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sábado, 15 de novembro de 2014

POEMA DO DESAMAR DORIDO ou UM AMOR BOSTA

Queria te superar como uma ameaça de resfriado, 
um breve adeus com a Coristina. 
Ou mesmo como uma dorzinha de cabeça no fim do expediente, 
curável com uma dose de sono e uma Neosaldina.

Mas vou te superando aos poucos, 
como uma dor de barriga 
com diarreia:

Sofro no processo. 
Te lembro de par em par de hora, 
com mal-estar.

Contudo, aos poucos, vou me limpando. 
E de explosão em explosão violenta 
de merdas mil variadas, chego lá 

Me curo. 
Seja nessa semana já 
ou na próxima.

sábado, 26 de abril de 2014

DRUMMOND

A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estreita, como se alargava.
Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres
em mim ressuscitados. Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.
Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

"saudades imortais"

"Eu ansioso pelo Sol, buscava 
Sacar daqueles livros que estudava 
Repouso (em vão!) à dor esmagadora 
Destas saudades imortais".

O CORVO

domingo, 16 de junho de 2013

quinta-feira, 23 de maio de 2013

quarta-feira, 17 de abril de 2013

SOLIDÃO

(Poeminha de um amigo só, que me deixou ser sozinha com ele)


Solidão


solidão

é uma senhora emboscada

com a inconsciência forte-mente armada

e pelo medo e a saudade acompanhada

solidão solidão é uma cilada

que no ego foi projetada

e na alma executada

Murilo Vieira Menezes

sábado, 17 de novembro de 2012

POMBOS GEMEDORES

Não sei se no pesadelo urbano existe som mais melancólico ou sinistro
do que o arrulhar noturno de um pombo à janela.

Penso que os pombos são corujas frustradas.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

QUEM SOU EU

Eu sou
um sinal na bochecha.
Eu sou
uma dentição mal-feita.
Eu sou
uma cabeleira rebelde.
Eu sou
pele peluda.
Eu sou
resquícios de textos.
Eu sou
um nariz de tubérculo.
Eu sou
dois olhos manchados.
Eu sou
manto estriado.
Eu sou
pés chatos.
Eu sou
o que fazes de mim.
Quando, na verdade,
não sou.


quinta-feira, 31 de maio de 2012

ELEVEN A.M.


Edward Hopper.
A mais nova descoberta.
Mais antigo que a solidão?
Nada.
Transposição.
O eu na terebentina.


terça-feira, 1 de maio de 2012

MEMÓRIA HUMANA

Quando a gente vai vivendo
Não sabe que vai vivendo
as nossas futuras lembranças.

E a gente vai vivendo
Na inocência de achar
Que cada momento dura
Eternamente
E não sabe que, de fato, o momento dura
Mas dura só na mente
Porque se torna lembrança rapidamente.

E a gente vai vivendo, sim
Achando que vai viver para sempre
E mal sabe que, no fim,
Tudo não passa de fragmentos...
Um poema...
Um cheiro...
Todos bem mortos no tempo
Só bem vivos na mente,
dentro da gente.

E a gente vai vivendo
Até que chega o momento
Que lembrança a gente também se torna
E forma lembranças na mente de nossa gente
E a gente e as nossas lembranças
Já não existem mais
Porque viramos a própria lembrança
Poeira
Areia
Silêncio.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O CORAÇÃO

O coração - é este músculo bizarro
Sem concreta definição
Sem razão de ser

À margem do corpo,
Alheio

Querendo, insistindo em existir por si próprio
E fazendo todos os demais órgãos
Pagarem o preço.

Daí vêm:
O fígado etílico, o cérebro congestionado, e os olhos cansados
De tanto chorar

E lábios cansados
De tanto franzir

E a língua cansada
De tentar reproduzir
palavras loucas, ditadas
(sem real tradução, sem possível correção)
pelo famigerado conturbado coração.


domingo, 22 de janeiro de 2012

A B

Nossa amizade começou aos trancos e barrancos
Tropeçando
Sem saber muito bem em que pé ficava

Ou será que foi silenciosa, macia, discreta?

Foi acidente

Ou estavámos destinados um ao outro?

