você as maiores crises de ira e golfadas.
Mas o que você não sabe é que toda essa antipatia, no fundo da sua mente, adormecida no mais remoto recôndito do seu coração, na verdade é a pura e simples empatia.
De fato, essa sua antipatia quase irracional pode ser perfeitamente explicada: você não se dá com determinada pessoa porque enxerga nela você mesmo. E não consegue evitar desprezá-la, para não desprezar-se, porque ela reflete você de uma maneira irrevogável. Tanto os pontos positivos, quando os negativos. Ainda que sua antipatia insista em reconhecer somente estes últimos.
Desta forma, a empantipatia ocorre quando a discórdia que você nutre para com alguém encontra explicação no fato de que você se parece com o alvo do seu desprezo muito mais do que gostaria.
Afinal, é sempre aquela história... A linha tênue do amor e ódio... Neste caso, também quem prevalece é o amor. Ou melhor, a empatia.
E tudo se dá de maneira metódica e bem familiar (você provavelmente conhece o passo-a-passo, mas de outros contextos): Você nega, mesmo depois de muito tempo desprezando aquele em quem você se projeta; em seguida, vem a raiva; após isso, a tristeza; e, por fim, a aversão se transforma em confortável aceitação.
E tudo então deságua numa curiosa amizade... Já que, apesar de enxergar no outro o seu pior, não dá para resistir a ter como melhor amigo alguém com as mesmas melhores partes de você.



sábado, 4 de fevereiro de 2012

TIRANIA DA PRESSA

Texto para a coluna Antenados, do jornal Tribuna Amapaense, em 4 de fevereiro de 2012.

É incrível como, nos dias de hoje, vivemos com pressa. E quando digo “hoje”, tenho consciência de que essa corrida maluca não se iniciou há algumas semanas ou anos, mas há décadas, talvez no momento em que começaram a modernizar os computadores e massificar seu uso, lá pelos anos 70, ou então com a internet, em 80.
Entretanto, apesar de ser possível traçar alguns pontos específicos para o surgimento – ou agravamento – da fome de velocidade ao longo da história, é certo que a pressa, assim como o esmero e a paciência, sempre existiu. O homem (sabe-se lá desde que momento remoto) convive com a pressa como quem convive com a fome e a sede. Temos pressa em evoluir, conquistar, ganhar. Temos ambição pelo progresso e, consequentemente, com essa pressa de vencer, nós somos impulsionados a inventar, inovar, ajustar as circunstâncias às nossas necessidades e caprichos.
Contudo, a diferença entre a pressa de antes e a pressa de agora é que, no passado, os meios que usávamos para alcançar certos fins consistiam em uma preparação longa, cuidadosa, atenciosa, apurada, esmerada. Por exemplo, quando Alexander Graham Bell comprou de Antonio Meucci o arquétipo de um estranho invento chamado “telefone”, Bell certamente tinha pressa em aprimorar tal engenhoca. Mas essa pressa não fez com que o cientista atropelasse a si mesmo. Pelo contrário, a pressa de Graham Bell e de muitos outros personagens da história, era caracterizada pela paciência e minúcia com que se dedicavam às pesquisas.
Hoje, o que vemos é a tecnologia da pressa aliada a um estilo de vida nada saudável e nada feliz, ao contrário do que sugere a superfície. A pressa de hoje nos impulsiona não ao progresso (afinal, tudo parece já ter sido descoberto e inventado), mas sim a uma rotina frenética, estressante. E nosso principal objetivo nessa rotina é fazer o máximo de coisas (im)possíveis num curto espaço de tempo, entupindo assim os dias de uma enormidade de tarefas e afazeres que nos prometem um ciclo de vida escravista pelos próximos trinta, quarenta anos.
Temos pressa para tudo. Antes mesmo de fabricarmos um pensamento razoável na cabeça, antes até mesmo de abrirmos os olhos, o que vem nos brindar logo de manhã é a pressa, a pressa e suas demandas. E, se tempo é dinheiro, todo mundo também tem pressa em multiplicar tal tempo, tornando-o assim uma máquina de bilionários.
Leda ilusão...
O tempo, a pressa, o dinheiro, tudo isso é mais importante do que acordar de manhã e ter consciência de si mesmo? De onde se está e das boas possibilidades que se tem? E não me venha falar em derretimento das calotas polares, crise mundial, superaquecimento da Terra... Eu não tenho pressa em fatalizar nada! Eu quero é perceber que estou viva, e não ser engolfada pela falta de tempo. Falta de tempo até para sorrir, para gargalhar, para lacrimar de alegria.
Com ganas de otimizar nosso tempo, tudo tornou-se virtual. Mas, sinceramente, isso também é um saco! Compras, contas, interação social... Tudo pela internet?! Veja essa nova geração que emerge (ou será que já emergiu, tamanha a sua pressa?). Será, certamente, uma geração mais High-Tech e informacional que a anterior. No entanto, eu me pergunto: Será mais viva, será mais “Carpe Diem”, e todo aquele papo bucólico e bacana de “aproveitar o dia”?
Não!
A partir de agora, as novas gerações ascendem com uma pressa nociva entranhada em todas as áreas da vida. Querem amadurecer na marra e, em nome desse afã, pintam a casca de rosa e amarelo, quando o interior ainda está verde. O pior é que as velhas gerações também se deixam contaminar por tal febre e aderem-na, querendo transformar a vida numa maratona sem linha de chegada.
Acho que a única coisa boa na pressa é poder preparar um Miojo em menos de três minutos. Só que até mesmo esse curioso e ágil ritual gastronômico começa a desgastar seu charme. Porque, a cada vez que um pacotinho de macarrão instantâneo é aberto, e uma porção de água é colocada sobre a boca do fogão (o mesmo é válido para micro-ondas), mais e mais mentes se perguntam, aflitas: “Não dá pra ferver mais rápido?!”.

