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sexta-feira, 13 de março de 2015
SOÇOBRO
Tudo o que eu tenho guardado num porta-joia de pérolas são escamas, ásperas. Arranquei-as contra a vontade do peixe. Sufoquei-o com uma moeda de prata. Não era a mesma moeda e nem era o mesmo peixe do Evangelho. Era um dobrão de intenções todas perversas, nele lavradas. O peixe morto voltou ao mar e eu fiquei com as mãos cortadas, com a água pairando à altura dos artelhos, e cabelos molhados como que feitos de algas azuis e enxofre. E quando me dei conta era na minha glote que a moeda girava, fincada, e nos meus olhos é que as escamas como garras se escondiam. Esta terá sido no futuro do meu passado a crônica dos meus amores, esfacelados, descrita nos pergaminhos indeléveis de aço cromado cheirando a peixe. Escamas frágeis que fingi joias. A coleção completa esquecida dentro da caixinha de pérolas silenciada na gaveta da escrivaninha Luís XVI do antiquário da rua Campo Amor que negocia agora nenúfares porque no futuro se descobriu que nós do século superado havíamos entendido errado todo o conceito do que tem valor.
sábado, 15 de novembro de 2014
POEMA DO DESAMAR DORIDO ou UM AMOR BOSTA
Queria te superar como uma ameaça de resfriado,
um breve adeus com a Coristina.
Ou mesmo como uma dorzinha de cabeça no fim do expediente,
curável com uma dose de sono e uma Neosaldina.
Mas vou te superando aos poucos,
como uma dor de barriga
com diarreia:
Sofro no processo.
Te lembro de par em par de hora,
com mal-estar.
Contudo, aos poucos, vou me limpando.
E de explosão em explosão violenta
de merdas mil variadas, chego lá
Me curo.
Seja nessa semana já
ou na próxima.
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
VAGABUNDAMENTE
Que eu tenho um coração vagabundo, que se rende fácil e se vende por qualquer trocado de afeto, isso lá não é novidade. Agora, ainda mais, veio essa vontade tonta de fazer besteira. De enlouquecer, de gritar, de me revirar. Vontade endoidante de não ser mais eu, mas ser eu sendo outra. Outro ser, outra coisa que desconheço - sem limites, sem pudores.
Minha mente dá corda à vontade... Devaneia.
Meu coração, porém, é muito mais prudente do que minha razão.
A minha razão dá razão ao corpo - ele quer e pronto, está com a razão!
Mas meu coração é prudente, vai me freiando. Meu coração é prudente porque tem medo.
Então não é ele que se vagabundeia... Quem vaga por aí sem dona é minha mente: danada!
Só agora conheço realmente meu coração. É fraco, pobre e só, mas tão convicto de ideais românticos que foi catando pelo lixo, que nem a minha perigosa mente sabe demovê-lo.
Ah, mas tenta...
Aprendi, afagando-os igualmente, a contê-los. A suportá-los, pelo menos. Minha cabeça e meu coração. Afinal, todos os dias, em todos os segundos, frenéticos, cá estamos, delirando ou temendo.
Os dois não se entendem. Eu observo. Que espécie de loucura é esta em que não tenho voz dentro de mim mesma? Eu sou eu mas só observo. Quem é eu e quem me faz é meu coração. Medroso, medrosinho... Infeliz, melancólico e inseguro. Muito, muito sério. Suspira às vezes, porém. E é nesses momentos que a minha cabeça desajustada quer reinar. Sorte é que meu coração não deixa: tem medo.
E eu vivo nessa prisão feita de artérias e neurônios. Meus mais refinados músculo e órgão brigam entre si e minhas entranhas sofrem, retorcidas. E eu, onde estou? Perdida por aqui por dentro... Observadora neutra, sofrida. Sou ping pong dos meus desejos e dos meus freios. Sou a maldita bola. Não consuma ponto algum porque o coração não deixa. Mas, veja só, ainda assim, está no jogo!
Minha mente me arma armadilhas... E mesmo desistir do jogo seria dar a essa cabeça sacana e despirocada uma vitória bastante satisfatória. Ela me olharia, a minha mente, e debocharia de mim, que não perdi nem venci, só deixei de brincar, eu amorfa, seca e paralisada.
Eu até me uniria a meu coração, para derrotá-la de vez. Mas é que meu coração só tem medo, só medo. E viver pelo medo é pior do que não viver absolutamente. Então estou assim: não vivente. No limite, na tensão, na fronteira entre ceder àquilo que quer minha mente e resistir ao que afronta meu coração.
Minha mente dá corda à vontade... Devaneia.
Meu coração, porém, é muito mais prudente do que minha razão.
A minha razão dá razão ao corpo - ele quer e pronto, está com a razão!
Mas meu coração é prudente, vai me freiando. Meu coração é prudente porque tem medo.
Então não é ele que se vagabundeia... Quem vaga por aí sem dona é minha mente: danada!
Só agora conheço realmente meu coração. É fraco, pobre e só, mas tão convicto de ideais românticos que foi catando pelo lixo, que nem a minha perigosa mente sabe demovê-lo.
Ah, mas tenta...
Aprendi, afagando-os igualmente, a contê-los. A suportá-los, pelo menos. Minha cabeça e meu coração. Afinal, todos os dias, em todos os segundos, frenéticos, cá estamos, delirando ou temendo.
Os dois não se entendem. Eu observo. Que espécie de loucura é esta em que não tenho voz dentro de mim mesma? Eu sou eu mas só observo. Quem é eu e quem me faz é meu coração. Medroso, medrosinho... Infeliz, melancólico e inseguro. Muito, muito sério. Suspira às vezes, porém. E é nesses momentos que a minha cabeça desajustada quer reinar. Sorte é que meu coração não deixa: tem medo.
E eu vivo nessa prisão feita de artérias e neurônios. Meus mais refinados músculo e órgão brigam entre si e minhas entranhas sofrem, retorcidas. E eu, onde estou? Perdida por aqui por dentro... Observadora neutra, sofrida. Sou ping pong dos meus desejos e dos meus freios. Sou a maldita bola. Não consuma ponto algum porque o coração não deixa. Mas, veja só, ainda assim, está no jogo!
Minha mente me arma armadilhas... E mesmo desistir do jogo seria dar a essa cabeça sacana e despirocada uma vitória bastante satisfatória. Ela me olharia, a minha mente, e debocharia de mim, que não perdi nem venci, só deixei de brincar, eu amorfa, seca e paralisada.
Eu até me uniria a meu coração, para derrotá-la de vez. Mas é que meu coração só tem medo, só medo. E viver pelo medo é pior do que não viver absolutamente. Então estou assim: não vivente. No limite, na tensão, na fronteira entre ceder àquilo que quer minha mente e resistir ao que afronta meu coração.
domingo, 20 de abril de 2014
FROLIC
A carne acabou ficando muito salgada e por isso imprestável, a solução foi jantar a sobremesa. Um prato assim enorme de brigadeiro e dois adultos ridiculamente rendidos a um prazer tão adolescente. E há idade para isso?
Duas colheres duelavam no campo de batalha, indo pelas beiradas, que era onde estavam as melhores partes, as casquinhas queimadas. Estranho que a disputa não fosse pelo meio, e sim pelas bordas. É que nós dois gostávamos de tudo quanto fosse marginal, porque terminava mais gostoso, crescendo à mercê do capricho, da rebeldia, da liberdade de não ser o centro da atenção.
Na época dessa janta, se fazia amor ouvindo Phoenix, e isso era uma coisa para lá de boa. Interromper pra ir trocar o CD. Importante era durar. Era a experiência toda, não o ponto final o ponto mais importante. Bem, talvez fosse e estou mentindo só para deixar bonito e impraticável.
Mas aí então no final depois de tudo consumado e a última faixa ter silenciado ainda ficavam os ecos das canções na nossa cabeça, porque foram experimentadas à exaustão e até o fim da margem do delírio, que é a doce queda. Daí depois a gente assim cantarolava os refrões trocados, ia fundindo os primeiros trechos e depois imitava com a boca aos risos o solinho havaiano de Branco em Lasso. O brilho frólico no rosto na manhã seguinte se lia e já se sabia: fez ouvindo Phoenix.
Mas nas jantas daquela época também tinha outras coisas...
Agora não lembro.
Talvez a gente conversasse bastante e profundamente, mas no final eram tudo besteiras.
Houve aquele fim de semana em que eu não soube mais o que dizer e de repente ficou assim estranho, mas um estranho bom. Era provavelmente o passo à intimidade. Vai-se descuidando das palavras, os silêncios ficam mais significativos, silêncios, só te tocar, e sorrir, a não necessidade de se conhecer. Para quê? Já se conhece. Até o cravo já se tirou.
Toda vez que eu olhava para aquele pontinho preto na margem inalcançável da bochecha, mais assim pra perto da orelha, dava uma vontade danada de enfiar as duas unhas e espremer sem dó! Não. Ainda não havia jeito: não éramos ainda tão ligados. Ainda do clube da porta do banheiro fechada e a luz do quarto apagada, mas o abajur, porque mostra encobrindo. Até que um dia só fiz me aproximar e fiz. Saiu a cobrinha branca e ele foi todo nojo e caretas e eu naquele prazer da asquerosa missão cumprida sem qualquer afetação. Depois nem lembramos, não restou vergonhas: deu certo e era já o império do silêncio íntimo.
Que mais? Amei tão ardorosamente que agora ainda lembro como foi difícil separar os discos quando foi preciso se separar. Sem brigas ou rancores, era só mais um passo na vida e eu odiei a vida e me embebedei loucamente sem entender que se não quisesse era só não ir, não viajar, era ficar, ou levar junto, que fosse. O clichê se mostrou verdadeiro. O clichê é cada vez menos clichê agora porque não há mais quem compre discos e CDs. Eu ainda tenho os meus e ele ainda tem os deles e na hora de a gente dividir a divisão foi tão certa que eu me pego às vezes pensando que deveria ter deixado lá meu álbum favorito só para ter motivos de rancor. Mas não tenho. Às vezes quero voltar, jantar miojo e brigadeiro. Cruzar as quatro pernas, meias no falso frio da noite, conversar na penumbra da sala tomando vinho barato porque sim, é gostoso. Mas isso não se faz com uma criatura aqui e a outra criatura lá no apartamentozinho tão charmoso porque então ainda era marginal ter um apartamento charmoso num bairro deplorável e a vida foi tão boa e simples que agora eu me pergunto qual a necessidade de mudar os móveis de lugar e tomar decisões assim na vida que estava tão boa, e foi uma vida boa sem deixar de ser boa nunca até o momento em que, espera!, vamos parar. Doeu quando tirou a barba e foi tipo isso mil vezes mais e regado a uísque contrabandeado do senhorio do novo prédio nesse novo país estranho e desconfortável.
Duas colheres duelavam no campo de batalha, indo pelas beiradas, que era onde estavam as melhores partes, as casquinhas queimadas. Estranho que a disputa não fosse pelo meio, e sim pelas bordas. É que nós dois gostávamos de tudo quanto fosse marginal, porque terminava mais gostoso, crescendo à mercê do capricho, da rebeldia, da liberdade de não ser o centro da atenção.
Na época dessa janta, se fazia amor ouvindo Phoenix, e isso era uma coisa para lá de boa. Interromper pra ir trocar o CD. Importante era durar. Era a experiência toda, não o ponto final o ponto mais importante. Bem, talvez fosse e estou mentindo só para deixar bonito e impraticável.
Mas aí então no final depois de tudo consumado e a última faixa ter silenciado ainda ficavam os ecos das canções na nossa cabeça, porque foram experimentadas à exaustão e até o fim da margem do delírio, que é a doce queda. Daí depois a gente assim cantarolava os refrões trocados, ia fundindo os primeiros trechos e depois imitava com a boca aos risos o solinho havaiano de Branco em Lasso. O brilho frólico no rosto na manhã seguinte se lia e já se sabia: fez ouvindo Phoenix.
Mas nas jantas daquela época também tinha outras coisas...
Agora não lembro.
Talvez a gente conversasse bastante e profundamente, mas no final eram tudo besteiras.
Houve aquele fim de semana em que eu não soube mais o que dizer e de repente ficou assim estranho, mas um estranho bom. Era provavelmente o passo à intimidade. Vai-se descuidando das palavras, os silêncios ficam mais significativos, silêncios, só te tocar, e sorrir, a não necessidade de se conhecer. Para quê? Já se conhece. Até o cravo já se tirou.
Toda vez que eu olhava para aquele pontinho preto na margem inalcançável da bochecha, mais assim pra perto da orelha, dava uma vontade danada de enfiar as duas unhas e espremer sem dó! Não. Ainda não havia jeito: não éramos ainda tão ligados. Ainda do clube da porta do banheiro fechada e a luz do quarto apagada, mas o abajur, porque mostra encobrindo. Até que um dia só fiz me aproximar e fiz. Saiu a cobrinha branca e ele foi todo nojo e caretas e eu naquele prazer da asquerosa missão cumprida sem qualquer afetação. Depois nem lembramos, não restou vergonhas: deu certo e era já o império do silêncio íntimo.
Que mais? Amei tão ardorosamente que agora ainda lembro como foi difícil separar os discos quando foi preciso se separar. Sem brigas ou rancores, era só mais um passo na vida e eu odiei a vida e me embebedei loucamente sem entender que se não quisesse era só não ir, não viajar, era ficar, ou levar junto, que fosse. O clichê se mostrou verdadeiro. O clichê é cada vez menos clichê agora porque não há mais quem compre discos e CDs. Eu ainda tenho os meus e ele ainda tem os deles e na hora de a gente dividir a divisão foi tão certa que eu me pego às vezes pensando que deveria ter deixado lá meu álbum favorito só para ter motivos de rancor. Mas não tenho. Às vezes quero voltar, jantar miojo e brigadeiro. Cruzar as quatro pernas, meias no falso frio da noite, conversar na penumbra da sala tomando vinho barato porque sim, é gostoso. Mas isso não se faz com uma criatura aqui e a outra criatura lá no apartamentozinho tão charmoso porque então ainda era marginal ter um apartamento charmoso num bairro deplorável e a vida foi tão boa e simples que agora eu me pergunto qual a necessidade de mudar os móveis de lugar e tomar decisões assim na vida que estava tão boa, e foi uma vida boa sem deixar de ser boa nunca até o momento em que, espera!, vamos parar. Doeu quando tirou a barba e foi tipo isso mil vezes mais e regado a uísque contrabandeado do senhorio do novo prédio nesse novo país estranho e desconfortável.
sexta-feira, 19 de julho de 2013
SEMPRE ELA... FLORBELA
O amor dum homem? - Terra tão pisada!