Éramos duas almas dissonantes
Que acabaram formando uma curiosa sinfonia dúbia
Lá
Fá

Ou éramos mesmo
Duas peças específicas
De uma peça maior que toda a nossa maestria?

Não sei, não sei
O que sei é que houve momentos em que ela brecou
Engolfou
Correu
Suspirou
Respirou mansinha
Então sobreveio
Subiu
Desceu
E está aqui, agora
Nossa cifra pessoal
Sem saber como será o próximo instante

Mas, afinal,
Acho que nossa amizade é, na verdade, um Sol menor
Dos muitos sóis que ainda estão por vir

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O AMOR

Para Laura Costa Ribeiro

De repente descubro que ainda é possível ser mais feliz
E mais triste
Ao mesmo tempo

De repente descubro que
Inevitavelmente
Você vai me arrancar lágrimas o tempo todo

Você vai bater em mim,
Vai gritar
E vai chorar também

Mas, quando você não estiver chorando por minha causa
E quando eu não estiver chorando por sua causa
E ainda assim você estiver chorando

Saiba que eu
E só eu
Vou te entender

Eu
E só eu
Vou te abraçar
E sem perguntar o por quê

Eu
E só eu
Vou te amar naquele momento
Sem esperar nada em troca

Eu vou te embalar no meu colo
Vou te acalentar
Te pedir, não chore

E você vai saber o quanto eu te amo
E vai voltar a ser aquela menininha
Que me pedia colo sem saber por quê
E me pedia pipoca
Mesmo sem estar com fome

E eu vou saber que apesar de tão triste
Você me fez
A pessoa mais completa do mundo

E então, mergulhadas em lágrimas,
Eu vou enrolar meus dedos nos seus cachinhos
Vou cheirar suas axilas
Relembrar os velhos tempos
Em que te ensinei a dizer "asqueroso!"

E você vai saber que me fez
A pessoa mais feliz do mundo

O nosso mundo

Eu te amo.

MOLHADO

Uma gota de chuva no asfalto
Semáforo fechado
Caso encerrado
Fim.

Um gato a se lamber no tapete
Lúgubre casa
E duas línguas quentes
A se amarem no escuro...

Eu sei o que está acontecendo
É de novo aquela tempestade
Aquele período interminável
De longas saudades de nada
De versos sem métrica
Sem rima
De poesias descabidas
De paixonites não saradas

domingo, 19 de dezembro de 2010

DE NOITINHA

O vento quente na noite fria
O vento frio na noite quente
Árvores que sussurram na noite vazia
Um gole em seco na rua escura

A fria noite de noite crua
Um sussurro pesado de meias palavras
Coruja branca na noite sem lua
Um peito pesado de frases não ditas

Um mar de estrelas desiludidas
Silêncio, silêncio, silêncio
É noite, é noite, tão noite que dói

E explode no céu então o sol de alegria
Um riso abafado
Um pulo sem fardo

E um poema assim, tão inacabado!...

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

BUROCRACIA

No meio do processo tinha um entrave
Tinha um entrave no meio do processo
Tinha um embargo
No meio do processo tinha um embargo
Nunca me esquecerei de mais este estorvo
Na minha vida de petições estagnadas
Nunca me esquecerei que no meio do processo
Tinha um percalço
Tinha um embargo no meio do processo
No meio do processo tinha um percalço

segunda-feira, 19 de julho de 2010

POEMINHA PARA UMA AMIGUINHA

Claudinha, como eu já disse, te acho bonitinha
Você tem essa mania tão engraçadinha de rir até querer fazer xixi nas calças
E eu gosto muitíssimo de convesar com você na escolinha
Pena que estamos de férias, amiguinha
Porque eu queria te ouvir falar sobre aquele seu amor, o cara de fuinha
Gosta tanto dele, coitadinha...
Mas, amiguinha, eu é que te amo!
Sinto uma saudadezinha tão grande nesta época do ano, em que você faz falta gigante
Agora te mando um beijinho,
Para coroar meus versos tão camonianos
E digo que, por mais que passem os anos,
Ainda seremos eu e você
Se ningúém mais houver
Se ninguém mais ouvir
E ninguém mais quiser
ser
parte integrante de nós.
Porque só a gente basta. E nada.
Um poeminha.