domingo, 22 de janeiro de 2012

FAMA VIRAL

Texto para a coluna Antenados, do jornal Tribuna Amapaense, em 21 de janeiro de 2012. Nesta última semana, os dois assuntos mais comentados na internet e nas emissoras de televisão foram: O possível estupro no programa Big Brother Brasil e Luiza, que estava no Canadá. Se você não sabe quem é Luiza, eu explico: A menina teve seu nome citado pelo pai em uma propaganda de imóveis na qual, depois de enumerar as suítes, ambientes e clube de lazer do prédio, o homem dizia: “E é por isso que eu fiz questão de reunir toda a minha família, menos Luiza, que está no Canadá, para recomendar este empreendimento que eu assino embaixo”. O vídeo virou febre na internet. Reproduziu-se de modo viral, e a propaganda já tem 5 milhões de visualizações, além de outros arquivos relacionados ao assunto. Agora o pai da moça, Gerardo Rabelo (colunista social paraibano), junto com o resto da população brasileira tentam entender e explicar como se deu tamanho sucesso. De acordo com site da internet, onde consta uma entrevista de Gerardo e do produtor do comercial, “toda essa história começou quando o pai de Luiza, há cerca de 15 dias, foi convidado para participar do comercial em João Pessoa. A filha Luiza não estava na ocasião devido ao intercâmbio no Canadá, e os produtores acharam que Gerardo deveria dar alguma explicação sobre a ausência da filha. O vídeo, após cair no YouTube, acabou virando uma grande piada, e claro, um ótimo negócio”. Luiza já está de volta ao Brasil. A pretexto, para dar cabo às piadinhas cibernéticas e frear o vírus “Luiza, que está no Canadá”. Contudo, há quem diga que a jovem voltou mais cedo do intercâmbio simplesmente para gozar as delícias da fama, por mais efêmera que possa ser. Assim ou assado, uma coisa é certa: O vírus já sofreu mutação e agora vêm em sua versão 2.0 – “Luiza, que não está mais no Canadá”. Pelo visto, teremos ainda mais quinze minutos de fama. O segundo tópico mais explorado na rede e em todo Brasil, foi o suposto estupro ocorrido no reality show de Pedro Bial. Não transmitiram a cena libidinosa na TV aberta, pois o programa não estava mais sendo exibido quando tudo aconteceu. Entretanto, aqueles que possuem o “pay-per-view” conferiram integralmente o desenrolar da “transação”. Os telespectadores com acesso a cena começaram a fazer algum barulho na internet, comentando o provável crime. Monique, a vítima, parecia estar dormindo durante o estupro, visivelmente alcoolizada. Rapidamente os vídeos se alastraram pela internet. E o participante assanhadinho, Daniel, foi expulso do programa, com menos de uma semana. Desde o dia do ocorrido, 15 de janeiro, a polícia já esteve na casa do Big Brother Brasil, e muitas outras implicações judiciais já eclodiram, atingindo todos os envolvidos, inclusive os produtores do programa. A polêmica rendeu até 8 pontos de audiência para a emissora rival, de Bispo Macedo. O programa “Fala Brasil”, da Rede Record, conseguiu ultrapassar o “Mais Você”, de Ana Maria Braga, falando sobre o próprio BBB 12. Agora, o ex-big brother Daniel tenta voltar à disputa. Para saber se ele vai conseguir ou não o seu regresso, só assistindo aos próximos capítulos do “jogo”. Eu não me arrisco. O que podemos aprender com isso tudo (se é que há algum aprendizado para além da alienação/indignação maciças) é que, hoje, só consumimos porcaria. Lixo informacional, quando não humano. Estamos bombardeando a nós mesmos com tantas discussões inúteis, que podem até gerar algumas observações interessantes a respeito do caráter humano, mas que não vão nos moldar rumo a uma cidadania concreta ou postura social mais nobre. Nem nos brindarão com uma porção eficaz e responsável de criticidade, consciência, e todos aqueles ideais politicamente corretos, que a cada dia parecem um ideal mais distante e démodé. A fama viral que a internet proporciona a alguns sortudos indivíduos – os quais muitas vezes não fazem nada para merecê-la, apenas integram a “sociedade paraibana” ou bolinam uma pobre menininha bêbada em rede nacional –, só comprova nossa fome de lixo. Talvez estejamos buscando um escape para a seriedade imposta pelos problemas do mundo. Talvez queiramos só rir à custa de uma elite que frequenta o Canadá, ou falsamente nos indignar e espernear perante tudo o que aparece na televisão, já que Bial afirmou ser esta a “ágora brasileira”. Talvez tudo isso junto. Talvez nada disso. Não há nada a saber. O que há para saber? Que a crise continua? Que Elis Regina morreu? Ora... Luiza não se importa com isso, imagino eu. Muito menos Daniel. E, se não importa a essas duas personalidades, ícones consagrados pela aclamação popular, não importa a nenhum de nós também.