Gota de chuva ao vento baloiçada...
Um homem? - Quando eu sonho o amor dum deus!...
Gota de chuva ao vento baloiçada...
Um homem? - Quando eu sonho o amor dum deus!...
domingo, 16 de junho de 2013
ACERCA DO FULMINANTE SILENTE
Amo - e com tal vigor,
mas com tal silêncio,
que por vezes muito mais sofro.
mas com tal silêncio,
que por vezes muito mais sofro.
domingo, 10 de março de 2013
O GRANDE GATSBY + UP CLOSE AND PERSONAL
Terminei de ler "O grande Gatsby" (que, por sinal, gostei muito, apesar de a leitura ter começado um tanto arrastada), e fiquei com aquele gostinho na boca e na mente... Imediatamente após, fui fuçar sobre as versões cinematográficas. Nessas andanças pela internet, descobri que vão levá-lo de novo às telas agora em 2013, parece que em abril, com nosso imortal Tobey Homem-Aranha no papel de Nick, o narrador do livro, e ninguém menos que DiCaprio como o grande Gatsby. Parece-me que a Daisy será interpretada pela atriz que fez a irmã de Michael Fassbender em "Shame". O trailer é promissor.
Tudo isso só aguçou ainda mais meu interesse pela obra, então fui assistir à versão de "O grande Gatsby" de 1974, em que Robert Redford interpreta o personagem principal, e Mia Farrow, a mocinha. Não gostei muito da performance dela. Apesar de o livro ter seus personagens construídos com aquele teor performático, como caricaturas da própria época, em que os diálogos muitas vezes parecem surreais, impenetráveis, ou absurdamente frívolos - características literárias admiráveis, pois décadas depois ainda conseguimos saborear nesses diálogos o gosto apurado da ironia e mordacidade com que Fitzgerald tratou sua época, e o próprio estilo de vida que, mesmo criticando tão refinadamente, ele e a esposa perseguiram em toda a vida -, não gostei absolutamente da interpretação de Mia Farrow.
Poderia desenrolar um milhão de argumentos para atestar o que estou dizendo, mas acho que o que mais me aporrinhou foi o fato de ela não transmitir em nada uma das características mais marcantes de Daisy Buchanan: a voz. Aquela voz que, nas palavras dos próprios personagens, estava cheia de dinheiro. E, em outras passagens, uma voz sedutora, encantatória, para não dizer etérea. Enfim, uma voz com algo especial, uma entonação mais rouca, pausada, ou suave... Talvez como a voz da atriz que interpretou Jordan, enquanto que o timbre de Mia Farrow só me fazia pensar: "Cale a bendita boca!". Ela soava estridente e artificial sempre (como é possível?!), e talvez fosse a intenção, mas desvirtuar o maior traço da personagem do livro assim não me agradou em nada. Eu queria uma voz que me fizesse entender um pouco dessa "magia" que pairava ao redor de Daisy, e não simplesmente a voz de alguém que mal pode ser ouvida por seres humanos. Nada contra a Mia, que, ironia das ironias, tem uma voz doce e suave em todos os outros filmes. Ah, sei lá... Não sou graduada em vozes.
Contudo, em compensação, eu não poderia pensar em um melhor ator para encarnar Nick Carraway. E preciso dizer que me apaixonei por Nick? Tanto em sua exacerbada condescendência, o que muitas vezes o conduziu à omissão e, eventualmente, ao erro (mas ele estava justificado devidamente desde o início, ao afirmar que era muito cauteloso ao julgar as pessoas, preferindo dar seu voto de confiança a qualquer um, indistintamente, até as últimas consequências, esperando pelo momento quando enfim sua longa paciência se esgotaria e sua estima fosse perdida para sempre), quanto em sua extremada lealdade. Gostei de tudo a respeito dele, até do que não deveria inspirar paixão. Tanto o personagem literário, em sua essência invisível, mas bem palpável na página do livro, quanto do personagem na tela, andando, falando, pensando, bebendo. Impressionou-me ainda a precisão com que imaginei um Nick Carraway muito semelhante ao ator da versão de 1974, com a diferença dos cabelos, que em minha mente eram um pouco mais claros. Enfim, tolices de leitor.
Voltando ao próprio Gatsby. Após ver o filme, me senti inspirada e inclinada a caçar um pouco mais de Redford. Tudo o que eu já tinha visto dele se reduzia muito provavelmente a três títulos: "Nosso amor de ontem", "Proposta indecente" e "Butch Cassidy & The Sundance Kid". E como eu estava muito impregnada do surrealismo apavorante de David Lynch, e outros filmes ditos "mais sérios", "mais profundos", pensei em pescar por aí algum filme do Robert Redford em que ele estivesse em pele de galã e pronto para me arrancar suspiros. Acho este homem tão bonito - e não sou muito de admirar belezas óbvias, vou mais pela via do "é charmoso em sua estranheza", mas abro exceção ao Redford -, que chega a me dar até vontades de chorar. Pois então, eu buscava algo dele que fosse um meio-termo entre uma comédia-romântica e um filme profundo, que me fizesse sonhar e refletir, mas sem me jogar no abismo dos contos de fada, ou no outro abismo do drama e das depressões suicidas.
Fui ao Filmow (rede social que, por sinal, me faz mais feliz e satisfeita que todas as outras, quase se equiparando ao finado Orkut) e, olhando pôster por pôster da filmografia do Redford, achei este título, escrito sobre uma linda cena azulada: "Up close and personal". Achei promissor. Lancei-me ao desafio...
... Não me decepcionei em nada!!! E como as demandas para esse filme não estavam tão altas assim, meu horizonte de expectativa foi superado com maestria! E adivinhem quem que o personagem do grande Redford cita numa das passagens do filme? Scott Fitzgerald! Scott Fitzgerald, sim, e sua máxima recorrente sobre a voz que soa como dinheiro!... Por sinal, também já citada aqui.
Era o que eu estava precisando, esse filme... Não muito bobo, mas também não absurdamente sério e pretensioso, filme para entrar em minha humilde lista dos favoritos e ocupar minha mente com uma linda história persistente. Gostei bastante. Normalmente não me cativa a Michelle Pfeiffer, mas achei-a ótima nesse filme. Agora são dois que me aprazem: Esse e "Nunca é tarde para amar", com meu querido Paul Rudd.
Enfim, tudo isso para dizer que tomei uma overdose de Robert Redford, e morreria feliz.
Tudo isso só aguçou ainda mais meu interesse pela obra, então fui assistir à versão de "O grande Gatsby" de 1974, em que Robert Redford interpreta o personagem principal, e Mia Farrow, a mocinha. Não gostei muito da performance dela. Apesar de o livro ter seus personagens construídos com aquele teor performático, como caricaturas da própria época, em que os diálogos muitas vezes parecem surreais, impenetráveis, ou absurdamente frívolos - características literárias admiráveis, pois décadas depois ainda conseguimos saborear nesses diálogos o gosto apurado da ironia e mordacidade com que Fitzgerald tratou sua época, e o próprio estilo de vida que, mesmo criticando tão refinadamente, ele e a esposa perseguiram em toda a vida -, não gostei absolutamente da interpretação de Mia Farrow. Poderia desenrolar um milhão de argumentos para atestar o que estou dizendo, mas acho que o que mais me aporrinhou foi o fato de ela não transmitir em nada uma das características mais marcantes de Daisy Buchanan: a voz. Aquela voz que, nas palavras dos próprios personagens, estava cheia de dinheiro. E, em outras passagens, uma voz sedutora, encantatória, para não dizer etérea. Enfim, uma voz com algo especial, uma entonação mais rouca, pausada, ou suave... Talvez como a voz da atriz que interpretou Jordan, enquanto que o timbre de Mia Farrow só me fazia pensar: "Cale a bendita boca!". Ela soava estridente e artificial sempre (como é possível?!), e talvez fosse a intenção, mas desvirtuar o maior traço da personagem do livro assim não me agradou em nada. Eu queria uma voz que me fizesse entender um pouco dessa "magia" que pairava ao redor de Daisy, e não simplesmente a voz de alguém que mal pode ser ouvida por seres humanos. Nada contra a Mia, que, ironia das ironias, tem uma voz doce e suave em todos os outros filmes. Ah, sei lá... Não sou graduada em vozes.
Contudo, em compensação, eu não poderia pensar em um melhor ator para encarnar Nick Carraway. E preciso dizer que me apaixonei por Nick? Tanto em sua exacerbada condescendência, o que muitas vezes o conduziu à omissão e, eventualmente, ao erro (mas ele estava justificado devidamente desde o início, ao afirmar que era muito cauteloso ao julgar as pessoas, preferindo dar seu voto de confiança a qualquer um, indistintamente, até as últimas consequências, esperando pelo momento quando enfim sua longa paciência se esgotaria e sua estima fosse perdida para sempre), quanto em sua extremada lealdade. Gostei de tudo a respeito dele, até do que não deveria inspirar paixão. Tanto o personagem literário, em sua essência invisível, mas bem palpável na página do livro, quanto do personagem na tela, andando, falando, pensando, bebendo. Impressionou-me ainda a precisão com que imaginei um Nick Carraway muito semelhante ao ator da versão de 1974, com a diferença dos cabelos, que em minha mente eram um pouco mais claros. Enfim, tolices de leitor.
Voltando ao próprio Gatsby. Após ver o filme, me senti inspirada e inclinada a caçar um pouco mais de Redford. Tudo o que eu já tinha visto dele se reduzia muito provavelmente a três títulos: "Nosso amor de ontem", "Proposta indecente" e "Butch Cassidy & The Sundance Kid". E como eu estava muito impregnada do surrealismo apavorante de David Lynch, e outros filmes ditos "mais sérios", "mais profundos", pensei em pescar por aí algum filme do Robert Redford em que ele estivesse em pele de galã e pronto para me arrancar suspiros. Acho este homem tão bonito - e não sou muito de admirar belezas óbvias, vou mais pela via do "é charmoso em sua estranheza", mas abro exceção ao Redford -, que chega a me dar até vontades de chorar. Pois então, eu buscava algo dele que fosse um meio-termo entre uma comédia-romântica e um filme profundo, que me fizesse sonhar e refletir, mas sem me jogar no abismo dos contos de fada, ou no outro abismo do drama e das depressões suicidas.
Fui ao Filmow (rede social que, por sinal, me faz mais feliz e satisfeita que todas as outras, quase se equiparando ao finado Orkut) e, olhando pôster por pôster da filmografia do Redford, achei este título, escrito sobre uma linda cena azulada: "Up close and personal". Achei promissor. Lancei-me ao desafio...... Não me decepcionei em nada!!! E como as demandas para esse filme não estavam tão altas assim, meu horizonte de expectativa foi superado com maestria! E adivinhem quem que o personagem do grande Redford cita numa das passagens do filme? Scott Fitzgerald! Scott Fitzgerald, sim, e sua máxima recorrente sobre a voz que soa como dinheiro!... Por sinal, também já citada aqui.
Era o que eu estava precisando, esse filme... Não muito bobo, mas também não absurdamente sério e pretensioso, filme para entrar em minha humilde lista dos favoritos e ocupar minha mente com uma linda história persistente. Gostei bastante. Normalmente não me cativa a Michelle Pfeiffer, mas achei-a ótima nesse filme. Agora são dois que me aprazem: Esse e "Nunca é tarde para amar", com meu querido Paul Rudd.
Enfim, tudo isso para dizer que tomei uma overdose de Robert Redford, e morreria feliz.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
DESCREVER O QUE NÃO SE SENTE
A escrita nos abre milhões de janelas que só mesmo a imaginação pode construir. Uma dessas janelas abertas chama-se "experiência". Porque experiência não diz respeito necessariamente àquilo que se experimentou em vivência - ou seja, o que foi táctil, o que foi palpável, filtrado pelos sentidos mais físicos -, mas sim diz respeito a tudo aquilo que se pode degustar em espírito, com a mente. A palavra então traz esse mundo de areia construído sobre rochas de vento para a plataforma de papel - ou eletrônica, ou calçada, ou troncosa, o que seja!
Experimentar não é viver no corpo somente, mas também vivenciar dentro de um processo de pensamento completo, e tornar ainda mais sólido através da palavra. Descrever o que não se sente, descrever o frêmito, o arrepio, o toque. Dedos invisíveis que deslizam pela derme como um trem sem destino e sem pressa. Olhos que rolam preguiçosamente e com carinho sobre a pele que cheira a Nivea. Sorrisos que se insinuam porque o toque é bom. Dedos que, após o caminho, se entrelaçam. E os pelos dos braços ouriçados, e os pelos das pernas tolhidos pelo jeans. A mão agora atada em outra que sobe novamente pelo ombro macio e alcança a face que se cora, coraliza. E pula outra vez a bochecha num sorriso desses meigos de fazer o coração gelar e ferver ao mesmo tempo. E o sorriso de resposta, dono do toque-ouriço, tem a barba por fazer e espeta, mas é delícia. Roça no pescoço, dizer cangote é mais gostoso, aconchega-se naquele canto que a gente chama "curva dos enamorados", a pele macia, o vão entre nuca e clavícula, e cheira bom.
