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sexta-feira, 13 de março de 2015

CAVALEIRA MEDIEVAL AGUARDA O DIA DE SE DESPOJAR DA ARMADURA

Quando eu me calar saberás que é porque mais te quero. Mas chegará o dia em que meu silêncio será o silêncio de quem já partiu no veleiro dos que esqueceram teu nome. Muito embora agora: dentro da armadura medieval sou pasta cremosa, feita de Leite Moça, mulher, idiota. Vou me afundando no aço da minha vontade fajuta. Sou uma fraude. Forjei todas as resoluções -- não as queria, para dizer a verdade! Agora, em doses de cianeto, cada passo meu retumba como a escolha inevitável de um filósofo resignado que caminha para seu fim, querendo, é claro, ser como o mais covarde ou o mais cínico dos sofistas. De que me vale a grande e boa intenção? De que me vale perdurar, quando amoleço? De que me vale a água toda que me jorra, se a trocaria por um punhadinho de felicidade simulada, solar, a teu lado? Sou inesgotável sentir-se-só. Queria um barco. Fosse como fosse, fosse de papel, um barco. Que me levasse pela enxurrada da água da chuva até tua casa, na rua do doutor que descobri. Levei dois, três anos aqui, vivendo esta vida de trajetos normalíssimos. E agora em cada esquina o meu coração palpita porque toda esquina se tornou o próximo canto em que te encontro um tanto, mesmo que não estejas. Te recrio. Te reconto. Vou levando. Rotina. Acostumo. A armadura pesa. Tem dias que estou mais firme, tem dias que estou mais triste. Quando virá o escafandrista vestir a minha roupa de soldado? Eu passo a tocha a chama acesa o fogo o lastro. Quando eu terminar de sofrer, começará teu sofrimento, escafandrista. Serás tu a olhar por tuas janelas, tua escotilha, perguntando-se: "Onde está...?". Onde estou? Estarei longe. Tão longe que nem mesmo o murmúrio do teu pensamento poderá me alcançar, nem mesmo se usares o barquinho de papel que eu deixei para trás, ancorado a teu porto. Teu porto era vazio quando cheguei. E agora voltas a ele, e já escurece, e acenas do píer da sombra de um querer que se esquivou e de repente voltou atrás quando era tarde demais (e sempre foi, tendo começado na quadragésima primeira primavera nublada, quando já se corria a corrida marítima dos velhos rumo a canto algum...). Chegará o dia, escafandrista, em que esquecerei até qual era a ordem do teu nome. O que vinha antes, o que vinha depois... Não mais importa. Tu és água que passou. Por ora, derreto por dentro, ainda que por fora endurecida. Mas chegará o dia.

SOÇOBRO

Tudo o que eu tenho guardado num porta-joia de pérolas são escamas, ásperas. Arranquei-as contra a vontade do peixe. Sufoquei-o com uma moeda de prata. Não era a mesma moeda e nem era o mesmo peixe do Evangelho. Era um dobrão de intenções todas perversas, nele lavradas. O peixe morto voltou ao mar e eu fiquei com as mãos cortadas, com a água pairando à altura dos artelhos, e cabelos molhados como que feitos de algas azuis e enxofre. E quando me dei conta era na minha glote que a moeda girava, fincada, e nos meus olhos é que as escamas como garras se escondiam. Esta terá sido no futuro do meu passado a crônica dos meus amores, esfacelados, descrita nos pergaminhos indeléveis de aço cromado cheirando a peixe. Escamas frágeis que fingi joias. A coleção completa esquecida dentro da caixinha de pérolas silenciada na gaveta da escrivaninha Luís XVI do antiquário da rua Campo Amor que negocia agora nenúfares porque no futuro se descobriu que nós do século superado havíamos entendido errado todo o conceito do que tem valor.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

VAGABUNDAMENTE

Que eu tenho um coração vagabundo, que se rende fácil e se vende por qualquer trocado de afeto, isso lá não é novidade. Agora, ainda mais, veio essa vontade tonta de fazer besteira. De enlouquecer, de gritar, de me revirar. Vontade endoidante de não ser mais eu, mas ser eu sendo outra. Outro ser, outra coisa que desconheço - sem limites, sem pudores.
Minha mente dá corda à vontade... Devaneia.
Meu coração, porém, é muito mais prudente do que minha razão.
A minha razão dá razão ao corpo - ele quer e pronto, está com a razão!
Mas meu coração é prudente, vai me freiando. Meu coração é prudente porque tem medo.
Então não é ele que se vagabundeia... Quem vaga por aí sem dona é minha mente: danada!
Só agora conheço realmente meu coração. É fraco, pobre e só, mas tão convicto de ideais românticos que foi catando pelo lixo, que nem a minha perigosa mente sabe demovê-lo.
Ah, mas tenta...
Aprendi, afagando-os igualmente, a contê-los. A suportá-los, pelo menos. Minha cabeça e meu coração. Afinal, todos os dias, em todos os segundos, frenéticos, cá estamos, delirando ou temendo.
Os dois não se entendem. Eu observo. Que espécie de loucura é esta em que não tenho voz dentro de mim mesma? Eu sou eu mas só observo. Quem é eu e quem me faz é meu coração. Medroso, medrosinho... Infeliz, melancólico e inseguro. Muito, muito sério. Suspira às vezes, porém. E é nesses momentos que a minha cabeça desajustada quer reinar. Sorte é que meu coração não deixa: tem medo.
E eu vivo nessa prisão feita de artérias e neurônios. Meus mais refinados músculo e órgão brigam entre si e minhas entranhas sofrem, retorcidas. E eu, onde estou? Perdida por aqui por dentro... Observadora neutra, sofrida. Sou ping pong dos meus desejos e dos meus freios. Sou a maldita bola. Não consuma ponto algum porque o coração não deixa. Mas, veja só, ainda assim, está no jogo!
Minha mente me arma armadilhas... E mesmo desistir do jogo seria dar a essa cabeça sacana e despirocada uma vitória bastante satisfatória. Ela me olharia, a minha mente, e debocharia de mim, que não perdi nem venci, só deixei de brincar, eu amorfa, seca e paralisada.
Eu até me uniria a meu coração, para derrotá-la de vez. Mas é que meu coração só tem medo, só medo. E viver pelo medo é pior do que não viver absolutamente. Então estou assim: não vivente. No limite, na tensão, na fronteira entre ceder àquilo que quer minha mente e resistir ao que afronta meu coração.