VEROSSIMILHANÇAS DE GRISELDA E TEREZA CRISTINA


Texto para a coluna Antenados, do jornal Tribuna Amapaense, em 7 de janeiro de 2012.

Não existe nada de verossímil em Tereza Cristina Velmont, muito menos em Griselda Pereira. Ou seja, essas duas personagens do horário nobre são seres inventados que, por mais redundante que possa parecer, jamais ocorreriam na vida real.
A começar pelos nomes. Onde no Brasil uma pessoa de fina estirpe se chama "Tereza Cristina"? Que combinação mais esdrúxula! Bem, até há certas misturas às quais já nos adaptamos. Exemplos: Ana Paula, Ana Júlia, Paulo Vitor, Carlos Eduardo, e etc. Mas, Tereza Cristina?! Eca.
Já sobre a mocinha do enredo, nunca conheci, nem ouvi falar de alguém que conhecia alguém que conhecia alguém de nome “Griselda”. Tudo bem que a "Griseldinha" não é brasileira, é portuguesa, mas duvido que existam muitas outras na terra dos lusitanos.
De volta à nossa vilã Tereza Cristina, falemos agora de sua conduta pérfida no agir e no vestir. Pode até ser que ela traje Versace, mas será que precisa usar sempre tudo “combinandinho”?! Vestido azul, colar azul, brinco azul, lingerie azul, lente de contato azul... Ufa! A ricaça poderia aprender mais com seu pajem colorido, o Crodoaldo (este nome então não vamos nem comentar...).
E sobre o rastro de crimes e malvadezas que Tereza Cristina deixa atrás de si? Não há consequências? O mau-caratismo da mulher é outra inverossimilhança das brabas... Ela já matou na escada, matou na estrada, matou no hospital, tocou fogo na casa da portuguesa... E sempre escapa impune. Com tanto talento e criatividade, difícil é acreditar que nunca arrumou um ofício para dar sentido à sua vida.
A respeito de Griselda, acrescento: se eu ganhasse 50 milhões, será que continuaria por aqui, chorando as pitangas com minhas comadres (sem lhes dar um mísero milhão), suando litros a fim de manter uma lojinha de ferramentas, enquanto minha filha continua a vender cremes, meu filho numa pensão, e o outro desempregado? É claro que não! Eu mandaria todo mundo pra Sorbonne e ia cuidar dos trâmites pra fazer meu pé-de-meia lá na China, enquanto curtia horrores em Ibiza.
Enfim. O que quero dizer é que, apesar de ter um apelo popular incrível, devido ao exagero tragicômico de seus personagens, a novela “Fina Estampa” é uma impossibilidade por si só. Como já dito, a trama pode até fazer sucesso, porque os telespectadores gostam de ver suas mazelas e virtudes ali, maximizadas... Mas não por muito tempo. Essa fanfarronice toda enjoa. Os personagens são extremamente caricatos. Não há neles as camadas das cebolas, que só os melhores autores conseguem descascar capítulo após capítulo.