Chega mais perto, olhos nos olhos, eles se têm capturados. Quem dirá daqui a um ano, dois, dez...? Mas, que importa isso agora? Olha só como se olham, olhos nos olhos, e o acanhamento de finalmente se flagrar assim tão apaixonado, mas tão, que o termo perde o sentido, fica vagando desconexo entre duas almas e dois corpos que se querem bem mais do que precisam de espaço, tempo, ar. E, achegados, assim, de mansinho, vagarzinho, esse olhos nos olhos e dedos nos dedos, forte, porque o compromisso agora se mostrou em toda a sua proporção monumental, são as barrigas que se chocam, as respirações no compasso do descompasso, vem de novo, toma os lábios, e estes se abrem, e se achegam também.
E posso não estar vendo ou provando a cena, mas sei que acontece, porque se materializa em minha mente, escorre por essas paredes tão vazias, tão cheias de tudo, e então vêm pelo córrego direito, fazem a curva ao pé do leito miocárdio o outro extremo esquerdo, então desaguam pela mão destra, fazem seu caminho rumo a um texto tão bem, tão sem razão, que sua única certeza é ser brutalmente real, brutalmente sentido, mesmo não sendo.
Experimentar não é viver no corpo somente, mas também vivenciar dentro de um processo de pensamento completo, e tornar ainda mais sólido através da palavra. Descrever o que não se sente, descrever o frêmito, o arrepio, o toque. Dedos invisíveis que deslizam pela derme como um trem sem destino e sem pressa. Olhos que rolam preguiçosamente e com carinho sobre a pele que cheira a Nivea. Sorrisos que se insinuam porque o toque é bom. Dedos que, após o caminho, se entrelaçam. E os pelos dos braços ouriçados, e os pelos das pernas tolhidos pelo jeans. A mão agora atada em outra que sobe novamente pelo ombro macio e alcança a face que se cora, coraliza. E pula outra vez a bochecha num sorriso desses meigos de fazer o coração gelar e ferver ao mesmo tempo. E o sorriso de resposta, dono do toque-ouriço, tem a barba por fazer e espeta, mas é delícia. Roça no pescoço, dizer cangote é mais gostoso, aconchega-se naquele canto que a gente chama "curva dos enamorados", a pele macia, o vão entre nuca e clavícula, e cheira bom.
Chega mais perto, olhos nos olhos, eles se têm capturados. Quem dirá daqui a um ano, dois, dez...? Mas, que importa isso agora? Olha só como se olham, olhos nos olhos, e o acanhamento de finalmente se flagrar assim tão apaixonado, mas tão, que o termo perde o sentido, fica vagando desconexo entre duas almas e dois corpos que se querem bem mais do que precisam de espaço, tempo, ar. E, achegados, assim, de mansinho, vagarzinho, esse olhos nos olhos e dedos nos dedos, forte, porque o compromisso agora se mostrou em toda a sua proporção monumental, são as barrigas que se chocam, as respirações no compasso do descompasso, vem de novo, toma os lábios, e estes se abrem, e se achegam também.
E posso não estar vendo ou provando a cena, mas sei que acontece, porque se materializa em minha mente, escorre por essas paredes tão vazias, tão cheias de tudo, e então vêm pelo córrego direito, fazem a curva ao pé do leito miocárdio o outro extremo esquerdo, então desaguam pela mão destra, fazem seu caminho rumo a um texto tão bem, tão sem razão, que sua única certeza é ser brutalmente real, brutalmente sentido, mesmo não sendo.
sábado, 9 de junho de 2012
NÃO SE DESAMA DANDO UM MERO TCHAU
Porque deixar de amar não é normal...
A sabedoria musical é incrível. Ensinando um mundo com apenas um verso.
Muitas vezes, independentemente de qual canção se trate, você de repente se depara com uma verdadeira pérola da essência e experiência humana...
Penso, na verdade não só eu, afinal, é um fato conhecido por pessoas sábias e conscientes, que o amor não é essa coisa despretensiosa e à-toa que muita gente sente, julgando ser válido, como se se pudesse amar movido por forças estranhas e oscilantes, morríveis a qualquer momento. O amor não é isso, é claro que não. Não assim - descartável. Coisa aleatória e descartável. O amor não. E, de fato, deixar de amar não é normal. Porque se você escolhe amar alguém, a tendência é que seja uma atitude definitiva, não? É um paradoxo pensar num amor que acaba, que se extingue. Estamos falando de amor como tem que ser. Dificilmente alcançado, mas possível. Porque pessoas capazes de entendê-lo existem sim.
Enfim, a infinitude do amor já está contida nele mesmo. É idiotizante supor que o "produto" vem com prazo de validade. Mais triste ainda é comprá-lo vencido. A mercadoria então era falsa.
O ponto é: admirável essa sapiência musical que paira ao redor de nós e na qual poucas vezes reparamos. Como uma espécie de cérebro que maquina a lógica das palavras por trás das rimas, e que existe independente de quem as executa ou como as executa. Parece uma instituição autônoma, que planta suas profundas considerações nas músicas que bem lhe aprouver, falando a nossas almas e mentes de maneira tão deliciosamente misteriosa e bem traduzida!...
A sabedoria musical é incrível. Ensinando um mundo com apenas um verso.
Muitas vezes, independentemente de qual canção se trate, você de repente se depara com uma verdadeira pérola da essência e experiência humana...
Penso, na verdade não só eu, afinal, é um fato conhecido por pessoas sábias e conscientes, que o amor não é essa coisa despretensiosa e à-toa que muita gente sente, julgando ser válido, como se se pudesse amar movido por forças estranhas e oscilantes, morríveis a qualquer momento. O amor não é isso, é claro que não. Não assim - descartável. Coisa aleatória e descartável. O amor não. E, de fato, deixar de amar não é normal. Porque se você escolhe amar alguém, a tendência é que seja uma atitude definitiva, não? É um paradoxo pensar num amor que acaba, que se extingue. Estamos falando de amor como tem que ser. Dificilmente alcançado, mas possível. Porque pessoas capazes de entendê-lo existem sim.
Enfim, a infinitude do amor já está contida nele mesmo. É idiotizante supor que o "produto" vem com prazo de validade. Mais triste ainda é comprá-lo vencido. A mercadoria então era falsa.
O ponto é: admirável essa sapiência musical que paira ao redor de nós e na qual poucas vezes reparamos. Como uma espécie de cérebro que maquina a lógica das palavras por trás das rimas, e que existe independente de quem as executa ou como as executa. Parece uma instituição autônoma, que planta suas profundas considerações nas músicas que bem lhe aprouver, falando a nossas almas e mentes de maneira tão deliciosamente misteriosa e bem traduzida!...
segunda-feira, 21 de maio de 2012
MULHERES, REPITAM COMIGO:
— Não mendigarei o amor de ninguém. Também não barganharei usando o amor como moeda de troca. Amarei indistintamente. Amarei como me amo. Se não me amarem de volta, azar de quem me perdeu. Ou melhor, não sou coisa para ser possuída e perdida. Então azar mesmo é de quem não soube me valorizar. Todavia, ponho-me superior a tudo isso - sentimentos são preciosos demais para que eu estrague minha própria vida chateada ante a incapacidade ou desleixo emocional de terceiros.
Não vou deixar que me classifiquem, massacrando-me, nem aceitar rótulos alheios. Meu bom-gosto ou falta dele pode até ser julgado de acordo com o que porto ou trajo, mas isso também é relativo, e o meu valor real não é medido pelo tamanho do meu salto, pela cor do meu sapato, pela cor do meu esmalte, pela cor do meu cabelo ou pela cor da minha pele. Não tenho que me sentir inferior por que alguém diz: "Prefiro as branquinhas". Não tenho que me sentir inferior por que alguém diz: "Mulheres negras têm o corpo perfeito, as outras não". O que é o corpo? Matéria que se corrói. Não tenho que me sentir inferior nem mesmo se as minhas feições todas, até as microscópicas nuanças, não correspondem ao padrão de beleza preponderante. Não faço parte d'um gado. Ainda que eu busque minha identidade dentro de uma coletividade osmótica, não sou cópia, não sou réplica, não sou arremedo de ninguém.
Não vou deixar nenhum tolo tacanho me lobotomizar, fazendo-me acreditar que a sortuda sou eu, por ele estar junto comigo. Não vou encarar a vida como uma missão a ser cumprida unicamente para se subir ao altar e afins. Porque, se assim encaro, deixo de viver no momento em que me enrolar por entre as rendas matrimoniais ou amigadas. E fim.
Também não azucrinarei ninguém com minhas próprias exigências. Se quero algo, que venha de mim, e que eu seja a primeira dar. Mas que eu não seja a única. No momento cauteloso das primeiras interações, em que eu perceber que a hipotética outra metade não é a minha exata metade, da mesma maneira doada e rendida, revejo o cenário, pulo fora de cena.
Ademais, não fingirei que sou um poço de atitude, quando tudo o que eu quero é mergulhar-me em letargia, ver filmes românticos, de coque e pantufa, sentada no sofá com meus velhos.
Não vou fingir que tenho a vida mais emocionante do mundo, que fui a todos os lugares, que vi de tudo e provei de tudo, quando na verdade ser pura e simplesmente eu é tudo o que o meu coração almeja.
Não vou me iludir, fantasiar, por exemplo, repetindo o mantra: “Todos os machos da espécie me desejam”, com a convicção ilusória de que isso é felicidade, e de que minha "presença de palco" seduz a todos, e meu espírito aventureiro não me prende a ninguém, deixando, assim, um rastro de lágrimas e cacos aos meus pés.
Tudo o que eu quero, e que vou ser, é ser eu, sem a pretensão arrogante de ser eu e mais um pouco, quando o meu eu já encerra tudo. Terei dois ou três admiradores, dentre os quais papai e/ou mamãe, nenhuma bisonha ambição de sair por aí ferindo os corações de outrem, por mais glamoroso que isso pareça através das lentes cor-de-rosa.
Vou ser uma pessoa centrada, se é o que quero ser; cuidando bem de mim também, e zelando pela vida que carrego, por mais que vozes no entorno digam que o bacana mesmo é relevar, curtir despreocupadamente, desesperadamente, pular de noite em noite, de agito em agito, de trago em trago, de espetáculo em espetáculo, de horror em horror, de vazio em vazio. Banalidade cíclica! E se eu quiser ser quadrada? E se gosto de mim muito mais quando sou quadrada? Serei quadrada e pronto!
Que se danem as expectativas não maturadas. Os lugares que eu "tenho" que ir, as pessoas que eu "tenho" que conhecer, as iguarias que eu "tenho" que provar, os olhos que eu "tenho" que capturar!
Eu não tenho que comer sushi/sashimi só porque os outros ocidentais encasquetaram de "sacralizar" o arroz empapado e o peixe cru. Não tenho que ler os livros que todo mundo lê só pelo medo de, caso não o faça, parecer burra, bitolada ou antiquada e démodé.
Eu não tenho, na verdade, a obrigação de ser nada. E se eu quiser ser um nada, que seja, essa será a minha única obrigação! O meu dever, primeiramente, é comigo. Eu sou, aqui na Terra, em termos triviais e brutos, o meu melhor amigo. Pois eu é que convivo comigo mesma todos os dias da minha vida, convivo de dentro para fora, e vejo o mundo através dos meus próprios olhos. Se eu não buscar ser eu, rapidamente me sufocarei, e me matarei, e então viver dentro de mim será insuportável, porque serei eu e milhões de outros eus intoleráveis, intragáveis, oscilantes, multipolares. Por isso mesmo é que todas as mulheres de mim, já as matei. E a cada novo dia será um novo dia, mas eu permaneço sendo eu, aqui, aprendendo de mim e dos outros, crescendo e moldando-me, no entanto portando a mesma essência do meu eu, que é única, irrepetível, e só minha. Só eu.
“Todas as belezas contêm, assim como todos os fenômenos possíveis, algo de eterno e algo de transitório, de absoluto e de particular. A beleza absoluta e eterna inexiste, ou melhor, é apenas uma abstração empobrecida na superfície geral das diferentes belezas. O elemento particular de cada beleza vem das paixões, e como temos nossas paixões particulares, temos nossa beleza particular.”
Charles Baudelaire
Não vou deixar que me classifiquem, massacrando-me, nem aceitar rótulos alheios. Meu bom-gosto ou falta dele pode até ser julgado de acordo com o que porto ou trajo, mas isso também é relativo, e o meu valor real não é medido pelo tamanho do meu salto, pela cor do meu sapato, pela cor do meu esmalte, pela cor do meu cabelo ou pela cor da minha pele. Não tenho que me sentir inferior por que alguém diz: "Prefiro as branquinhas". Não tenho que me sentir inferior por que alguém diz: "Mulheres negras têm o corpo perfeito, as outras não". O que é o corpo? Matéria que se corrói. Não tenho que me sentir inferior nem mesmo se as minhas feições todas, até as microscópicas nuanças, não correspondem ao padrão de beleza preponderante. Não faço parte d'um gado. Ainda que eu busque minha identidade dentro de uma coletividade osmótica, não sou cópia, não sou réplica, não sou arremedo de ninguém.
Não vou deixar nenhum tolo tacanho me lobotomizar, fazendo-me acreditar que a sortuda sou eu, por ele estar junto comigo. Não vou encarar a vida como uma missão a ser cumprida unicamente para se subir ao altar e afins. Porque, se assim encaro, deixo de viver no momento em que me enrolar por entre as rendas matrimoniais ou amigadas. E fim.
Também não azucrinarei ninguém com minhas próprias exigências. Se quero algo, que venha de mim, e que eu seja a primeira dar. Mas que eu não seja a única. No momento cauteloso das primeiras interações, em que eu perceber que a hipotética outra metade não é a minha exata metade, da mesma maneira doada e rendida, revejo o cenário, pulo fora de cena.
Ademais, não fingirei que sou um poço de atitude, quando tudo o que eu quero é mergulhar-me em letargia, ver filmes românticos, de coque e pantufa, sentada no sofá com meus velhos.