domingo, 5 de outubro de 2014

ESTOU GUARDANDO O QUE HÁ DE BOM EM MIM

pãrãpãpã pãrãrãrã tãrãrã...

Era o jardim molhado, limoso
Calçadas caminhos de pedra velhas esverdeadas úmidas
odoríferas florestas mínimas, deslizantes
E os outros cheiros e sons de Dezembro
O sol molinho, molezinho de uma véspera
E a antecipação... A doce angústia
Um não sei quê de esperar um sabe-se lá quando
Tão doce, tão doce sofrer e existir
- se fosse ali
E os sons, então
Era Roberto Carlos, A Volta
Ou mesmo Detalhes
Ou mesmo As Canções que você fez pra mim
E eu já não mais me sentindo tão fajuta por curtir Roberto Carlos
Era um barato intransponível
Que meus tios do rock não soubessem
Nem os primos
Mas era tão doce, tão doce aquela tarde
Ali o céu escurece sem escurecer
É aquele sol que amarela e então doura e então explode num laranja tão profundo e ao mesmo tempo tão suave... e deságua lentamente num cor-de-rosa meigo e apaixonado
E purpúreo vai escorrendo pelas bordas...
E as bordas encontram as bordas do rio...
Não é rio, é lagoa
Era a lagoa.
E o bacurau - que descobri não, não ser bacurau, mas carão
Mas ainda assim às vezes os nomes em mim se trocam
E o carão, longe, canta
Nunca o vi mas ele estará em mim para sempre
Mesmo que não possa ser visto nem ouvido nos textos que eu escrevi e nos murmúrios que rolarem dos meus olhos ele existiu um dia?
É claro que sim!
Aquele lugar... Aquele lugar terá existido para sempre...
E eu, com bordas douradas um dia... Douradas de velha... Serei? Serei tão pura e tão plena e tormentosa quanto aquele céu?
E agora eu sinto, mesmo não estando ali, que a vida escorre tão melancólica
E MAGNÍFICA
E impiedosa
como aquele céu de douradores em dezembro...

domingo, 20 de abril de 2014

FROLIC

A carne acabou ficando muito salgada e por isso imprestável, a solução foi jantar a sobremesa. Um prato assim enorme de brigadeiro e dois adultos ridiculamente rendidos a um prazer tão adolescente. E há idade para isso?
Duas colheres duelavam no campo de batalha, indo pelas beiradas, que era onde estavam as melhores partes, as casquinhas queimadas. Estranho que a disputa não fosse pelo meio, e sim pelas bordas. É que nós dois gostávamos de tudo quanto fosse marginal, porque terminava mais gostoso, crescendo à mercê do capricho, da rebeldia, da liberdade de não ser o centro da atenção.
Na época dessa janta, se fazia amor ouvindo Phoenix, e isso era uma coisa para lá de boa. Interromper pra ir trocar o CD. Importante era durar. Era a experiência toda, não o ponto final o ponto mais importante. Bem, talvez fosse e estou mentindo só para deixar bonito e impraticável.
Mas aí então no final depois de tudo consumado e a última faixa ter silenciado ainda ficavam os ecos das canções na nossa cabeça, porque foram experimentadas à exaustão e até o fim da margem do delírio, que é a doce queda. Daí depois a gente assim cantarolava os refrões trocados, ia fundindo os primeiros trechos e depois imitava com a boca aos risos o solinho havaiano de Branco em Lasso. O brilho frólico no rosto na manhã seguinte se lia e já se sabia: fez ouvindo Phoenix.
Mas nas jantas daquela época também tinha outras coisas...
Agora não lembro.
Talvez a gente conversasse bastante e profundamente, mas no final eram tudo besteiras.
Houve aquele fim de semana em que eu não soube mais o que dizer e de repente ficou assim estranho, mas um estranho bom. Era provavelmente o passo à intimidade. Vai-se descuidando das palavras, os silêncios ficam mais significativos, silêncios, só te tocar, e sorrir, a não necessidade de se conhecer. Para quê? Já se conhece. Até o cravo já se tirou.
Toda vez que eu olhava para aquele pontinho preto na margem inalcançável da bochecha, mais assim pra perto da orelha, dava uma vontade danada de enfiar as duas unhas e espremer sem dó! Não. Ainda não havia jeito: não éramos ainda tão ligados. Ainda do clube da porta do banheiro fechada e a luz do quarto apagada, mas o abajur, porque mostra encobrindo. Até que um dia só fiz me aproximar e fiz. Saiu a cobrinha branca e ele foi todo nojo e caretas e eu naquele prazer da asquerosa missão cumprida sem qualquer afetação. Depois nem lembramos, não restou vergonhas: deu certo e era já o império do silêncio íntimo.
Que mais? Amei tão ardorosamente que agora ainda lembro como foi difícil separar os discos quando foi preciso se separar. Sem brigas ou rancores, era só mais um passo na vida e eu odiei a vida e me embebedei loucamente sem entender que se não quisesse era só não ir, não viajar, era ficar, ou levar junto, que fosse. O clichê se mostrou verdadeiro. O clichê é cada vez menos clichê agora porque não há mais quem compre discos e CDs. Eu ainda tenho os meus e ele ainda tem os deles e na hora de a gente dividir a divisão foi tão certa que eu me pego às vezes pensando que deveria ter deixado lá meu álbum favorito só para ter motivos de rancor. Mas não tenho. Às vezes quero voltar, jantar miojo e brigadeiro. Cruzar as quatro pernas, meias no falso frio da noite, conversar na penumbra da sala tomando vinho barato porque sim, é gostoso. Mas isso não se faz com uma criatura aqui e a outra criatura lá no apartamentozinho tão charmoso porque então ainda era marginal ter um apartamento charmoso num bairro deplorável e a vida foi tão boa e simples que agora eu me pergunto qual a necessidade de mudar os móveis de lugar e tomar decisões assim na vida que estava tão boa, e foi uma vida boa sem deixar de ser boa nunca até o momento em que, espera!, vamos parar. Doeu quando tirou a barba e foi tipo isso mil vezes mais e regado a uísque contrabandeado do senhorio do novo prédio nesse novo país estranho e desconfortável.