Volto a afirmar: Nenhuma daquelas pessoas existiria na vida real, simplesmente porque são boas demais, ou mesquinhas demais, ou chatas demais, ou perfeitas demais, ou malvadas demais, ou nada de mais... Ninguém é assim em nenhum dos cantos do globo. Todos nós somos dotados de imperfeições e requintes, singeleza e capricho, surtos, tiques, afetações, trombas, tapas, algodão e veludo. Coexistindo. Somos personagens esféricos, vivendo novelas reais; não quadrados e óbvios, enfadonhos, nem estupidamente maravilhosos, glamorosos, audaciosos e gostosos sempre.
Desse modo, os nossos programas, nosso entretenimento em geral, devem refletir aquilo que somos, pois esta também é uma maneira de entendermos melhor a condição humana. Quando, por exemplo, assistimos a filmes ou ouvimos músicas nos quais há uma humanidade tão visceral e, ao mesmo tempo, uma beleza tão angélica, nós começamos a nos compreender melhor.
Não pretendo aqui afirmar que, para prestar, nossas distrações precisem ser exaustivamente sérias, sisudas e espartanas. Não é isso. As próprias telenovelas também servem para escapulirmos um pouco das novelas da vida real, não?... Pois bem, que seja válvula de escape, que seja invenção, criatividade, uma dose certa de exagero. Mas até o surrealismo conserva em seu nome o radical palpável da realidade.
A saga Harry Potter, por exemplo. Apesar de um aparente besteirol mistificado, conserva algo indispensável à verossimilhança, que supera a minúcia de sua autora: todos aqueles seres bizarros que lemos ou vimos são recheados de dilemas e questões demasiado humanos.
Assim, o que proponho não chega a ser nenhuma revolução televisiva ou qualquer prepotência do gênero. Também não sugiro que se troque o controle remoto por um exemplar do Nietzsche. Quero apenas, com todo o meu charmoso pedantismo, sugerir à rede Globo que me contrate para escrever a próxima novela das nove. Serei extraordinária, sem perder o elã da realidade.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

MORRA, FANTA LARANJA!


A Fanta Laranja é o pior veneno já produzido por uma fábrica de detergentes. Como todos sabem (ou desconfiam), este elixir funéreo de cor laranja berrante foi criado pela própria Coca-Cola durante a Segunda Guerra Mundial, a fim de vender na Alemanha nazista e não ter seu lucro europeu ameaçado por causa de um incidentezinho internacional e algumas pequenas desavenças capitalistas.
Assim, sua origem e ascendência duvidosas só comprovam minha tese: Fanta Laranja é veneno.
Fanta Laranja é veneno e todos os seus adeptos fervorosos deveriam ser fervidos numa panela cheia deste "refrigerante".
O líquido que tem a cor malévola das abóboras de Halloween é tão detestável, que o mero pronunciar de seu nome já causa aftas na boca.
A Fanta Laranja é áspera, ruim e má, e sua acidez transforma a região bucal em ninho de formiga sempre que alguém ingere esta porcaria gaseificada. Sem falar naqueles pelinhos e farelos que ficam flutuando no interior da garrafa... Vamos levar a Fanta Laranja a um campo de concentração e queimá-la!
Beba Fanta Uva. Esta sim.