Não vou fingir que tenho a vida mais emocionante do mundo, que fui a todos os lugares, que vi de tudo e provei de tudo, quando na verdade ser pura e simplesmente eu é tudo o que o meu coração almeja.
Não vou me iludir, fantasiar, por exemplo, repetindo o mantra: “Todos os machos da espécie me desejam”, com a convicção ilusória de que isso é felicidade, e de que minha "presença de palco" seduz a todos, e meu espírito aventureiro não me prende a ninguém, deixando, assim, um rastro de lágrimas e cacos aos meus pés.
Tudo o que eu quero, e que vou ser, é ser eu, sem a pretensão arrogante de ser eu e mais um pouco, quando o meu eu já encerra tudo. Terei dois ou três admiradores, dentre os quais papai e/ou mamãe, nenhuma bisonha ambição de sair por aí ferindo os corações de outrem, por mais glamoroso que isso pareça através das lentes cor-de-rosa.
Vou ser uma pessoa centrada, se é o que quero ser; cuidando bem de mim também, e zelando pela vida que carrego, por mais que vozes no entorno digam que o bacana mesmo é relevar, curtir despreocupadamente, desesperadamente, pular de noite em noite, de agito em agito, de trago em trago, de espetáculo em espetáculo, de horror em horror, de vazio em vazio. Banalidade cíclica! E se eu quiser ser quadrada? E se gosto de mim muito mais quando sou quadrada? Serei quadrada e pronto!
Que se danem as expectativas não maturadas. Os lugares que eu "tenho" que ir, as pessoas que eu "tenho" que conhecer, as iguarias que eu "tenho" que provar, os olhos que eu "tenho" que capturar!
Eu não tenho que comer sushi/sashimi só porque os outros ocidentais encasquetaram de "sacralizar" o arroz empapado e o peixe cru. Não tenho que ler os livros que todo mundo lê só pelo medo de, caso não o faça, parecer burra, bitolada ou antiquada e démodé.
Eu não tenho, na verdade, a obrigação de ser nada. E se eu quiser ser um nada, que seja, essa será a minha única obrigação! O meu dever, primeiramente, é comigo. Eu sou, aqui na Terra, em termos triviais e brutos, o meu melhor amigo. Pois eu é que convivo comigo mesma todos os dias da minha vida, convivo de dentro para fora, e vejo o mundo através dos meus próprios olhos. Se eu não buscar ser eu, rapidamente me sufocarei, e me matarei, e então viver dentro de mim será insuportável, porque serei eu e milhões de outros eus intoleráveis, intragáveis, oscilantes, multipolares. Por isso mesmo é que todas as mulheres de mim, já as matei. E a cada novo dia será um novo dia, mas eu permaneço sendo eu, aqui, aprendendo de mim e dos outros, crescendo e moldando-me, no entanto portando a mesma essência do meu eu, que é única, irrepetível, e só minha. Só eu.
“Todas as belezas contêm, assim como todos os fenômenos possíveis, algo de eterno e algo de transitório, de absoluto e de particular. A beleza absoluta e eterna inexiste, ou melhor, é apenas uma abstração empobrecida na superfície geral das diferentes belezas. O elemento particular de cada beleza vem das paixões, e como temos nossas paixões particulares, temos nossa beleza particular.”
Charles Baudelaire
quinta-feira, 26 de abril de 2012
O CORAÇÃO
O coração - é este músculo bizarro
Sem concreta definição
Sem razão de ser
À margem do corpo,
Alheio
Querendo, insistindo em existir por si próprio
E fazendo todos os demais órgãos
Pagarem o preço.
Daí vêm:
O fígado etílico, o cérebro congestionado, e os olhos cansados
De tanto chorar
E lábios cansados
De tanto franzir
E a língua cansada
De tentar reproduzir
palavras loucas, ditadas
(sem real tradução, sem possível correção)
pelo famigerado conturbado coração.
Sem concreta definição
Sem razão de ser
À margem do corpo,
Alheio
Querendo, insistindo em existir por si próprio
E fazendo todos os demais órgãos
Pagarem o preço.
Daí vêm:
O fígado etílico, o cérebro congestionado, e os olhos cansados
De tanto chorar
E lábios cansados
De tanto franzir
E a língua cansada
De tentar reproduzir
palavras loucas, ditadas
(sem real tradução, sem possível correção)
pelo famigerado conturbado coração.
quarta-feira, 14 de março de 2012
JANELA D'ÁGUA
Estávamos eu e ela presos na casa, a noite fria, porque chovia muito. Eu não tinha certeza do que significava toda aquela escuridão, ou todo aquele nervosismo, mas eu sei que sentia.
Sentia milhares de coisas ao mesmo tempo, e o vento que entrava pela janela era bom. Me fazia recordar de coisas que eu ainda nem vivera, e me fazia ter vontade de ser grande só pra ter vontade de voltar a ser pequeno...
De algum modo pressenti que aquelas férias no sítio seriam únicas, e que aquele momento em especial, preso na casa, a casa fria, era tudo muito lindo, no futuro formaria um belo quadro na minha lembrança. Melhor ainda do que formava então.
Eu só vontade de estar ali, nenhum lugar mais. A janela aberta, a escuridão... O vento noturno soprava, e entrava, e a gente com medo de que aquela ventania toda apagasse as velas. Éramos todos movidos a lamparina e cera. Era bom.
Eu sentei-me no chão gélido, chão de pedra, bem em frente à janela. Fiquei olhando o céu do sítio, e as bordas da janela que se liquefaziam junto com a chuva, e escorriam para dentro e para fora.
Ela veio e se sentou ao meu lado. Ficamos namorando a noite. Aquela noite tão escura, e tão viva, e ardente. Fazia frio e nós, aquecidos.
Ela não ligara muito para mim durante todo aquele tempo... Julho passaria sem que nos olhássemos de frente, não fosse aquela linda noite, aquela líquida janela. E eu padeci, o muito tanto que é permitido a um menino banguela, ainda aberto e sem verniz, padeci de amores por ela.
Aquela noite... Aquela noite trouxe em suas asas de vento um punhado de novidades, promessas de futura nostalgia, de cheiro de sereno, de descoberta, aqueles, aquela, aquilo. Ela que se sentou ao meu lado, e olhou a chuva comigo. Trouxe consigo uma vela. A vela logo se apagou. Os adultos dormitavam nas cadeiras, ao redor. Nós nos amávamos. Amávamos com os olhos, e nos devorávamos em curiosidade... Tudo isso com o poder das pupilas dilatadas. Ela me olhava pela primeira vez.
A noite de chuva no sítio, que descortinou a nós dois um mundo novo. O mundo do menino que de repente, em meio à água transparente da tempestade noturna, se torna um universo de cores e coisas indizíveis...
E depois você entende por que vale a pena viver por uma só lembrança, uma lembrança sem malícia alguma. A lembrança é a esperança da repetição, esperança de que uma chuva como aquela, e uma amante de olhos, banguela que nem ela e também como eu então, voltem a habitar a retina - viva, presente -, não só a memória e as fugidias reminiscências do coração.
Sentia milhares de coisas ao mesmo tempo, e o vento que entrava pela janela era bom. Me fazia recordar de coisas que eu ainda nem vivera, e me fazia ter vontade de ser grande só pra ter vontade de voltar a ser pequeno...
De algum modo pressenti que aquelas férias no sítio seriam únicas, e que aquele momento em especial, preso na casa, a casa fria, era tudo muito lindo, no futuro formaria um belo quadro na minha lembrança. Melhor ainda do que formava então.
Eu só vontade de estar ali, nenhum lugar mais. A janela aberta, a escuridão... O vento noturno soprava, e entrava, e a gente com medo de que aquela ventania toda apagasse as velas. Éramos todos movidos a lamparina e cera. Era bom.
Eu sentei-me no chão gélido, chão de pedra, bem em frente à janela. Fiquei olhando o céu do sítio, e as bordas da janela que se liquefaziam junto com a chuva, e escorriam para dentro e para fora.
Ela veio e se sentou ao meu lado. Ficamos namorando a noite. Aquela noite tão escura, e tão viva, e ardente. Fazia frio e nós, aquecidos.
Ela não ligara muito para mim durante todo aquele tempo... Julho passaria sem que nos olhássemos de frente, não fosse aquela linda noite, aquela líquida janela. E eu padeci, o muito tanto que é permitido a um menino banguela, ainda aberto e sem verniz, padeci de amores por ela.
Aquela noite... Aquela noite trouxe em suas asas de vento um punhado de novidades, promessas de futura nostalgia, de cheiro de sereno, de descoberta, aqueles, aquela, aquilo. Ela que se sentou ao meu lado, e olhou a chuva comigo. Trouxe consigo uma vela. A vela logo se apagou. Os adultos dormitavam nas cadeiras, ao redor. Nós nos amávamos. Amávamos com os olhos, e nos devorávamos em curiosidade... Tudo isso com o poder das pupilas dilatadas. Ela me olhava pela primeira vez.
A noite de chuva no sítio, que descortinou a nós dois um mundo novo. O mundo do menino que de repente, em meio à água transparente da tempestade noturna, se torna um universo de cores e coisas indizíveis...
E depois você entende por que vale a pena viver por uma só lembrança, uma lembrança sem malícia alguma. A lembrança é a esperança da repetição, esperança de que uma chuva como aquela, e uma amante de olhos, banguela que nem ela e também como eu então, voltem a habitar a retina - viva, presente -, não só a memória e as fugidias reminiscências do coração.
sexta-feira, 9 de março de 2012
RECADO
Neste dia da mulher, seja homem.
Diga a ela o que você sente. Mas diga com todas as letras.
Diga a ela que você se arrepende, que se arrepende muito de sua última burrada, e que provavelmente voltará a cometer outras, mas tudo sempre estará bem se ela estiver com você.
Neste dia da mulher, fale a verdade.
Admita que você realmente olhou para a bunda da vizinha - mas não é ao lado dessa que você quer estar para o resto da vida.
Dê a ela uma flor, apanhada com todo o carinho. Não precisa ser um buquê de rosas vermelhas, opulentas... Não. Basta ser uma florzinha miúda, dessas róseas, amarelinhas ou brancas, que aparecem pelo chão, por entre as frestas da calçada, e que resistiu a todas as intempéries para estar com ela.
Seja generoso, afável, descontraído.
Ser generoso - dar a ela aquele beijo de cinema com o qual ela sempre sonhou, e dedicar uma parte sincera da sua atenção às coisas que ela tem a dizer.
Ser afável - tratar os cabelos dela, as mãos dela, o pescoço dela, o coração dela..., enfim, ela toda, com ternura. Sem medo de parecer fraco. Não há homem de caráter mais forte do que aquele que demonstra seus sentimentos, sem nem precisar dizê-los.
Ser descontraído - não pegar no pé dela caso tenha exagerado na maquiagem, no salto alto ou na chapinha. E rir um pouco dessa preocupação tão febril com a aparência, deixando claro que, para você, ela é musa até de pijama e rímel borrado.
Seja homem. Mas não seja só hoje. Que hoje seja só o ponto de partida. E que amanhã, e amanhã, e depois..., você prossiga sendo o homem que essa mulher pediu a Deus.
Não duvide. Ela com certeza pediu.
Então apenas... Seja.
Diga a ela o que você sente. Mas diga com todas as letras.
Diga a ela que você se arrepende, que se arrepende muito de sua última burrada, e que provavelmente voltará a cometer outras, mas tudo sempre estará bem se ela estiver com você.
Neste dia da mulher, fale a verdade.
Admita que você realmente olhou para a bunda da vizinha - mas não é ao lado dessa que você quer estar para o resto da vida.
Dê a ela uma flor, apanhada com todo o carinho. Não precisa ser um buquê de rosas vermelhas, opulentas... Não. Basta ser uma florzinha miúda, dessas róseas, amarelinhas ou brancas, que aparecem pelo chão, por entre as frestas da calçada, e que resistiu a todas as intempéries para estar com ela.
Seja generoso, afável, descontraído.
Ser generoso - dar a ela aquele beijo de cinema com o qual ela sempre sonhou, e dedicar uma parte sincera da sua atenção às coisas que ela tem a dizer.
Ser afável - tratar os cabelos dela, as mãos dela, o pescoço dela, o coração dela..., enfim, ela toda, com ternura. Sem medo de parecer fraco. Não há homem de caráter mais forte do que aquele que demonstra seus sentimentos, sem nem precisar dizê-los.
Ser descontraído - não pegar no pé dela caso tenha exagerado na maquiagem, no salto alto ou na chapinha. E rir um pouco dessa preocupação tão febril com a aparência, deixando claro que, para você, ela é musa até de pijama e rímel borrado.
Seja homem. Mas não seja só hoje. Que hoje seja só o ponto de partida. E que amanhã, e amanhã, e depois..., você prossiga sendo o homem que essa mulher pediu a Deus.
Não duvide. Ela com certeza pediu.
Então apenas... Seja.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
ESPERANDO O GRANDE AMOR
Oh, garotas, garotas, não se contentem com pouco! O pouco é tão pouco, é tão chinfrim, é tão óbvio e é tão "na moda" que chega a desbotar.
Pelo contrário, minhas caras amigas, se contentem e busquem o muito, o antiquado, o que ficou para trás, e nunca deveria ter ido.
Peçam cavalheirismo, implorem, e, se for preciso, ensinem. Ah, espera, não... Nada de implorar. Se tiver de implorar a um obtuso que seja cordato, então ele não é o cara certo.
Não se contentem com a baba, o ínfimo, com o horário espremido entre as madrugadas insones no vídeo game e as tardes intermináveis de sono. Não se contentem.
Queiram aquele cara que nenhuma outra quer, porque ele não é a escolha óbvia. Aquele que pode te querer quase tão intensamente quanto deseja oxigênio nesta vida vertiginosa. Queira o cara que esperou por você, que zelou por você, que se mostra cordato por atitude própria. Queira o cara que não tem embustes, mas tem sutilezas. Queira aquele cara que vai sussurrar em seu ouvido as coisas mais lindas, mais íntimas... "I've Got You Under My Skin"... "Your body is a wonderland"... "Your taste in my mouth"...