sábado, 15 de junho de 2013

O SABOR DE SER 19

[Como se hoje fosse ainda dia 14:]

  19 anos, hoje. São, pelo que diz a calculadora, 6650 dias. 79800 horas. Minutos infindáveis de uma existência quase que exclusivamente dedicada ao ócio improdutivo e à procrastinação eterna, mesclados com raros momentos de inspiração abobalhada.
  A verdade é que me sinto muito mais tendo 19 (tão abstrato e ao mesmo tempo tão concreto), do que sendo, propriamente, dezenove-anos. Eu tenho esse número exato, mas não é como se eu mesma ele fosse. Fico na indefinição do ser-se e/mas não sentir-se (deixe as ênclises aí).
  O próprio dia de hoje já amanheceu assim, dúbio. Belo, mas dúbio. Dúbia Fortaleza chuvosa, envolta num vento quase enregelante, ainda que com aquele mormaço sufocante e um sol de crestar miolos. Um calor-frio, uma luminosidade opaca, um brilho intenso filtrado por um céu nublado de grossos e cinzentos chumaços de algodão, enquanto se sua e se treme à espera do ônibus que nunca virá, porque o caos urbano não refresca nem mesmo para os aniversariantes.
  Contudo, embora eu molhada de inconstâncias e incertitudes, foi este um dia feliz. Um daqueles dias em que se sorri para os gatinhos marajás, paxás a se lamberem regiamente sob o sol da UFC, um daqueles dias em que não se enxota a formigona que subiu no seu pé, um daqueles dias em que você se descobre um ser amado.
  A minha ideia de velhice não era uma vida solitária rodeada por felinos. A minha ideia de velhice máxima, há alguns centênios, era completar 13 anos. Número não totalmente aleatório. Acontece que eu devia ter lá meus sete, quando uma prima mais velha, que morava no Rio, mandou-me uma carta, e nela havia um desenho cujo título era "Bárbara aos 13 anos". A figura angulosa conseguira mais ou menos domar um cabelo leonino e detinha uma estreiteza de dar inveja. Ter treze anos passou, assim, a representar o auge do amadurecimento, o ser alguém no mundo, com um metro quadrado de existência autônoma.
  E eu costumava achar um saco ser criança. Era cruel. Porque criança sofria (aqui o eco da menina que desde sempre foi um bocadinho melancólica), não podia participar das confabulações dos adultos na cozinha, e tinha sempre que ficar vigiando a postura e passando cuspe no joelho pra tirar a "tuíra".
  Enfim, alcancei os treze. Sem grandes arroubos. Passei pelos superestimados 18, e chego agora, discretamente, aos 19. Com aquele ar mais ou menos fatigado e o sorrisinho meio que desdenhoso-condescendente de quem enfim compreendeu o grande lugar-comum dos adultos: crescer não é tão mágico assim...
  É, afinal, só uma questão de ser forçado a aprender de uma vez por todas a atravessar a rua sem a mão amiga entrelaçada à sua; e é ainda apenas questão de fazer o seu próprio pedido à atendente no caixa do McDonald's (contendo o desejo ardoroso de pedir um McLanche Feliz e descolar para si aquele brinde tão maneiro do Keroppi); crescer é apenas uma questão de aprender a pegar o ônibus certo e fazer o favor de não chorar caso você se perca.
  Ter 19, ou mesmo o 13 idealizado, consiste basicamente em dominar todas essas habilidades desiluminadas. Não importa se você foi uma criança que aprendeu a pintar magnificamente com o lápis de cor, sem sair da linha, aos três anos de idade. O que importa ao externo é que você não seja um pobre coitado de 19 anos que ainda atravessa a rua feito um trem descarrilado e sofre com a voz embargada ao tentar perfurar a carapaça da timidez e fazer o seu pedido à mocinha impaciente e meio surda do caixa.
  Mas, bom, a intenção não era transformar esse texto num daqueles manifestos a favor dos que não querem crescer. Eu mesma não quero ser um desses que não quer crescer... Mas quero fazer de mim um daqueles adultos que se olham no espelho e conseguem se perdoar por terem crescido, e que não se levam muito a sério, e que gargalham sozinhos ao notar, depois de uma hora incessante de busca, que os óculos estavam, desde o início, estacionados no topo da cabeça!
  Enfim, todas essas bobagens rabiscadas simplesmente para balbuciar que foi este um dia bom, um dia feliz. O teor da reflexão murcha pode parecer ter sido feito para murchar também quem lê, mas não. São apenas aquelas coisas que a gente despeja quando encontra a desculpa de ter nascido no bendito dia presente.
  Por fim, notas de rodapé:  talvez a maturidade ordinária que se espera de alguém que se diz um 19 anos só me brote mesmo quando eu for para lá dos 30.
  Especificamente quanto ao dia de hoje, 14, gostaria que meu avô estivesse aqui em Fortaleza com a gente. E também a minha mãe. E minha irmã. E tios. E primos. Mas aceitar as circunstâncias intransponíveis com resignação e desprendimento faz parte também de crescer, eu imagino, e ao menos este amadurecimento eu me concedo (tento).
  Vovó chorou hoje, é claro, como era de se esperar. E o elemento desencadeador foi o "bonequinha" com que um de meus tios iniciou a mensagem de parabéns à aniversariante. E pensei, cá com meus botões (de celular): "Ainda bem que, neste país estrangeiro (que é a idade dos que já amadureceram), pelo menos nos permitem chorar...".