NEM NEYMAR

Nem Neymar é indestrutível. Quem acompanhou o jogo da seleção brasileira nesta última semana, contra o Equador, na disputa da primeira fase da Copa América, pôde constatar que nem mesmo nosso infante craque, apesar da atuação engolível e, até certo ponto, louvável, é páreo contra vento, holofote e tempestade.
Sim, estou falando de seu topete. Ou melhor, do moicano (o que é aquilo, Senhor?!).
Neymar pode até ser "Reymar", segundo a Veja, mas o seu cabelo não é tão soberano assim. Ao sair do jogo, poucos minutos antes do término do segundo tempo, as madeixas ouriçadas e oxigenadas do mancebo já não estavam tão ouriçadas. Tal vastidão loura, que minutos antes parecia uma crina de zebra albina em riste, ao final de dois tempos mais assemelhava-se a uma vassoura velha espigada.
Palmas para o vento, que conseguiu o indizível, a proeza de despentear Neymar e levar embora um pouquinho de sua pompa intragável. Mas palmas também para o próprio Neymar, que, apesar de eu não ir muito com a cara, talvez jogue bola melhor que eu. Mas isto nós ainda vamos ver.
Quanto será a quantidade de gel necessária para manter a crina tesa até o fim da partida?

O QUE PICASSO DIRIA DO PICASA?



Existe arte hoje? A arte é fabricável? Meu querido amigo Picasso teria dito o quê de sua fase azul, se pudesse simplesmente jogar um Photoshop em cima?
Olho para todo lado e só vejo Miley Cirus e protótipos de Miley Cirus fingindo ser artistas excêntricas e estouvadas, quando na verdade sabem bem o que estão fazendo. Comercialmente falando, é claro. Porque no âmbito artístico, não estão fazendo nada. Só mascando chiclete, usando batom azul e vendendo milhões de porcarias do 21º século.
Se existe arte hoje, ela está eclipsada. Se existe arte hoje, ela é esquiva. É uma arte que não penetra, não atinge as massas, fica só na superfície. Ou camadas invertidas. Quem sabe a boa arte, arte de verdade, começa lá do fundo, mas não chega aqui em cima. Permanece submersa, e só os críticos, os intelectuais sujinhos de all star e os verdadeiros excêntricos é que têm o prazer de vê-la, cheirá-la, senti-la, tocá-la. A verdadeira arte. Que arte é esta? Será que existe? Como ela é, como se faz?
Cansa depender de um cenário musical superlotado, mas no fundo estéril. É cansativo filtrar, ou simplesmente fingir que o que consumimos alimenta a alma. Aquela nossa alma apaixonada, cheia de calor, de otimismo, sedenta por experiências extra-corpóreas.
E olha que estou sendo preguiçosa, ao limitar este post sem resposta e sem comentários ao mundo da música... Ainda existem tantos outros mundos artísticos a ser explorados e mesmo assim parece que tudo já foi explorado demais, ridiculamente explorado.
Será que existe redenção para a música? Será que eu e as minhas gerações, e as novas gerações, vamos poder um dia ter contato com aquele sentimento de antes, que já ficou apagado nas dobras das décadas passadas? Aquele sentimento de criar novidade de verdade, de experimentar o novo, de descobrir um jeito novo de falar e fazer música...
Estou supersaturada de batons azuis e "featuring". Eu quero da música um first kiss de verdade.

MELOSIDADE NA BLOGOSFERA

É impressionante a quantidade de bloguinhos bem-intencionados, mas que pingam mel choco, existente por aí. Estava eu passeando pelos sítios cibernéticos e, em menos de dez minutos, lambuzei meus dedos e olhos em dois blogs que, de tão dramáticos, excessivamente melosos, e românticos de uma maneira criminosa, chegaram a me enjoar e me fizeram odiar a raça humana. E a mim, por fazer parte dela. Somos esses seres frágeis, cheios de rebuscamento e firulas que escondem imperfeições medonhas, e ainda assim insistimos em cantar nossos sentimentalismos frustrados aos sete ventos da internet.
Eu neste ânimo, odiando a raça humana e sua pieguice, e todos os blogueiros melosos que deveriam ser queimados na fogueira, quando de repente me dou conta de que meu próprio blog é um poço de candura bem-intencionada e sentimentalismo estafante.
Oh, amigos, o que estamos fazendo aqui? Essa vida de blogosfera é difícil, e ainda insistimos em ganhar o pão e a clientela falando de coisas que, na verdade, ninguém lê nem nunca lerá.
A poesia morreu, a sensibilidade, o cuidado e atenção para com o próximo. Oh, mortais! Eu me demito.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