Queira este cara maneiro, que é maneiro de verdade, e não maneiro babaca. Esperem por ele, e não se envergonhem de esperar. E também não se acovardem. Porque, se ele aparecer, você precisa reconhecê-lo no ato.
Queira o grande amor. Não o quase-amor, mas o grande amor. O amor desnudo, o amor com desprendimento, o amor de verdade. Queira o grande amor. Aquele amor que vem com doses de paixão e doses de carinho, que faz a cabeça girar, a pálpebra tremer, as luzes se acenderem e você sair do escuro.
Queira um amor que seja seu por inteiro, e lute para ser o grande amor do seu grande amor. Queira-o tanto como ele querer-te-á quando pôr os olhos em você. Queira o grande amor já sabendo que o tempo árduo de espera valeu, valerá. Faça do seu amor um grande amor, amor sem frescura, sem nó, e as demais coisas parecerão tão pequenininhas...
Pelo contrário, minhas caras amigas, se contentem e busquem o muito, o antiquado, o que ficou para trás, e nunca deveria ter ido.
Peçam cavalheirismo, implorem, e, se for preciso, ensinem. Ah, espera, não... Nada de implorar. Se tiver de implorar a um obtuso que seja cordato, então ele não é o cara certo.
Não se contentem com a baba, o ínfimo, com o horário espremido entre as madrugadas insones no vídeo game e as tardes intermináveis de sono. Não se contentem.
Queiram aquele cara que nenhuma outra quer, porque ele não é a escolha óbvia. Aquele que pode te querer quase tão intensamente quanto deseja oxigênio nesta vida vertiginosa. Queira o cara que esperou por você, que zelou por você, que se mostra cordato por atitude própria. Queira o cara que não tem embustes, mas tem sutilezas. Queira aquele cara que vai sussurrar em seu ouvido as coisas mais lindas, mais íntimas... "I've Got You Under My Skin"... "Your body is a wonderland"... "Your taste in my mouth"...
Queira este cara maneiro, que é maneiro de verdade, e não maneiro babaca. Esperem por ele, e não se envergonhem de esperar. E também não se acovardem. Porque, se ele aparecer, você precisa reconhecê-lo no ato.
Queira o grande amor. Não o quase-amor, mas o grande amor. O amor desnudo, o amor com desprendimento, o amor de verdade. Queira o grande amor. Aquele amor que vem com doses de paixão e doses de carinho, que faz a cabeça girar, a pálpebra tremer, as luzes se acenderem e você sair do escuro.
Queira um amor que seja seu por inteiro, e lute para ser o grande amor do seu grande amor. Queira-o tanto como ele querer-te-á quando pôr os olhos em você. Queira o grande amor já sabendo que o tempo árduo de espera valeu, valerá. Faça do seu amor um grande amor, amor sem frescura, sem nó, e as demais coisas parecerão tão pequenininhas...
"A NOSSA MÚSICA"
É normal todo casal ter sua musiquinha temática. E não digo isso de modo esnobe ou debochado. Apenas comento. Mas falemos sobre os curiosos casos em que os casais escolhem como trilha sonora de seus romances canções lindíssimas e inspiradoras como... "Seu guarda, eu não sou vagabundo, eu não sou deliquente, sou um cara carente!".
Eu tinha uma amiga, na época em que morei na chuvosa Belém, que, durante nossa sétima série, namorou um carinha mais velho, da mesma escola, que era "TUDO" com letras garrafais. Bonito, charmoso, educado... Enfim, era bacana.
Os dois foram passar, com suas famílias, a virada do ano lá na Estação das Docas. Ocuparam suas mesas, curtiram o visual, beijaram, blá-blá.
Depois, ela me deu todo o parecer da noite, contou como foi, se divertiu enumerando os detalhes. Até que, em dado momento, minha amiga disse: "Aí tocou a nossa música...". E eu perguntei: "Que música?". E ela me respondeu: "Aquela da Vanessa da Mata com o Ben Harper".
Ah, Deus. Ela estava falando de Boa Sorte (Good Luck). Eu disfarcei uma caretinha e, mesmo ainda ouvindo seus relatos interessadamente, só o que eu podia pensar era: "ISSO LÁ É MÚSICA PARA SE ESCOLHER?????"
Vejam se vocês me entendem. A música fala sobre despedida, sobre um relacionamento desgastado que finalmente acabou, fala sobre dizer adeus a alguém que compartilhou a vida com você, fala sobre ceder à pressão dos "amigos", dos que estão ao redor, de todas as circunstâncias que sufocam e matam estes simulacros de amor que vivemos hoje. Se o amor já é tão frágil e capenga, como o concebemos, por que sufocar ainda mais o bichicho, escolhendo, para ser o tema de um amor ainda jovem, uma música que fala sobre fim e saparação?! Certamente um começo não muito auspicioso, quem sabe até a fabricação de um presságio.
Bem, os meus amigos da história não tardaram muito a desmanchar a relação, ainda que estivessem envolvidas as famílias e tudo o mais. Mas também, com uma música psiquenta dessas!... Que relacionamento suportaria?! Só mesmo um de verdade.
É por isso que, já eu, sempre fui honesta com meus momentos, meus relacionamentos, e suas respectivas músicas.
Mentira!
Talvez tenha sido eu a que já cometeu os erros mais estúpidos desse tipo, alguns ínfimos, mas ainda assim estúpidos. Destas experiências, extraí muito. É verdade quando dizem que aprendemos com cada estupidez. E, se posso dar um conselho sábio, eu digo: jamais, JAMAIS, amiga/o minha, chegue para o seu companheiro e pergunte, em voz melosa: "Qual é a nossa música, amor?" Não pergunte, porque essas coisas não se perguntam, não se fabricam, entende? Elas simplesmente acontecem... A música do casal aparece quando tem de aparecer, não é uma obrigatoriedade que seja sempre no início da relação. E, se você não deixa rolar, e, ao invés disso, força a barra e pergunta: "Qual é amor, qual é? A nossa música, amor!", vai que ele te responde "Good Luck", tchau e bênção, vá com Deus?! Ou até mesmo canta para você: "Teus lábios são labirintos..." E esquece de completar dizendo que, em todo refrão de bolero, há pelo menos um corno, um adúltero e um alcoólatra!
Já pensou?!
É melhor deixar como está.
Forçar não é legal exatamente porque não é espontâneo.
Eu tinha uma amiga, na época em que morei na chuvosa Belém, que, durante nossa sétima série, namorou um carinha mais velho, da mesma escola, que era "TUDO" com letras garrafais. Bonito, charmoso, educado... Enfim, era bacana.
Os dois foram passar, com suas famílias, a virada do ano lá na Estação das Docas. Ocuparam suas mesas, curtiram o visual, beijaram, blá-blá.
Depois, ela me deu todo o parecer da noite, contou como foi, se divertiu enumerando os detalhes. Até que, em dado momento, minha amiga disse: "Aí tocou a nossa música...". E eu perguntei: "Que música?". E ela me respondeu: "Aquela da Vanessa da Mata com o Ben Harper".
Ah, Deus. Ela estava falando de Boa Sorte (Good Luck). Eu disfarcei uma caretinha e, mesmo ainda ouvindo seus relatos interessadamente, só o que eu podia pensar era: "ISSO LÁ É MÚSICA PARA SE ESCOLHER?????"
Vejam se vocês me entendem. A música fala sobre despedida, sobre um relacionamento desgastado que finalmente acabou, fala sobre dizer adeus a alguém que compartilhou a vida com você, fala sobre ceder à pressão dos "amigos", dos que estão ao redor, de todas as circunstâncias que sufocam e matam estes simulacros de amor que vivemos hoje. Se o amor já é tão frágil e capenga, como o concebemos, por que sufocar ainda mais o bichicho, escolhendo, para ser o tema de um amor ainda jovem, uma música que fala sobre fim e saparação?! Certamente um começo não muito auspicioso, quem sabe até a fabricação de um presságio.
Bem, os meus amigos da história não tardaram muito a desmanchar a relação, ainda que estivessem envolvidas as famílias e tudo o mais. Mas também, com uma música psiquenta dessas!... Que relacionamento suportaria?! Só mesmo um de verdade.
É por isso que, já eu, sempre fui honesta com meus momentos, meus relacionamentos, e suas respectivas músicas.
Mentira!
Talvez tenha sido eu a que já cometeu os erros mais estúpidos desse tipo, alguns ínfimos, mas ainda assim estúpidos. Destas experiências, extraí muito. É verdade quando dizem que aprendemos com cada estupidez. E, se posso dar um conselho sábio, eu digo: jamais, JAMAIS, amiga/o minha, chegue para o seu companheiro e pergunte, em voz melosa: "Qual é a nossa música, amor?" Não pergunte, porque essas coisas não se perguntam, não se fabricam, entende? Elas simplesmente acontecem... A música do casal aparece quando tem de aparecer, não é uma obrigatoriedade que seja sempre no início da relação. E, se você não deixa rolar, e, ao invés disso, força a barra e pergunta: "Qual é amor, qual é? A nossa música, amor!", vai que ele te responde "Good Luck", tchau e bênção, vá com Deus?! Ou até mesmo canta para você: "Teus lábios são labirintos..." E esquece de completar dizendo que, em todo refrão de bolero, há pelo menos um corno, um adúltero e um alcoólatra!
Já pensou?!
É melhor deixar como está.
Forçar não é legal exatamente porque não é espontâneo.
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sexta-feira, 10 de junho de 2011
O AMOR
Para Laura Costa Ribeiro
De repente descubro que ainda é possível ser mais feliz
E mais triste
Ao mesmo tempo
De repente descubro que
Inevitavelmente
Você vai me arrancar lágrimas o tempo todo
Você vai bater em mim,
Vai gritar
E vai chorar também
Mas, quando você não estiver chorando por minha causa
E quando eu não estiver chorando por sua causa
E ainda assim você estiver chorando
Saiba que eu
E só eu
Vou te entender
Eu
E só eu
Vou te abraçar
E sem perguntar o por quê
Eu
E só eu
Vou te amar naquele momento
Sem esperar nada em troca
Eu vou te embalar no meu colo
Vou te acalentar
Te pedir, não chore
E você vai saber o quanto eu te amo
E vai voltar a ser aquela menininha
Que me pedia colo sem saber por quê
E me pedia pipoca
Mesmo sem estar com fome
E eu vou saber que apesar de tão triste
Você me fez
A pessoa mais completa do mundo
E então, mergulhadas em lágrimas,
Eu vou enrolar meus dedos nos seus cachinhos
Vou cheirar suas axilas
Relembrar os velhos tempos
Em que te ensinei a dizer "asqueroso!"
E você vai saber que me fez
A pessoa mais feliz do mundo
O nosso mundo
Eu te amo.
De repente descubro que ainda é possível ser mais feliz
E mais triste
Ao mesmo tempo
De repente descubro que
Inevitavelmente
Você vai me arrancar lágrimas o tempo todo
Você vai bater em mim,
Vai gritar
E vai chorar também
Mas, quando você não estiver chorando por minha causa
E quando eu não estiver chorando por sua causa
E ainda assim você estiver chorando
Saiba que eu
E só eu
Vou te entender
Eu
E só eu
Vou te abraçar
E sem perguntar o por quê
Eu
E só eu
Vou te amar naquele momento
Sem esperar nada em troca
Eu vou te embalar no meu colo
Vou te acalentar
Te pedir, não chore
E você vai saber o quanto eu te amo
E vai voltar a ser aquela menininha
Que me pedia colo sem saber por quê
E me pedia pipoca
Mesmo sem estar com fome
E eu vou saber que apesar de tão triste
Você me fez
A pessoa mais completa do mundo
E então, mergulhadas em lágrimas,
Eu vou enrolar meus dedos nos seus cachinhos
Vou cheirar suas axilas
Relembrar os velhos tempos
Em que te ensinei a dizer "asqueroso!"
E você vai saber que me fez
A pessoa mais feliz do mundo
O nosso mundo
Eu te amo.
MOLHADO
Uma gota de chuva no asfalto
Semáforo fechado
Caso encerrado
Fim.
Um gato a se lamber no tapete
Lúgubre casa
E duas línguas quentes
A se amarem no escuro...
Eu sei o que está acontecendo
É de novo aquela tempestade
Aquele período interminável
De longas saudades de nada
De versos sem métrica
Sem rima
De poesias descabidas
De paixonites não saradas
Semáforo fechado
Caso encerrado
Fim.
Um gato a se lamber no tapete
Lúgubre casa
E duas línguas quentes
A se amarem no escuro...
Eu sei o que está acontecendo
É de novo aquela tempestade
Aquele período interminável
De longas saudades de nada
De versos sem métrica
Sem rima
De poesias descabidas
De paixonites não saradas
quinta-feira, 26 de maio de 2011
MALDITO BENZALDEÍDO
Não gosto de falar de amor porque não me dou bem com ele. O último amor que tive foi arrancado de mim ainda na infância. Por isso mesmo é que, hoje, desgastado, já não tenho coração. Ademais, tenho um cachorro. Que é menos meu do que de minha vizinha, uma menininha loira de olhos castanhos, que certamente um dia irá morenecer...
Tenho medo desses escritores que falam de amor como se falassem de bife. Não quero me prolongar. Mas também temo aqueles que descrevem o amor sem conhecê-lo. Sim, não há problema em imaginar e, consequentemente, conceber o que não se conhece... Todo escritor faz isso, eu sei, sou um deles. Se viajei a tantos lugares como sugerem meus livros - lobos famigerados -, certamente metade dessas jornadas percorri sem sair da poltrona de minha sala.
Mas ainda assim sei que com amor não se brinca nem se inventa embustes. Fala dele quem o conhece, ponto. Fala dele quem o quer. Amor é coisa séria. E nunca o provei, indo com a colher até o fundo, mas sei que ele existe. Se não existisse, não teria eu tanto medo. E, admito, sou covarde.