um vislumbre da velhice

sexta-feira, 17 de maio de 2013

A GRIPE QUE NUNCA PASSOU

Acho que, quando eu era pequena, peguei uma gripe e ela nunca sarou. Eu tenho essa moleza de espírito que me faz arrastar pelos dias a fio, sem fazer nada. Deixo para o último segundo todas as coisas, porque a cama me chama. O travesseiro, a preguiça. Um eterno protelar de quem tem o corpo todo dengoso de gripe...
Os meus olhos lacrimejam, o meu nariz escorre, e os ossos do crânio, os dentes, todos doem. É um estado permanente. Essa vontade passiva de morrer para o mundo, essa preguiça de viver. Nada muito definitivo, apenas parado, suspenso. Poderia ser verme, mas não, é gripe, gripe de alma, já diagnostiquei.
E quando o tempo piora, cai chuva, faz sol brabo, o meu estado, como fica? Assolado. Arrasado. Garganta cortada, inflamada, gosto amargo na boca, os olhos vazios, meio melados, molhados, a coriza do coração e o tapamento dos ouvidos, enquanto a tosse literária não me larga...
É gripe, na certa. É gripe.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

A minha mente é como um mundo muito, muito, muito grande, mas cíclico, que me cansa.
Gira essas voltas, sempre as mesmas voltas, à volta de mim.
E eu não sou lá tão grande para que uma rotação seja maior que a frequência delas todas, sempre iguais.
Eu tenho uma mente vasta, mas plana. Um planeta raso aprisionado aqui dentro. Voltando sempre ao mesmo enfado.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

FALSA CONFISSÃO

Tempo em que não se pode chorar. A garganta seca, os olhos ardem, mas lágrima alguma cai. A água que escorre é seca e feita de vento. Derrama-se dos olhos unicamente a aridez.
Tempo em que não se pode confiar. Confia-se, desconfiando. E a confiança, quando vem ou vai sincera, é apunhalada, aqui ou lá. Tempo em que fazem mal querendo fazer o bem. E o bem tornou-se uma abstração forçosa de quem teima em crer que há razão em fazer o que faz.
Tempo em que os estômagos se contraem, e o peito dispara, cavalga, explode. Mas não há emoção. É só essa secura ardorosa que oprime e impede, ao mesmo tempo, de sentir, enquanto se sente tudo o que não pode ser exprimido.
Tempo em que as palavras rasgam almas, e o silêncio também. Tempo em que essas palavras ferem até sem querer. Elas ferem e só. Tempo em que os gritos são sempre gritos, até quando sussurrados. Mas já não dizem nada. A dor não se derrama. Junto com a dor, a própria punição: Permanece aprisionada no recipiente invisível do ser, indecifrável, inviolável.
Tempo em que se tenta falar sobre algo, se tenta clamar, implorar, confessar... E as intenções todas se fazem vazias. As confissões mais tolas, as mais sinceras, as mais rudes, as mais graves e sérias... São todas invólucros vazios, que encerram somente o não ser nada, o direito a nada, nada além da própria miséria interna.
Há somente a vontade. Mas não conta. As intenções são todas mortas.