ESPERANDO O GRANDE AMOR

Oh, garotas, garotas, não se contentem com pouco! O pouco é tão pouco, é tão chinfrim, é tão óbvio e é tão "na moda" que chega a desbotar.
Pelo contrário, minhas caras amigas, se contentem e busquem o muito, o antiquado, o que ficou para trás, e nunca deveria ter ido.
Peçam cavalheirismo, implorem, e, se for preciso, ensinem. Ah, espera, não... Nada de implorar. Se tiver de implorar a um obtuso que seja cordato, então ele não é o cara certo.
Não se contentem com a baba, o ínfimo, com o horário espremido entre as madrugadas insones no vídeo game e as tardes intermináveis de sono. Não se contentem.
Queiram aquele cara que nenhuma outra quer, porque ele não é a escolha óbvia. Aquele que pode te querer quase tão intensamente quanto deseja oxigênio nesta vida vertiginosa. Queira o cara que esperou por você, que zelou por você, que se mostra cordato por atitude própria. Queira o cara que não tem embustes, mas tem sutilezas. Queira aquele cara que vai sussurrar em seu ouvido as coisas mais lindas, mais íntimas... "I've Got You Under My Skin"... "Your body is a wonderland"... "Your taste in my mouth"...
Queira este cara maneiro, que é maneiro de verdade, e não maneiro babaca. Esperem por ele, e não se envergonhem de esperar. E também não se acovardem. Porque, se ele aparecer, você precisa reconhecê-lo no ato.
Queira o grande amor. Não o quase-amor, mas o grande amor. O amor desnudo, o amor com desprendimento, o amor de verdade. Queira o grande amor. Aquele amor que vem com doses de paixão e doses de carinho, que faz a cabeça girar, a pálpebra tremer, as luzes se acenderem e você sair do escuro.
Queira um amor que seja seu por inteiro, e lute para ser o grande amor do seu grande amor. Queira-o tanto como ele querer-te-á quando pôr os olhos em você. Queira o grande amor já sabendo que o tempo árduo de espera valeu, valerá. Faça do seu amor um grande amor, amor sem frescura, sem nó, e as demais coisas parecerão tão pequenininhas...

"A NOSSA MÚSICA"