A verdade, a verdade mesmo, é que fui podado muito jovem... Daí não me arrisco. Porque a casquinha da ferida me arrancaram demasiadamente cedo. Mas, se querem saber, eu conto.
Tinha só dez anos, veja bem. Uma idade insossa, eu até diria. Era novo na turma e havia uma garota. Ela sentava-se sempre ao meu lado. Não era bonita. Pelo menos ninguém lhe disputava a atenção. Mas, para mim, era linda. Era lindíssima. Tinha ares de precoce, madura. E um nariz adunco, desses de águia, com a ponta virada para baixo, que me fazia morrer de loucura por ela. À época, aquele nariz povoou muitos sonhos meus... Não posso dizer o que nos leva a amar alguém. Só posso dizer que a primeira coisa que amei foi aquele nariz.
Como nos sentávamos perto um do outro, eu na fileira da parede e ela na fila ao lado, não tardou fazermos amizade. Quer dizer, não sei. Éramos, pelo menos, colegas de trabalho. Eu não falava com ninguém. Extremamente introspectivo – e vejo aqui a falta de originalidade, o velho clichê do escritor solitário que se repete desde a infância. A guria, por sua vez, apesar de estar havia mais tempo que eu naquela escola, também não tinha muitos amigos ali. Por algum motivo obscuro as meninas a evitavam... Éramos então duas almas sozinhas que se aderiram, inevitavelmente.
E lembro-me ainda hoje como se fosse água... Complexa, mas transparentemente: terça-feira, alguma de junho. Foi então que me apaixonei por ela por completo. A situação: nós emaranhados entre mínimos e máximos denominadores comuns, ela se debruçou sem se dar conta sobre mim e eu senti o cheiro indescritível de sua pele.
Ah, meu Deus... O que foi aquilo? Ela tinha um daqueles cheiros doces e suaves que a gente sempre quis sentir, mas nunca descobriu em ninguém, e fica por parecer mais uma mentira de cinema. Cheiro de... Cheiro de... Eu não consigo dizer. Doce e suave, doce e suave, doce e suave. Não fui capaz de pensar em mais nada. Fiquei maluco. E segui para casa assim, no banco da frente do ônibus, pensando “que cheiro poderia ser aquele?”. Que nome ele teria, como decodificá-lo...?
Lá pela madrugada, mofando na cama, decifrei. Ela tinha cheiro de amêndoa. Amêndoas... E será que tinha gosto também? Só pude concluir que aquele aroma era todo dela, todo dela, irrepetível, de mais ninguém.
Ao longo dos meses, fui arrumando desculpas para me sentar mais ao seu lado, colado. Ela, com seu narizinho de ave feiosa no rosto magro, dizia-me que sim, eu podia, contanto que fizesse silêncio. Ela queria prestar atenção à aula. E eu faria, é claro, silêncio, entregue e rendido. Só me interessava cheirá-la...
Um dia, lá pelas tantas, descemos as escadas conversando e acabamos passando o recreio todo juntos. Num banco qualquer, no pátio da escola. Ali, em tom de confissão, ela me disse que odiava seu nariz, que tinha alergia a ovo e muito medo de morrer. Eu afirmei a ela que não, nunca, ela não morreria nunca! Ela era muito bonita para morrer. E, com mão suada, aproximei-me, naquela voz de quem ainda nem sabe dizer: "Você é tão bonita que me dói aqui por dentro". Tentei, ato contínuo, beijá-la. Ela, igualmente, me repeliu. Saiu correndo, espantada, e só deixou às minhas vísceras já tão doridas o doce rastro do seu misterioso cheiro amendoado. Lúdico-lúgubre-lúbrico amendoado.
Não nos falamos mais. Nunca, nunca mais. Permanecemos na mesma escola, até os dois anos seguintes, inclusive na mesma sala. E foi só. Um dia, quando estávamos já na casa dos treze, e ela não mais na mesma turma de sétima série em que eu, acabei por vê-la, numa tarde chuvosa, em frente ao portão de sua casa (eu a seguira secretamente até ali tantas vezes...), sim, a vi entrar num carro prateado.
Estreitei então meus olhos. Lá dentro, um cara. Por volta dos 40, grisalho, uma das mãos ao volante. Tinha barba, tinha paletó, tinha aliança. Através do para-brisa rasgado pela chuva, vi aquele ser estranho beijar a menina morena e cheirosa que, mesmo oniricamente, tanto me pertenceu.
Mais tarde, em outras tardes, de chuva ou de sol, outros momentos da vida, cheguei a vê-la entrar de novo em outros carros. E foi assim, com tantos carros, que ela deixou de ser minha.
E, um dia, eu já no ensino médio, li em um livro pesado de química orgânica a respeito do aldeído que, ligado a anel aromático, recebe o nome de "benzaldeído". Este capricho de nome feio tem, por sinal, um cheiro maravilhoso. Imita o de amêndoas. É usado comumente na fabricação de perfumes.
Comumente.
Bem... Bem. De raro e precioso, a ilusão só tem o tempo que dura. E foi assim que percebi ser hora de superar. Que eu já não podia também ser dela. Que ela nunca fora minha. Que essas coisas todas passam. Sim, um dia, elas todas passam. E não deixam nada além de vagas noções de química...
Tenho medo desses escritores que falam de amor como se falassem de bife. Não quero me prolongar. Mas também temo aqueles que descrevem o amor sem conhecê-lo. Sim, não há problema em imaginar e, consequentemente, conceber o que não se conhece... Todo escritor faz isso, eu sei, sou um deles. Se viajei a tantos lugares como sugerem meus livros - lobos famigerados -, certamente metade dessas jornadas percorri sem sair da poltrona de minha sala.
Mas ainda assim sei que com amor não se brinca nem se inventa embustes. Fala dele quem o conhece, ponto. Fala dele quem o quer. Amor é coisa séria. E nunca o provei, indo com a colher até o fundo, mas sei que ele existe. Se não existisse, não teria eu tanto medo. E, admito, sou covarde.
A verdade, a verdade mesmo, é que fui podado muito jovem... Daí não me arrisco. Porque a casquinha da ferida me arrancaram demasiadamente cedo. Mas, se querem saber, eu conto.
Tinha só dez anos, veja bem. Uma idade insossa, eu até diria. Era novo na turma e havia uma garota. Ela sentava-se sempre ao meu lado. Não era bonita. Pelo menos ninguém lhe disputava a atenção. Mas, para mim, era linda. Era lindíssima. Tinha ares de precoce, madura. E um nariz adunco, desses de águia, com a ponta virada para baixo, que me fazia morrer de loucura por ela. À época, aquele nariz povoou muitos sonhos meus... Não posso dizer o que nos leva a amar alguém. Só posso dizer que a primeira coisa que amei foi aquele nariz.
Como nos sentávamos perto um do outro, eu na fileira da parede e ela na fila ao lado, não tardou fazermos amizade. Quer dizer, não sei. Éramos, pelo menos, colegas de trabalho. Eu não falava com ninguém. Extremamente introspectivo – e vejo aqui a falta de originalidade, o velho clichê do escritor solitário que se repete desde a infância. A guria, por sua vez, apesar de estar havia mais tempo que eu naquela escola, também não tinha muitos amigos ali. Por algum motivo obscuro as meninas a evitavam... Éramos então duas almas sozinhas que se aderiram, inevitavelmente.
E lembro-me ainda hoje como se fosse água... Complexa, mas transparentemente: terça-feira, alguma de junho. Foi então que me apaixonei por ela por completo. A situação: nós emaranhados entre mínimos e máximos denominadores comuns, ela se debruçou sem se dar conta sobre mim e eu senti o cheiro indescritível de sua pele.
Ah, meu Deus... O que foi aquilo? Ela tinha um daqueles cheiros doces e suaves que a gente sempre quis sentir, mas nunca descobriu em ninguém, e fica por parecer mais uma mentira de cinema. Cheiro de... Cheiro de... Eu não consigo dizer. Doce e suave, doce e suave, doce e suave. Não fui capaz de pensar em mais nada. Fiquei maluco. E segui para casa assim, no banco da frente do ônibus, pensando “que cheiro poderia ser aquele?”. Que nome ele teria, como decodificá-lo...?
Lá pela madrugada, mofando na cama, decifrei. Ela tinha cheiro de amêndoa. Amêndoas... E será que tinha gosto também? Só pude concluir que aquele aroma era todo dela, todo dela, irrepetível, de mais ninguém.
Ao longo dos meses, fui arrumando desculpas para me sentar mais ao seu lado, colado. Ela, com seu narizinho de ave feiosa no rosto magro, dizia-me que sim, eu podia, contanto que fizesse silêncio. Ela queria prestar atenção à aula. E eu faria, é claro, silêncio, entregue e rendido. Só me interessava cheirá-la...
Um dia, lá pelas tantas, descemos as escadas conversando e acabamos passando o recreio todo juntos. Num banco qualquer, no pátio da escola. Ali, em tom de confissão, ela me disse que odiava seu nariz, que tinha alergia a ovo e muito medo de morrer. Eu afirmei a ela que não, nunca, ela não morreria nunca! Ela era muito bonita para morrer. E, com mão suada, aproximei-me, naquela voz de quem ainda nem sabe dizer: "Você é tão bonita que me dói aqui por dentro". Tentei, ato contínuo, beijá-la. Ela, igualmente, me repeliu. Saiu correndo, espantada, e só deixou às minhas vísceras já tão doridas o doce rastro do seu misterioso cheiro amendoado. Lúdico-lúgubre-lúbrico amendoado.
Não nos falamos mais. Nunca, nunca mais. Permanecemos na mesma escola, até os dois anos seguintes, inclusive na mesma sala. E foi só. Um dia, quando estávamos já na casa dos treze, e ela não mais na mesma turma de sétima série em que eu, acabei por vê-la, numa tarde chuvosa, em frente ao portão de sua casa (eu a seguira secretamente até ali tantas vezes...), sim, a vi entrar num carro prateado.
Estreitei então meus olhos. Lá dentro, um cara. Por volta dos 40, grisalho, uma das mãos ao volante. Tinha barba, tinha paletó, tinha aliança. Através do para-brisa rasgado pela chuva, vi aquele ser estranho beijar a menina morena e cheirosa que, mesmo oniricamente, tanto me pertenceu.
Mais tarde, em outras tardes, de chuva ou de sol, outros momentos da vida, cheguei a vê-la entrar de novo em outros carros. E foi assim, com tantos carros, que ela deixou de ser minha.
E, um dia, eu já no ensino médio, li em um livro pesado de química orgânica a respeito do aldeído que, ligado a anel aromático, recebe o nome de "benzaldeído". Este capricho de nome feio tem, por sinal, um cheiro maravilhoso. Imita o de amêndoas. É usado comumente na fabricação de perfumes.
Comumente.
Bem... Bem. De raro e precioso, a ilusão só tem o tempo que dura. E foi assim que percebi ser hora de superar. Que eu já não podia também ser dela. Que ela nunca fora minha. Que essas coisas todas passam. Sim, um dia, elas todas passam. E não deixam nada além de vagas noções de química...
domingo, 19 de dezembro de 2010
CASA, AMOR E GASOLINA (parte I)
Ele chegou tão desnorteado em minha casa que, a princípio, tive medo. Veio até a porta arrastando-se pela calçada coberta de graminha como um coxo, deixando um rastro de sangue atrás de si, e uma poça escura bem no lugar onde parou sem ar.
No momento, eu acabava de sair de casa, estava ainda com as chaves na mão e mil coisas para fazer, quando avistei aquela massa humana e ensanguentada vindo em minha direção.
O pânico foi imediato, assim como o choque, que me paralisou. Contudo, bastou fitar seus olhos logo abaixo de mim para que uma pena brutal me atingisse em cheio. Não havia muito que fazer, afinal. Sendo enfermeira, deixei o instinto de sobrevivência de lado e acionei o instinto “ajudar ao próximo”. Larguei a bolsa e as chaves no chão e me agachei em direção ao seu rosto bronzeado, de alguém que trabalhava no sol. Estava retorcido de dor. As mãos que tentavam agarrar meus braços em busca de ar e socorro eram calosas como as de um pedreiro.
- Ei, camarada... Tudo bem aí? – obtive apenas um grunhido resfolegante como resposta.
O homem parecia um cachorro estufado, babão e à beira da morte.
- Ok. Vamos te tirar daqui.
Não foi fácil arrastá-lo escada acima até a varanda sob o alpendre. Reclamei um pouco, falando comigo mesma, enquanto pensava na melhor forma de tratar os ferimentos que agora eu observava de perto.
Foi fácil reconhecer as marcas. Eu lidava com aquilo todos os dias, na escola onde trabalhava, ao tratar das crianças que conviviam de perto – algumas vezes até dentro de casa – com a violência carniceira. Aqueles ali eram buracos de bala. Nas pernas, no abdome, e um inchaço no ombro direito.
- Pesado, hein?! Vamos, só mais um pouquinho. Preciso pelo menos te colocar na sombra.
Instantaneamente, ele fechou os olhos, como se assim pudesse ficar mais leve.
Foi o que imaginei. Ofegava.
- Com que gente o senhor foi se meter?... Espero que não esteja jurado de morte. Isso seria realmente um problema. Pronto.
Vi um traço de humor macabro em seus olhos, quando ele os abriu e notou que eu começava a rasgar-lhe a camisa – que um dia fora – azul escura, encharcada de sangue.
- Você... Você sabe...
- Shh... Eu sei o que estou fazendo. Sou enfermeira.
- Por favor, me ajude – ele agarrou meu braço, cerrando os dentes para não gritar de dor quando comecei a procurar mais buracos em sua pele.
- Tudo bem. É o que estou fazendo.
- Será que você pode dizer onde estou?
- Bom... – eu olhei rapidamente para ele, franzindo as sobrancelhas. – Estás em Macapá, afastado do centro da cidade. Ahn... Estamos perto da Lagoa dos Índios.