quinta-feira, 10 de maio de 2012

MINHA PINTA

Simplesmente odeio esta pinta. Odeio. Ela sempre me passa a sensação de que não deveria estar aqui, tão folgadamente alinhada em meio a meus poros, na bochecha esquerda.
Querendo ou não, a pessoa que tem uma pinta é diferente das demais. Vive como se não a tivesse, mas tem. A todo momento, o subconsciente do indivíduo detentor da pinta faz com que esse pobre inocente acredite que a tal da pinta não está ali, esquecendo-a satisfatoriamente. No entanto, ela está. E é só cruzar com um espelho, que a verdade outra vez se desnuda: Eis a pinta! Austera, invasora, caótica, assimétrica.
Viver portando uma pinta não é tarefa fácil. Quem as possui, sim, vive, mas nem sempre se conforma ou tranquiliza. Eu me conformo, algumas vezes, quando deixo de achar que a pintinha tem alguma relevância em minha existência - meu fracasso ou meu sucesso... Mas, na maior parte do tempo, ei-la, me incomodando!
Eu tiraria esta pinta. Tiraria mesmo. Queria ter um rosto uniforme. Não gosto que a genética ou o acaso das pintas imponha-me algo que não deveria estar aqui. De fato, todo o resto se comporta, ainda que nem sempre belo: nariz grande tem sua razão de ser, olhos meio tristonhos, segundo minha mãe, também têm sua razão de ser, queixo fino tem sua razão de ser, testa larga tem sua razão de ser, dentes de ratinho têm sua razão de ser... Mas, pinta?! Não!
No entanto, nos momentos em que a dita cuja me consola, seja lá por qual motivo, quando somos só eu e ela... Não sei...
Nesses momentos, chego a pensar que esta pinta faz de mim um ser não puramente diferente, mas também especial. Chego a cogitar hipóteses tão belas para o futuro, em que passarei pela rua, e todos apontarão, deslumbrados: "Olha!... É a garota da pinta!...". E então esta pinta será até maior do que eu. E todos me conhecerão como "a garota da pinta no rosto", "a exótica garota da pinta no rosto", e não mais eu terei uma triste pinta, e sim a pinta é que me terá em seu rosto...
E o devaneio logo passa, e volto a odiá-la. Mas que seria belo, ah!, isso seria...


terça-feira, 1 de maio de 2012

SABER-DE-COR

Cor, do latim, significa "coração".
"Saber de cor" é isto: algo que você aprendeu e internalizou de tal maneira, que aquilo ficou armazenado irrevogavelmente em seu íntimo — no coração.
É uma das expressões mais bonitas da língua portuguesa. Ignorada até uma dessas manhãs quaisquer da vida, assim, displicentemente, quando, na faculdade, brota, em meio a uma aula de Fonologia... Engraçado como surgem as epifanias. Então, a ideia nos captura, e nos faz reféns, não nos deixando nunca.
Saber de cor está para além do falso de(cor)ar sabatinado, do bê-a-bá, do aprender, recitar, para depois, caindo no limbo, esquecer.
Saber de cor é trazer algo para dentro de si, e deixá-lo ali, e nem mesmo os seus mais turbulentos intentos ou as mais caprichosas convicções são capazes de anular aquilo que você sabe com o coração.
Quando, racionalmente, você quer saber, usa-se o cérebro. No entanto, para que o saber faça parte de você, flua pelo sangue, inunde, percorra as veias, artérias, inflame os sentidos, então é necessário que se saiba de cor.
Saber de cor é tornar precioso aquilo que se sabe, jamais esquecê-lo. E a quantidade de coisas que assim você pode saber é infinita... Mas, atenção: Só guarde no coração o que real e imediatamente soe como algo que há muito tempo você procurava, como um pedaço que faltava, e agora eis aí; e você, completo.
Guarde, assim, estritamente, o que lhe for querido.
Guarde no cor, no cuore, no coeur...
No coração.


quarta-feira, 14 de março de 2012

JANELA D'ÁGUA

Estávamos eu e ela presos na casa, a noite fria, porque chovia muito. Eu não tinha certeza do que significava toda aquela escuridão, ou todo aquele nervosismo, mas eu sei que sentia.
Sentia milhares de coisas ao mesmo tempo, e o vento que entrava pela janela era bom. Me fazia recordar de coisas que eu ainda nem vivera, e me fazia ter vontade de ser grande só pra ter vontade de voltar a ser pequeno...
De algum modo pressenti que aquelas férias no sítio seriam únicas, e que aquele momento em especial, preso na casa, a casa fria, era tudo muito lindo, no futuro formaria um belo quadro na minha lembrança. Melhor ainda do que formava então.
Eu só vontade de estar ali, nenhum lugar mais. A janela aberta, a escuridão... O vento noturno soprava, e entrava, e a gente com medo de que aquela ventania toda apagasse as velas. Éramos todos movidos a lamparina e cera. Era bom.
Eu sentei-me no chão gélido, chão de pedra, bem em frente à janela. Fiquei olhando o céu do sítio, e as bordas da janela que se liquefaziam junto com a chuva, e escorriam para dentro e para fora.
Ela veio e se sentou ao meu lado. Ficamos namorando a noite. Aquela noite tão escura, e tão viva, e ardente. Fazia frio e nós, aquecidos.
Ela não ligara muito para mim durante todo aquele tempo... Julho passaria sem que nos olhássemos de frente, não fosse aquela linda noite, aquela líquida janela. E eu padeci, o muito tanto que é permitido a um menino banguela, ainda aberto e sem verniz, padeci de amores por ela.
Aquela noite... Aquela noite trouxe em suas asas de vento um punhado de novidades, promessas de futura nostalgia, de cheiro de sereno, de descoberta, aqueles, aquela, aquilo. Ela que se sentou ao meu lado, e olhou a chuva comigo. Trouxe consigo uma vela. A vela logo se apagou. Os adultos dormitavam nas cadeiras, ao redor. Nós nos amávamos. Amávamos com os olhos, e nos devorávamos em curiosidade... Tudo isso com o poder das pupilas dilatadas. Ela me olhava pela primeira vez.
A noite de chuva no sítio, que descortinou a nós dois um mundo novo. O mundo do menino que de repente, em meio à água transparente da tempestade noturna, se torna um universo de cores e coisas indizíveis...
E depois você entende por que vale a pena viver por uma só lembrança, uma lembrança sem malícia alguma. A lembrança é a esperança da repetição, esperança de que uma chuva como aquela, e uma amante de olhos, banguela que nem ela e também como eu então, voltem a habitar a retina - viva, presente -, não só a memória e as fugidias reminiscências do coração.