É normal todo casal ter sua musiquinha temática. E não digo isso de modo esnobe ou debochado. Apenas comento. Mas falemos sobre os curiosos casos em que os casais escolhem como trilha sonora de seus romances canções lindíssimas e inspiradoras como... "Seu guarda, eu não sou vagabundo, eu não sou deliquente, sou um cara carente!".
Eu tinha uma amiga, na época em que morei na chuvosa Belém, que, durante nossa sétima série, namorou um carinha mais velho, da mesma escola, que era "TUDO" com letras garrafais. Bonito, charmoso, educado... Enfim, era bacana.
Os dois foram passar, com suas famílias, a virada do ano lá na Estação das Docas. Ocuparam suas mesas, curtiram o visual, beijaram, blá-blá.
Depois, ela me deu todo o parecer da noite, contou como foi, se divertiu enumerando os detalhes. Até que, em dado momento, minha amiga disse: "Aí tocou a nossa música...". E eu perguntei: "Que música?". E ela me respondeu: "Aquela da Vanessa da Mata com o Ben Harper".
Ah, Deus. Ela estava falando de Boa Sorte (Good Luck). Eu disfarcei uma caretinha e, mesmo ainda ouvindo seus relatos interessadamente, só o que eu podia pensar era: "ISSO LÁ É MÚSICA PARA SE ESCOLHER?????"
Vejam se vocês me entendem. A música fala sobre despedida, sobre um relacionamento desgastado que finalmente acabou, fala sobre dizer adeus a alguém que compartilhou a vida com você, fala sobre ceder à pressão dos "amigos", dos que estão ao redor, de todas as circunstâncias que sufocam e matam estes simulacros de amor que vivemos hoje. Se o amor já é tão frágil e capenga, como o concebemos, por que sufocar ainda mais o bichicho, escolhendo, para ser o tema de um amor ainda jovem, uma música que fala sobre fim e saparação?! Certamente um começo não muito auspicioso, quem sabe até a fabricação de um presságio.
Bem, os meus amigos da história não tardaram muito a desmanchar a relação, ainda que estivessem envolvidas as famílias e tudo o mais. Mas também, com uma música psiquenta dessas!... Que relacionamento suportaria?! Só mesmo um de verdade.
É por isso que, já eu, sempre fui honesta com meus momentos, meus relacionamentos, e suas respectivas músicas.
Mentira!
Talvez tenha sido eu a que já cometeu os erros mais estúpidos desse tipo, alguns ínfimos, mas ainda assim estúpidos. Destas experiências, extraí muito. É verdade quando dizem que aprendemos com cada estupidez. E, se posso dar um conselho sábio, eu digo: jamais, JAMAIS, amiga/o minha, chegue para o seu companheiro e pergunte, em voz melosa: "Qual é a nossa música, amor?" Não pergunte, porque essas coisas não se perguntam, não se fabricam, entende? Elas simplesmente acontecem... A música do casal aparece quando tem de aparecer, não é uma obrigatoriedade que seja sempre no início da relação. E, se você não deixa rolar, e, ao invés disso, força a barra e pergunta: "Qual é amor, qual é? A nossa música, amor!", vai que ele te responde "Good Luck", tchau e bênção, vá com Deus?! Ou até mesmo canta para você: "Teus lábios são labirintos..." E esquece de completar dizendo que, em todo refrão de bolero, há pelo menos um corno, um adúltero e um alcoólatra!
Já pensou?!
É melhor deixar como está.
Forçar não é legal exatamente porque não é espontâneo.

domingo, 27 de março de 2011

AS VANTAGENS DAS DESVANTAGENS DA VIDA

1.Dor de cabeça
Vantagem: É sinal de que você tem cabeça!

2.Vomitar no carro do ficante/namorado/amigo
Vantagem: Ele nunca mais vai te arrastar até a lanchonete "podrão" da esquina.
3.Levar um baita fora
Vantagem: Sempre vai ter alguém especial disposto a juntar os caquinhos.

4.Engolir sapo no restaurante sem reclamar
Vantagem: Você não corre o risco de algum garçom cuspir no seu refrigerante.

5.Novelas do SBT
Vantagem: Farão você morrer de rir em qualquer momento.

6.Engravidar a moça errada
Vantagem: Qual é! Você vai ter um filho!

7.Brigar com a mãe
Vantagem: Ela sempre vai te perdoar. E o colo volta ainda mais gostoso.

8.Tecnobrega
Vantagem: Qualquer um pode enriquecer "cantando" isso. Inclusive você.

9.Politicagem
Vantagem: Pode-se criticar à vontade!

10.Ego inflado
Vantagem: Vem normalmente acompanhado de pessoas que, no fundo, não passam de meros mortais inseguros ou oprimidos. Portanto, não há motivo para temer.

11.Depressão pós-livro
Vantagem: Se foi tão apaixonante, você pode lê-lo outra vez, e outra, e mais outra, até decorar cada fragmento da obra, até entranhar as palavras na pele...

12.Fim de filme bom
Vantagem: Se você viu no cinema, pode chegar em casa e pesquisar tudo na internet, até enjoar! Se viu em DVD, pode sempre rebobinar e rever as melhores partes.

13.Apagão
Vantagem: Num átimo você começa a enxergar o mundo com outros olhos. Percebe a dependência, a alienação, o consumismo, a degradação... Só resta levar essas profundas e filosóficas reflexões adiante e não esquecer depois que a luz voltar!

14.Perder a Copa do Mundo
Vantagem: Lembrar que nada nem ninguém é invencível ou perfeito, mesmo com um time inteiro de craques.