- Macapá... Macapá... Amapá.
- Isso. Isso. O meu nome é Beatriz. Bia, se preferir. Acho que nesse estado não vais conseguir dizer o nome todo. Trabalho numa escola pública, no Cabralzinho, como enfermeira. Esta é minha casa. Estás na minha casa, no Buriti, e tudo vai ficar bem.
Eu falava, tentando distraí-lo, enquanto avaliava o resto dos danos com a mão empapada de sangue.
- Dói aqui? – apertei seu ombro.
- Ai!
- Está fraturado. Provavelmente a clavícula. Mas que coisa, hein? Precisamos ir para o médico. Acho que te trituraram... O que tu fizeste?
Ele fechou os olhos.
- Eu atrasei você.
- Realmente. Mas duvido que seja por isso que te moeram desse jeito.
- Por favor... Não me deixe aqui... Eu vou morrer. Não estou vendo direito.
- É o menor dos seus problemas. Tudo bem, já disse que não deixo. Você escolheu a porta certa para vir morrer, porque não vai. Mas agora... Tu também precisas me ajudar, certo? Vou ter que te colocar dentro de um Fiat velho e apertado e correr para o hospital. Mas para isso precisas levantar e se apoiar em mim, pode ser? Vamos no três. Um... Dois... Três. Isso. Muito bem. Meu carro está logo ali. Só mais um pouquinho. Aguente firme!
Aquele foi um dia surreal. Eu saíra de casa às seis da manhã, para encontrar um moribundo ensanguentado bem na porta. Um moribundo sem nome, sem pistas, sem memória.
Mas isso não significava que eu ia ficar sem respostas.
Ele havia feito com que eu perdesse uma segunda feira agitada na escola... Não fazia mal então que, em troca, fosse submetido a um pequeno interrogatório.
Mas eu duvidava que ele fosse se lembrar. Não conseguia raciocinar direito, os olhos estavam vidrados, os membros convulsivos, e a barriga toda furada. Até mesmo depois de atendido, quando voltei com ele em silêncio para a minha casa, seu olhar perdido permanecia confuso.
Era, sem sombra de dúvidas, um bandido. Devia estar metido com gangues, drogas, roubos, alguma fuga do IAPEN... qualquer tipo de coisa assim. Eu não duvidava e, apesar disso, não tinha medo. Só o que corria pelas minhas veias era uma curiosidade mórbida. Tentei controlá-la até que ele estivesse instalado. Na minha casa.
A amnésia momentânea tinha vindo bem a calhar. Por uns dias, até a recuperação completa, ele estaria fora das ruas e, se Deus quisesse, em segurança. Trancafiado num dos quartos da minúscula casa de uma enfermeira solteira e de poucas posses. Bem. Eu duvidava que ele pudesse reclamar de algo. Mal falava, e aquela situação deveria ser muito melhor que seu estado anterior.
O médico havia dito que a perda de memória se devia, provavelmente, a alguma experiência muito traumática que ele vivenciara havia algumas horas. Talvez demorasse uma soneca para voltar. Ou talvez as memórias sumissem por meses. Ou talvez não voltassem. Era difícil precisar, principalmente com tão poucos mecanismos, e ainda por cima precários, como o que havia no hospital onde o levei. Era muita ciência, muita predestinação, muito surrealismo para um médico cansado e cheio de olheiras de um hospital quase interiorano.
Então, eu e o baleado ficamos acertados tacitamente que ele permaneceria em minha casa.
Numa noite, depois de trocar suas bandagens, enfaixar com gaze nova os seus pontos de bala, e massagear a clavícula quebrada com azeite de andiroba, ele adormeceu.
Com calma e silêncio – coisas antinaturais numa pessoa elétrica e falante como eu -, tive o cuidado de colocar sua tipoia de volta como se estivesse tratando de uma criança. Então pude olhar melhor para ele.
Fazia duas semanas que estávamos naquela rotina. E ainda assim todo dia parecia algo novo. Ele me olhava, e me olhava, e me olhava... Enquanto eu tratava dos ferimentos. E nunca dizia nada. Quase nada. A não ser, é claro, aquele “obrigado” murmurado e emocionado depois de cada dia de curativos e esparadrapos.
No total, ele parecia um homem calmo. Algumas vezes, eu me excedia e falava tanto, mas tanto... E ele ouvia. Isso era o mais engraçado. Tinha comentários estranhos, engraçados ou inteligentes para fazer sobre o que quer que eu dissesse, e ainda assim não se lembrava de nada antes do dia em que chegara arrastando-se até a minha porta. E agora eu tinha certeza de uma coisa: ele não era um bandido.
Não um bandido no sentido mais brutal ao qual costumamos associar. Não... era algo mais. Podia até ser do tipo obscuro, o que eu duvidava, mas havia nele uma passividade régia, um jeito calmo, controlado, reservado de conversar. Sua voz era sóbria, seus gestos eram contidos e ele nunca reclamava. Transpirava até certa autoridade. E apesar de tanta calma e paz, os seus olhos transbordavam mistério e palavras. Vinte e quatro horas por dia.
Olhei para ele. Tirei-lhe aquele monte de cabelo liso da testa e penteei-os para trás. Sim, agora estava com os tais olhos fechados. Mas normalmente, esses mesmos olhos, olhos cinza, costumavam olhar para mim como se soubessem quem eu era, o que queria, como se conhecessem meus planos, minha alma. Havia um calor sinistro e provocante ali dentro. Um calor que beirava a estupidez romântica dos poetas. Um desses calores que a gente encontra nos olhos da nossa mãe, ou nos nossos próprios olhos, quando estamos de algum modo apaixonados. E seja pelo que for.
Ele tinha esses olhos. Cinza. O que me fez deduzir que não era um nativo da minha cidade. Mas não apenas por suas características genéticas, tão patentemente “sudeste”, “sul”, ou sei lá o quê... Mas também pelo sotaque. Era difícil de rastrear.
No dia seguinte, depois do café, ele pediu que eu o levasse até o deque. Não era normal que eu o arrastasse pelos minúsculos cômodos da casa, mas algumas vezes ele gostava de olhar para fora, pela varanda do quarto onde estava ou ainda pela janela de trás, que dava para a lagoa.
Minha casa era pequena, como se feita para alguma boneca Polly. No entanto, havia ali uma graça infantil que me encantara desde que eu saíra da casa dos meus pais em busca de um lugar só meu. Eu tinha dois quartos, um banheiro, uma cozinha, uma sala ampla no térreo e um deque, numa casa de dois andares. Era tudo o que eu precisava. E, afinal de contas, sem pagar nenhum centavo, já que o imóvel tinha sido presente do papai. Um brinde à independência dependente!
Ao ar livre no deque, ajudei-o a sentar-se numa das cadeiras acolchoada e redobrável e ficamos a observar o céu nublado de dezembro. Imaginei que o tempo não estivesse exatamente “frio” se comparado ao frio que ele estava acostumado - se fosse mesmo do sul ou sudeste -, mas ainda assim, passados alguns minutos eu voltei ao quarto e apanhei um edredom para envolvê-lo. Com o braço direito imobilizado, e o resto do corpo enfaixado, ele não fazia quase nada sem ajuda.
- Obrigado – disse com um sorriso largo, embora rápido, enquanto eu voltava a me sentar.
Ficamos assim um tempo, em silêncio. Eu terminava a minha caneca de Nescau quente. De vez em quando ele me olhava pelo rabinho do olho.
- Quantos anos você tem? – ele perguntou de repente. Fiquei um pouco embaraçada.
- Por quê?
- Por que o quê?
- Por que queres saber?
- Por... Curiosidade.
- 23. E tu?
Ele me olhou e sorriu.
- Ops! Desculpa.
- Tudo bem. Não é culpa sua eu não poder lembrar.
Eu sorri aliviada.
- Obrigado pelo que está fazendo, Bia.
- Ah... – descartei o agradecimento com a mão. – Não é nada. Costumo ajudar desconhecidos baleados que batem à porta da minha casa e melam meu carro de sangue. É uma espécie de hobbie.
Ele riu.
- Sabe... Amanhã é véspera de Natal. Já tens planos?
Ele me olhou captando meu ar sardônico.
- Você é insuportável às vezes.
- Eu sei!
- É claro que tenho planos. Vou fazer o que você fizer.
- Bem... Então aí complica.
- Por quê?
- Meus pais... Eu passo todo Natal na casa deles. Não sei se eu poderia dessa vez, contigo aqui.
- Mas por quê? Você pode ir, se quiser. Não se preocupe comigo.
- Eu gostaria que tu fosses comigo, essa é a verdade. Mas acho que meus pais estranhariam. Seria estranho, não seria? Contar isso para eles... Bem, fico imaginando quantos anos tu tens.
- E que isso tem a ver com a conversa que estamos tendo?
- Ah, teus olhos dizem que deves ter uns trinta. Não vou chegar em casa toda saltitante e, do nada, apresentar um namorado de trinta anos. Cairia mal. Também não posso esclarecer todo o potencial de bandido que tem o seu histórico recente. Então o jeito é ficarmos por aqui.
- Isso não me parece bem.
- Ei, eu mando aqui. Sou eu quem ainda está com a memória legal, esqueceu? Quem pode se lembrar do próprio nome faz as regras.
- Ok. Você manda. E o que vai dizer pra eles?
- Eu me viro. Gostas de peru?
Ele fuzilou-me com os olhos, mas riu.
- É o que vamos descobrir.
No momento, eu acabava de sair de casa, estava ainda com as chaves na mão e mil coisas para fazer, quando avistei aquela massa humana e ensanguentada vindo em minha direção.
O pânico foi imediato, assim como o choque, que me paralisou. Contudo, bastou fitar seus olhos logo abaixo de mim para que uma pena brutal me atingisse em cheio. Não havia muito que fazer, afinal. Sendo enfermeira, deixei o instinto de sobrevivência de lado e acionei o instinto “ajudar ao próximo”. Larguei a bolsa e as chaves no chão e me agachei em direção ao seu rosto bronzeado, de alguém que trabalhava no sol. Estava retorcido de dor. As mãos que tentavam agarrar meus braços em busca de ar e socorro eram calosas como as de um pedreiro.
- Ei, camarada... Tudo bem aí? – obtive apenas um grunhido resfolegante como resposta.
O homem parecia um cachorro estufado, babão e à beira da morte.
- Ok. Vamos te tirar daqui.
Não foi fácil arrastá-lo escada acima até a varanda sob o alpendre. Reclamei um pouco, falando comigo mesma, enquanto pensava na melhor forma de tratar os ferimentos que agora eu observava de perto.
Foi fácil reconhecer as marcas. Eu lidava com aquilo todos os dias, na escola onde trabalhava, ao tratar das crianças que conviviam de perto – algumas vezes até dentro de casa – com a violência carniceira. Aqueles ali eram buracos de bala. Nas pernas, no abdome, e um inchaço no ombro direito.
- Pesado, hein?! Vamos, só mais um pouquinho. Preciso pelo menos te colocar na sombra.
Instantaneamente, ele fechou os olhos, como se assim pudesse ficar mais leve.
Foi o que imaginei. Ofegava.
- Com que gente o senhor foi se meter?... Espero que não esteja jurado de morte. Isso seria realmente um problema. Pronto.
Vi um traço de humor macabro em seus olhos, quando ele os abriu e notou que eu começava a rasgar-lhe a camisa – que um dia fora – azul escura, encharcada de sangue.
- Você... Você sabe...
- Shh... Eu sei o que estou fazendo. Sou enfermeira.
- Por favor, me ajude – ele agarrou meu braço, cerrando os dentes para não gritar de dor quando comecei a procurar mais buracos em sua pele.
- Tudo bem. É o que estou fazendo.
- Será que você pode dizer onde estou?
- Bom... – eu olhei rapidamente para ele, franzindo as sobrancelhas. – Estás em Macapá, afastado do centro da cidade. Ahn... Estamos perto da Lagoa dos Índios.
- Macapá... Macapá... Amapá.
- Isso. Isso. O meu nome é Beatriz. Bia, se preferir. Acho que nesse estado não vais conseguir dizer o nome todo. Trabalho numa escola pública, no Cabralzinho, como enfermeira. Esta é minha casa. Estás na minha casa, no Buriti, e tudo vai ficar bem.
Eu falava, tentando distraí-lo, enquanto avaliava o resto dos danos com a mão empapada de sangue.
- Dói aqui? – apertei seu ombro.
- Ai!
- Está fraturado. Provavelmente a clavícula. Mas que coisa, hein? Precisamos ir para o médico. Acho que te trituraram... O que tu fizeste?
Ele fechou os olhos.
- Eu atrasei você.
- Realmente. Mas duvido que seja por isso que te moeram desse jeito.
- Por favor... Não me deixe aqui... Eu vou morrer. Não estou vendo direito.
- É o menor dos seus problemas. Tudo bem, já disse que não deixo. Você escolheu a porta certa para vir morrer, porque não vai. Mas agora... Tu também precisas me ajudar, certo? Vou ter que te colocar dentro de um Fiat velho e apertado e correr para o hospital. Mas para isso precisas levantar e se apoiar em mim, pode ser? Vamos no três. Um... Dois... Três. Isso. Muito bem. Meu carro está logo ali. Só mais um pouquinho. Aguente firme!
Aquele foi um dia surreal. Eu saíra de casa às seis da manhã, para encontrar um moribundo ensanguentado bem na porta. Um moribundo sem nome, sem pistas, sem memória.
Mas isso não significava que eu ia ficar sem respostas.
Ele havia feito com que eu perdesse uma segunda feira agitada na escola... Não fazia mal então que, em troca, fosse submetido a um pequeno interrogatório.
Mas eu duvidava que ele fosse se lembrar. Não conseguia raciocinar direito, os olhos estavam vidrados, os membros convulsivos, e a barriga toda furada. Até mesmo depois de atendido, quando voltei com ele em silêncio para a minha casa, seu olhar perdido permanecia confuso.