sexta-feira, 9 de março de 2012

RECADO

Neste dia da mulher, seja homem.
Diga a ela o que você sente. Mas diga com todas as letras.
Diga a ela que você se arrepende, que se arrepende muito de sua última burrada, e que provavelmente voltará a cometer outras, mas tudo sempre estará bem se ela estiver com você.
Neste dia da mulher, fale a verdade.
Admita que você realmente olhou para a bunda da vizinha - mas não é ao lado dessa que você quer estar para o resto da vida.
Dê a ela uma flor, apanhada com todo o carinho. Não precisa ser um buquê de rosas vermelhas, opulentas... Não. Basta ser uma florzinha miúda, dessas róseas, amarelinhas ou brancas, que aparecem pelo chão, por entre as frestas da calçada, e que resistiu a todas as intempéries para estar com ela.
Seja generoso, afável, descontraído.
Ser generoso - dar a ela aquele beijo de cinema com o qual ela sempre sonhou, e dedicar uma parte sincera da sua atenção às coisas que ela tem a dizer.
Ser afável - tratar os cabelos dela, as mãos dela, o pescoço dela, o coração dela..., enfim, ela toda, com ternura. Sem medo de parecer fraco. Não há homem de caráter mais forte do que aquele que demonstra seus sentimentos, sem nem precisar dizê-los.
Ser descontraído - não pegar no pé dela caso tenha exagerado na maquiagem, no salto alto ou na chapinha. E rir um pouco dessa preocupação tão febril com a aparência, deixando claro que, para você, ela é musa até de pijama e rímel borrado.
Seja homem. Mas não seja só hoje. Que hoje seja só o ponto de partida. E que amanhã, e amanhã, e depois..., você prossiga sendo o homem que essa mulher pediu a Deus.
Não duvide. Ela com certeza pediu.
Então apenas... Seja.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