15.Virar zumbi no último ano do colégio
Vantagem: Já dizia meu professor... "Vestibulando sem olheira, não é vestibulando! Vestibulando sem gastrite, não é vestibulando!" Logo, você provavelmente vai passar.

sexta-feira, 25 de março de 2011

A IMPOSSIBILIDADE DE LER DALTON


Cometi o desatino de me aventurar a ler Dalton Trevisan. Na verdade, anterior a experiência, já conhecia um de seus contos, chamado "Uma Vela para Dario".
Então procurei outras coisas dele, preconizada por minha professora de Redação, a Josi, outro desses diamantes brutos e indescritíveis que raramente a gente encontra na vida.
Ainda hoje não o conheço muito a fundo, é verdade, mas, ao ser instigada por ela, nadei pela internet e descobri ainda mais alguns títulos do cara. Então, com ousadia, dei continuidade ao desafio mergulhando no livro dele chamado "A Polaquinha".
Comecei... Não terminei. Em parte, sufocada pelas provas da escola, mas também sufocada por outras leituras. Fico me martirizando até agora... Mas hei de um dia terminar.
No entanto, o que ainda me pergunto é o seguinte: "Onde eu estava com a cabeça quando encasquetei de ler Dalton?!"
Simplesmente, não dá. É maravilhoso demais, bizarro demais. Um tipo de linguagem, de estratagemas, tão peculiares e próprios, que só mesmo determinados estados de ânimo conseguem desvendá-lo.
Sua escrita é densa. Ao mesmo tempo, incisiva, simples, bruta, quase prosaica, como se conversasse balbuciando.
Uma economia de palavras absurda, uma inversão de termos e frases, verbos obrigatoriamente transitivos sem transitar, hipérbatos bizarros. Leitura bárbara. Seja no sentido excepcional ou devastador.
Não é qualquer um que tem a disposição, ou absorção, para se lançar em livros que requer muito da abstração e quase nada da simples leitura em si. É preciso ir além. Desvendar conexões, abrir caminhos, desmatar, para então saber exatamente, ou quase exatamente, o que lunáticos como Dalton querem dizer.
Morri de inveja de sua escrita. Na verdade, morro de inveja e de amores por qualquer autor que, já no título, me cativa. E tal deslumbramento foi tão grande, o choque, meu Deus, o choque, que estou até agora evitando um novo confronto com os livros dele. Decidi deixá-los para uma outra hora da vida, quando tudo o mais estiver conturbado, tal qual sua escrita. Quem sabe na confusão me encontro.
Ao iniciar a leitura de "A Polaquinha", de certa forma me remeti a um livro do Ignácio de Loyola Brandão, um dos meus livros favoritos, que li há muito tempo, chamado "O Beijo Não Vem da Boca". Este também me pescou pelo nome. Qualquer dia conto aqui meu enlace com a obra, que é, eu diria, um tanto dramático e pré-adolescêntico. Mas divertido.
Enfim, com o romance de Dalton, era como se olhasse outra vez para a obra de Loyola. Em "O Beijo Não Vem da Boca", a mesma narrativa difícil, conturbada, emaranhada se faz presente.
Há uma confusão tão grande dentro do eu-lírico, que se reflete até mesmo na disposição dos capítulos. O último no meio, o meio no início, o fim explicando o não dito... Simplesmente lindo e devastador.
Tive de ler "O Beijo Não Vem da Boca" duas vezes. A primeira, para me maravilhar, e babar, e sonhar, e curar as minhas feridas que, na época, pareciam se vestir tão bem com os trapos bem costurados daquele enredo... E depois, só na segunda vez, consegui desvendar as lacunas e sacadas por trás da história, concebi a trama de modo mais acessível.
Enfim. Enfim. Dalton Trevisan, ao contrário de alguns de seus simples e profundos contos, nos propõe em livros como "A Polaquinha" a mesma profundidade, mas deixando de lado a simplicidade, em troca de um cru remelexo na ferida. Como um conta-gotas, ele regula onde vai muito, onde vai pouco.
Leitura que choca, e faz parar, é leitura boa. Leitura proveitosa é aquela que te faz lembrar que você ainda não é tudo aquilo que pensou que fosse.
E até isso são palavras de uma mera leiga. Mas a leitura de modo geral, isto é, a boa leitura, é mesmo tão boa e poderosa que possibilita até mesmo aos leigos usufruir das palavras certas para emitir suas opiniões tão toscas.
Sendo assim, que me perdoem as tosquices despejadas aqui. Mas precisava, como a vontade louca de urinar que brota no meio da madrugada, falar um pouco deste desconhecido Dalton que é para mim.