MALDITO BENZALDEÍDO

Não gosto de falar de amor porque não me dou bem com ele. O último amor que tive foi arrancado de mim ainda na infância. Por isso mesmo é que, hoje, desgastado, já não tenho coração. Ademais, tenho um cachorro. Que é menos meu do que de minha vizinha, uma menininha loira de olhos castanhos, que certamente um dia irá morenecer...
Tenho medo desses escritores que falam de amor como se falassem de bife. Não quero me prolongar. Mas também temo aqueles que descrevem o amor sem conhecê-lo. Sim, não há problema em imaginar e, consequentemente, conceber o que não se conhece... Todo escritor faz isso, eu sei, sou um deles. Se viajei a tantos lugares como sugerem meus livros - lobos famigerados -, certamente metade dessas jornadas percorri sem sair da poltrona de minha sala.
Mas ainda assim sei que com amor não se brinca nem se inventa embustes. Fala dele quem o conhece, ponto. Fala dele quem o quer. Amor é coisa séria. E nunca o provei, indo com a colher até o fundo, mas sei que ele existe. Se não existisse, não teria eu tanto medo. E, admito, sou covarde.
A verdade, a verdade mesmo, é que fui podado muito jovem... Daí não me arrisco. Porque a casquinha da ferida me arrancaram demasiadamente cedo. Mas, se querem saber, eu conto.
Tinha só dez anos, veja bem. Uma idade insossa, eu até diria. Era novo na turma e havia uma garota. Ela sentava-se sempre ao meu lado. Não era bonita. Pelo menos ninguém lhe disputava a atenção. Mas, para mim, era linda. Era lindíssima. Tinha ares de precoce, madura. E um nariz adunco, desses de águia, com a ponta virada para baixo, que me fazia morrer de loucura por ela. À época, aquele nariz povoou muitos sonhos meus... Não posso dizer o que nos leva a amar alguém. Só posso dizer que a primeira coisa que amei foi aquele nariz.
Como nos sentávamos perto um do outro, eu na fileira da parede e ela na fila ao lado, não tardou fazermos amizade. Quer dizer, não sei. Éramos, pelo menos, colegas de trabalho. Eu não falava com ninguém. Extremamente introspectivo – e vejo aqui a falta de originalidade, o velho clichê do escritor solitário que se repete desde a infância. A guria, por sua vez, apesar de estar havia mais tempo que eu naquela escola, também não tinha muitos amigos ali. Por algum motivo obscuro as meninas a evitavam... Éramos então duas almas sozinhas que se aderiram, inevitavelmente.
E lembro-me ainda hoje como se fosse água... Complexa, mas transparentemente: terça-feira, alguma de junho. Foi então que me apaixonei por ela por completo. A situação: nós emaranhados entre mínimos e máximos denominadores comuns, ela se debruçou sem se dar conta sobre mim e eu senti o cheiro indescritível de sua pele.
Ah, meu Deus... O que foi aquilo? Ela tinha um daqueles cheiros doces e suaves que a gente sempre quis sentir, mas nunca descobriu em ninguém, e fica por parecer mais uma mentira de cinema. Cheiro de... Cheiro de... Eu não consigo dizer. Doce e suave, doce e suave, doce e suave. Não fui capaz de pensar em mais nada. Fiquei maluco. E segui para casa assim, no banco da frente do ônibus, pensando “que cheiro poderia ser aquele?”. Que nome ele teria, como decodificá-lo...?
Lá pela madrugada, mofando na cama, decifrei. Ela tinha cheiro de amêndoa. Amêndoas... E será que tinha gosto também? Só pude concluir que aquele aroma era todo dela, todo dela, irrepetível, de mais ninguém.
Ao longo dos meses, fui arrumando desculpas para me sentar mais ao seu lado, colado. Ela, com seu narizinho de ave feiosa no rosto magro, dizia-me que sim, eu podia, contanto que fizesse silêncio. Ela queria prestar atenção à aula. E eu faria, é claro, silêncio, entregue e rendido. Só me interessava cheirá-la...
Um dia, lá pelas tantas, descemos as escadas conversando e acabamos passando o recreio todo juntos. Num banco qualquer, no pátio da escola. Ali, em tom de confissão, ela me disse que odiava seu nariz, que tinha alergia a ovo e muito medo de morrer. Eu afirmei a ela que não, nunca, ela não morreria nunca! Ela era muito bonita para morrer. E, com mão suada, aproximei-me, naquela voz de quem ainda nem sabe dizer: "Você é tão bonita que me dói aqui por dentro". Tentei, ato contínuo, beijá-la. Ela, igualmente, me repeliu. Saiu correndo, espantada, e só deixou às minhas vísceras já tão doridas o doce rastro do seu misterioso cheiro amendoado. Lúdico-lúgubre-lúbrico amendoado.
Não nos falamos mais. Nunca, nunca mais. Permanecemos na mesma escola, até os dois anos seguintes, inclusive na mesma sala. E foi só. Um dia, quando estávamos já na casa dos treze, e ela não mais na mesma turma de sétima série em que eu, acabei por vê-la, numa tarde chuvosa, em frente ao portão de sua casa (eu a seguira secretamente até ali tantas vezes...), sim, a vi entrar num carro prateado.
Estreitei então meus olhos. Lá dentro, um cara. Por volta dos 40, grisalho, uma das mãos ao volante. Tinha barba, tinha paletó, tinha aliança. Através do para-brisa rasgado pela chuva, vi aquele ser estranho beijar a menina morena e cheirosa que, mesmo oniricamente, tanto me pertenceu.
Mais tarde, em outras tardes, de chuva ou de sol, outros momentos da vida, cheguei a vê-la entrar de novo em outros carros. E foi assim, com tantos carros, que ela deixou de ser minha.
E, um dia, eu já no ensino médio, li em um livro pesado de química orgânica a respeito do aldeído que, ligado a anel aromático, recebe o nome de "benzaldeído". Este capricho de nome feio tem, por sinal, um cheiro maravilhoso. Imita o de amêndoas. É usado comumente na fabricação de perfumes.
Comumente.
Bem... Bem. De raro e precioso, a ilusão só tem o tempo que dura. E foi assim que percebi ser hora de superar. Que eu já não podia também ser dela. Que ela nunca fora minha. Que essas coisas todas passam. Sim, um dia, elas todas passam. E não deixam nada além de vagas noções de química...

quinta-feira, 24 de março de 2011

JUVENTUDE

Aquelas noites de verão foram incríveis. A juventude, o som, as músicas, os cheiros... Sensações infinitas. A turma se sentia forte, quente, invencível. Eles eram praticamente invencíveis, perdidos no mundo.
Ah, o tempo... Tão distante naqueles dias. E eles mal sabiam quantas coisas ainda os aguardavam, ainda aconteceriam.
A vida vai mudando, e a gente nem percebe. Só se dá conta quando tudo já foi feito, já passou. E todos eles sairiam mudados daqueles verões. Nenhum deles, sequer um pedaço deles, foi o mesmo depois daquilo tudo.
Mais do que sombras, que nas noites cortavam as avenidas sobre motos ferozes e motores envenenados; mais do que estrelas que furavam o céu ensolarado e as tardes quentes; circulavam pelas ruas da cidade como heróis rebelados.
Aqueles rapazes eram tudo o que qualquer um foi ou quis ter sido. Eles transpiravam vida. Condutas tortas. Qualquer um podia sentir, podia cheirar, podia ver.
Eles riam e debochavam enquanto o mundo todo desabava sobre suas cabeças. Vida, fúria, sonhos, ilusões, dores, doçuras, surpresas... Passados tristes e lembranças irritantes, que ficaram embargadas pelo meio da garganta. Um alucinante e poderoso bater de asas, a liberdade, a perda, as descobertas.
Naquelas noites intensas de verão, o tempo, e o medo, pareciam estagnados. Mortos. Só havia o som inquieto de uns corações desenfreados...
Eram todos sem freios. E que coisas ainda os esperavam... A felicidade é morrer em si mesmo, não é? Felicidade é matar um pouco de si, é descobrir a verdade. E eles nem se davam conta, procuravam tanto por ela, tontos como loucos, e nem percebiam que a felicidade era essa morte aí. Era morrer da mesma forma como eles achavam que, para eles, o tempo e as regras estavam mortos, é ignorar as ladainhas e deixar-se viver sem medo.


sábado, 30 de outubro de 2010

MANTENHA-SE NO RASO

Divido então o que sei: são todos jovens, são todos palavras, silêncios. Vazios que gritam no escuro, como almas que mal sabem o que os aguardam. Um dia após o outro, passo por passo, e ainda assim, querem engolir o mundo. É isso o que sei deles, e divido com quem quer que os queira. É pouco o que sei, sim, admito. Como já disse, nem os entendo completamente. Afinal, quem entende os jovens? Não eu.
Mas, de qualquer forma, mesmo sem conhecê-los por completo, sou o único que sabe sobre eles mais que o necessário. Se me concentrar... Se me concentrar, posso até sentir a dor deles. Seus pensamentos, seus sonhos, sono agitado, medos, pavores, palpitações. Eles balbuciam no meio da noite, choram baixinho, nem sabem, nem imaginam que são assim tão desprotegidos. Nem eu posso imaginar quanta desproteção há neles.
Mas, se decidi mesmo deixar que os conheçam, então é melhor que os apresente de uma vez. Eles ainda não são inteiros, mas são pedaços, fragmentos de tanta gente, de ninguém, de tudo e de muito. Eles são... Como posso dizer? São jovens, afinal. O que se espera de um jovem? Que seja raso, que seja profundo? Só o que posso dizer deles é que, bem, em grande parte, ninguém esteve muito disposto a compreendê-los. Ninguém perde tempo. Por mais nobre que possa soar perder tempo com pessoas, ninguém o faz de verdade. E é por isso que eles são assim, tão tortos, tão mal acabados. Mas a vida cuidou de esculpi-los e arrematar o que tinha sido criado, deixando-os assim tão vivos, tensos, vibrantes, palpitantes, intensos. Eles são uma parte de um todo, e um inteiro, um pedacinho caprichoso, e lindo, e estranho, incompreensível. Eles são pequenos, nem ocupam muito espaço, talvez suas balbúrdias assustem, mas os famosos hormônios os absolvem. O que posso dizer mais? Só o que sei é que de nada são rasos. Não. E sabe o que dizem sobre os lagos? Os mais calmos é que são os mais profundos. Você jamais chegará ao fundo deles. É escuro, silencioso, agudo, lotado de tudo...
Águas brandas escondem pensamentos profundos. Toda a juventude de uma época está aqui. Talvez falte o brilho de uma década, a polvorosidade de outra, quem sabe a rebeldia da de 80, ou as mudanças da de 60. Mas, estão aqui. Todos eles. Essa juventude que salpica como óleo quente, fervente, uma pulga atrás da orelha, um livro que teima em cair da estante. Bem, eles são um lago (aparentemente) raso e calmo, falsamente cristalino, no qual eu não me atreveria a ir muito fundo, pelo simples perigo de me afogar. Enrolar-me em algas ásperas. Eles são, afinal, lagos quentes e serenos que escondem aqueles segredos que só se conta a si mesmo. Eles vibram, retumbam. Silenciosamente. Estão todos aí, e, se não há muito o que fazer, então, leia-os.

domingo, 17 de outubro de 2010

AINDA TENHO MUITO A DIZER

Principalmente quando não digo nada. Quem sabe um gemido rouco, um grito ao alto, uma asa que corta o céu. Gosto quando sou só eu e o fundo, uma prisão infinita, um rasgo no mar de palavras não ditas, e que por enquanto permanecerão assim, silentes, mas não estagnadas.
Gosto do cheiro das palavras, gosto de tocá-las, de sentir o gosto delas na ponta da língua quando ainda nem sequer as mastiguei. Primeiro é sonho... O momento da antecipação.
Tenho ainda a dizer o que não digo. Tenho fundura, rastro, certeza, mil dúvidas, um eco. Grandezas proporcionais, o toque de um som, a sílaba que cai no hiato, e o verso que às não vem.
Então fico muda. Mudez improdutiva, estéril. Quando não consigo dizer no silêncio aquilo que tanto quero gritar. Dois silêncios diferentes, cada um, a seu modo, arrasador. E essa loucura de não poder dizer o que se sente!... De ser tão amigo das palavras silentes, tácito acordo, e quando se precisa delas, elas somem, fogem, escapulem (escapolem, escapulam?), escorregam naquele brinquedo da infância e vão para longe, onde não podemos alcançá-las, onde eu não posso alcançá-las, distante demais para lembrá-las, ou ainda longe demais que as não conheço.
E gosto desses silêncios. Prefiro o primeiro. Quando a minha voz me entende melhor do que entende todo o mundo ao redor que finge que sente algo que realmente não se diz, não se fala, mas carrega. Eu e o meu silêncio, assim, de lado, de banda, de acordo. Sou mais bela com ele.