Era, sem sombra de dúvidas, um bandido. Devia estar metido com gangues, drogas, roubos, alguma fuga do IAPEN... qualquer tipo de coisa assim. Eu não duvidava e, apesar disso, não tinha medo. Só o que corria pelas minhas veias era uma curiosidade mórbida. Tentei controlá-la até que ele estivesse instalado. Na minha casa.
A amnésia momentânea tinha vindo bem a calhar. Por uns dias, até a recuperação completa, ele estaria fora das ruas e, se Deus quisesse, em segurança. Trancafiado num dos quartos da minúscula casa de uma enfermeira solteira e de poucas posses. Bem. Eu duvidava que ele pudesse reclamar de algo. Mal falava, e aquela situação deveria ser muito melhor que seu estado anterior.
O médico havia dito que a perda de memória se devia, provavelmente, a alguma experiência muito traumática que ele vivenciara havia algumas horas. Talvez demorasse uma soneca para voltar. Ou talvez as memórias sumissem por meses. Ou talvez não voltassem. Era difícil precisar, principalmente com tão poucos mecanismos, e ainda por cima precários, como o que havia no hospital onde o levei. Era muita ciência, muita predestinação, muito surrealismo para um médico cansado e cheio de olheiras de um hospital quase interiorano.
Então, eu e o baleado ficamos acertados tacitamente que ele permaneceria em minha casa.
Numa noite, depois de trocar suas bandagens, enfaixar com gaze nova os seus pontos de bala, e massagear a clavícula quebrada com azeite de andiroba, ele adormeceu.
Com calma e silêncio – coisas antinaturais numa pessoa elétrica e falante como eu -, tive o cuidado de colocar sua tipoia de volta como se estivesse tratando de uma criança. Então pude olhar melhor para ele.
Fazia duas semanas que estávamos naquela rotina. E ainda assim todo dia parecia algo novo. Ele me olhava, e me olhava, e me olhava... Enquanto eu tratava dos ferimentos. E nunca dizia nada. Quase nada. A não ser, é claro, aquele “obrigado” murmurado e emocionado depois de cada dia de curativos e esparadrapos.
No total, ele parecia um homem calmo. Algumas vezes, eu me excedia e falava tanto, mas tanto... E ele ouvia. Isso era o mais engraçado. Tinha comentários estranhos, engraçados ou inteligentes para fazer sobre o que quer que eu dissesse, e ainda assim não se lembrava de nada antes do dia em que chegara arrastando-se até a minha porta. E agora eu tinha certeza de uma coisa: ele não era um bandido.
Não um bandido no sentido mais brutal ao qual costumamos associar. Não... era algo mais. Podia até ser do tipo obscuro, o que eu duvidava, mas havia nele uma passividade régia, um jeito calmo, controlado, reservado de conversar. Sua voz era sóbria, seus gestos eram contidos e ele nunca reclamava. Transpirava até certa autoridade. E apesar de tanta calma e paz, os seus olhos transbordavam mistério e palavras. Vinte e quatro horas por dia.
Olhei para ele. Tirei-lhe aquele monte de cabelo liso da testa e penteei-os para trás. Sim, agora estava com os tais olhos fechados. Mas normalmente, esses mesmos olhos, olhos cinza, costumavam olhar para mim como se soubessem quem eu era, o que queria, como se conhecessem meus planos, minha alma. Havia um calor sinistro e provocante ali dentro. Um calor que beirava a estupidez romântica dos poetas. Um desses calores que a gente encontra nos olhos da nossa mãe, ou nos nossos próprios olhos, quando estamos de algum modo apaixonados. E seja pelo que for.
Ele tinha esses olhos. Cinza. O que me fez deduzir que não era um nativo da minha cidade. Mas não apenas por suas características genéticas, tão patentemente “sudeste”, “sul”, ou sei lá o quê... Mas também pelo sotaque. Era difícil de rastrear.
No dia seguinte, depois do café, ele pediu que eu o levasse até o deque. Não era normal que eu o arrastasse pelos minúsculos cômodos da casa, mas algumas vezes ele gostava de olhar para fora, pela varanda do quarto onde estava ou ainda pela janela de trás, que dava para a lagoa.
Minha casa era pequena, como se feita para alguma boneca Polly. No entanto, havia ali uma graça infantil que me encantara desde que eu saíra da casa dos meus pais em busca de um lugar só meu. Eu tinha dois quartos, um banheiro, uma cozinha, uma sala ampla no térreo e um deque, numa casa de dois andares. Era tudo o que eu precisava. E, afinal de contas, sem pagar nenhum centavo, já que o imóvel tinha sido presente do papai. Um brinde à independência dependente!
Ao ar livre no deque, ajudei-o a sentar-se numa das cadeiras acolchoada e redobrável e ficamos a observar o céu nublado de dezembro. Imaginei que o tempo não estivesse exatamente “frio” se comparado ao frio que ele estava acostumado - se fosse mesmo do sul ou sudeste -, mas ainda assim, passados alguns minutos eu voltei ao quarto e apanhei um edredom para envolvê-lo. Com o braço direito imobilizado, e o resto do corpo enfaixado, ele não fazia quase nada sem ajuda.
- Obrigado – disse com um sorriso largo, embora rápido, enquanto eu voltava a me sentar.
Ficamos assim um tempo, em silêncio. Eu terminava a minha caneca de Nescau quente. De vez em quando ele me olhava pelo rabinho do olho.
- Quantos anos você tem? – ele perguntou de repente. Fiquei um pouco embaraçada.
- Por quê?
- Por que o quê?
- Por que queres saber?
- Por... Curiosidade.
- 23. E tu?
Ele me olhou e sorriu.
- Ops! Desculpa.
- Tudo bem. Não é culpa sua eu não poder lembrar.
Eu sorri aliviada.
- Obrigado pelo que está fazendo, Bia.
- Ah... – descartei o agradecimento com a mão. – Não é nada. Costumo ajudar desconhecidos baleados que batem à porta da minha casa e melam meu carro de sangue. É uma espécie de hobbie.
Ele riu.
- Sabe... Amanhã é véspera de Natal. Já tens planos?
Ele me olhou captando meu ar sardônico.
- Você é insuportável às vezes.
- Eu sei!
- É claro que tenho planos. Vou fazer o que você fizer.
- Bem... Então aí complica.
- Por quê?
- Meus pais... Eu passo todo Natal na casa deles. Não sei se eu poderia dessa vez, contigo aqui.
- Mas por quê? Você pode ir, se quiser. Não se preocupe comigo.
- Eu gostaria que tu fosses comigo, essa é a verdade. Mas acho que meus pais estranhariam. Seria estranho, não seria? Contar isso para eles... Bem, fico imaginando quantos anos tu tens.
- E que isso tem a ver com a conversa que estamos tendo?
- Ah, teus olhos dizem que deves ter uns trinta. Não vou chegar em casa toda saltitante e, do nada, apresentar um namorado de trinta anos. Cairia mal. Também não posso esclarecer todo o potencial de bandido que tem o seu histórico recente. Então o jeito é ficarmos por aqui.
- Isso não me parece bem.
- Ei, eu mando aqui. Sou eu quem ainda está com a memória legal, esqueceu? Quem pode se lembrar do próprio nome faz as regras.
- Ok. Você manda. E o que vai dizer pra eles?
- Eu me viro. Gostas de peru?
Ele fuzilou-me com os olhos, mas riu.
- É o que vamos descobrir.
CASA, AMOR E GASOLINA (parte II)
Nossa véspera de Natal juntos, apesar de tudo, foi especial. Eu tinha montado a minha árvore ainda no mês de novembro, e quando o dia 24 enfim chegou tudo já estava pronto. Bastou colocar os presentes sob a árvore e comprar os ingredientes para a ceia. Tudo sairia delicioso, graças aos segredos culinários legados a mim pela minha vó. Eu faria daquele o melhor Natal para ele.
O que não era imediatamente tão difícil, levando em conta a falta de concorrência graças a sua perda de memória.
- Oi, cheguei.
- Oi... – ele veio mancando da cozinha, enquanto segurava o braço na tipoia. Começara a se movimentar melhor pela casa e já fazia pequenas tarefas.
- Tudo bem?
- Tudo. Deixa-me ajudar você com essas sacolas... Só as mais leves. Não quero me estripar.
Ele parecia estar escondendo alguma coisa. Posicionara o corpo bem na minha frente, de um modo um tanto estranho e desengonçado, ficando entre mim e a árvore de Natal perto da escada, e tapando meu campo de visão. Arrastou-me para a cozinha.
- O que você trouxe?
- Tira a mão daí! Caramba... Comes que nem um adolescente.
- Talvez eu seja.
- Ha, ha. Essa é boa. Olha essa cara. Tens até pé-de-galinha!
- Isso é porque eu sorrio muito, você não reparou? E você também não é nenhuma jovenzinha.
Eu nem respondi, pois já estava concentrada em outras coisas. De repente, perguntei, enquanto ele guardava – não com pouco esforço – o peru no freezer.
- O que você tá escondendo? E, ah, deixe isso do lado de fora. Vamos cozinhar agora.
- Algo mais, chef?
- O que está escondendo? Vamos, diga. Não quero ter que usar seu codinome.
Ficamos acordados que, enquanto ele não lembrasse o próprio nome, eu o chamaria de MacGyver.
Quer dizer, eu decidira assim. Havia pensado isso logo no primeiro dia, quando voltamos do hospital, pelo simples motivo de que ninguém sobreviveria a tantas balas e tantos traumas se não fosse, pelo menos, algum pseudo hiper-agente digno de filme.
Ele não teve como reclamar. Na verdade, nem contestou: não sabia mesmo quem era MacGyver.
- De onde você tirou que eu estou escondendo alguma coisa?
- Dá para perceber. São esses teus olhos que te entregam.
Ele me ignorou.
- O que eu posso fazer?
- Comece lavando as frutas.
Ele fez uma careta.
- E tente não morrer com isso.
No mais, a festa foi boa. Meus pais ligaram à meia-noite e tudo correu bem com a troca de felicitações. Sem muitas perguntas, apenas o contentamento de que a filha estava crescendo. Depois das doze badaladas, tivemos a ceia e, quando satisfeito e certo de que gostava mesmo de peru, tivemos a troca de presentes.
Até onde eu sabia, não seria uma troca. Apenas eu tinha saído e comprado algumas quinquilharias para dar a ele. Inclusive um rolo de gaze, numa espécie de piadinha de mau-gosto. Mas a surpresa foi grande quando descobri um pacote suspeito na árvore.
- O que é isso? – apontei para a caixinha e apanhei-a.
- Vamos, abra. É um presente meu pra você.
Deixei cair o queixo.
- Como assim? Quando? Tu...?
- É, eu comprei. Na verdade, não eu. O seu vizinho. Eu pedi que ele me fizesse esse pequeno favor. É um senhor muito simpático, por sinal, mas não pouco curioso. Enfim, contornado esse problema... Ah, claro. O dinheiro. Foi tudo pago com muita dignidade, ouviu? Eu gastei aquela grana que nós achamos no bolso da minha calça jeans, na noite em que vim bater aqui, ensanguentado.
- Eu lembro. Era uma boa grana.
- Mas o presente não é nem metade do que eu queria dar. O que você fez aqui comigo foi... Realmente... Algo estranho. Duvido que alguém mais fizesse. Na certa você pensou que eu fosse um bandido ou sei lá, mas eu não... Eu quero muito acreditar que não sou. E que esse dinheiro comigo era realmente meu. E com ele eu posso fazer o que quiser. E dar um presente a você. E agradecer pelo que fez até aqui. As roupas, a comida, a casa... Eu... Obrigado.
- Claro.
Não quis dizer mais nada. Estava extasiada, surpresa, atônita. Abracei-o.
- E agora é a parte em que você abre.
- Ah, desculpe! – eu ri. – Ainda estou meio pasma.
- Não fique. Até onde eu me lembro, as pessoas costumam ganhar coisas no Natal.
- Você não lembra – abri a caixa.
Era um colar, lindo, lindo. Uma corrente dourada simples contornada por pedrinhas coloridas. Talvez semipreciosas. O dinheiro dele daria para algo assim – mas só se gasto completamente.
- Gostou?
- É lindo... Mas acho que significa que tu gastaste todo o teu dinheiro e que eu não vou te ver longe daqui tão cedo.
Ele viu.
- Venha cá. Vamos experimentar nesse pescoço de ganso.
- Abusado.
Aproximei-me e, com delicadeza, ele apanhou o colar com a mão esquerda e colocou-o em meu pescoço de frente para mim, olhando-me nos olhos.
- Isso é tudo o que sabes fazer? – perguntei, esperando mais alguma reação quando ele apenas ficou olhando, distraído e concentrado, para o meu pescoço. Então me encarou e indicou o braço direito.
- Acredito que você vá ter que se virar com o fecho.
Revirei os olhos.
- Claro. Tanta galanteria não ia dar em nada mesmo! Como sempre, eu faço o trabalho pesado.
- Eu ajudei com as frutas, não ajudei?
Eu sorri e abracei-o de novo.
- Obrigada, é lindo. MacGyver.
Ele afastou-me com uma mão e beijou-me o rosto. Ficamos num silêncio constrangido até que eu desse um jeito:
- Vamos subir. Teu ferimento deve estar doendo. Vou fazer uma massagem e então volto para arrumar tudo aqui embaixo, está bem?
- Certo. Ajuda aqui com essa perna.
Subimos e ele, antes que pudesse disfarçar, logo cedeu ao cansaço. Estava exausto, e desabou na cama.
- Seu ombro tá latejando, não é? – perguntei depois de trocar os curativos no tronco. Ele nem precisou responder. – Não falta muito pra tirar os pontos, talvez semana que vem. Agora, vamos dar um jeito nesse ombro.
Obediente e calado, ele sentou-se ereto na cama para que eu ajeitasse o travesseiro bem direitinho às suas costas. Com a intenção de massagear-lhe o ombro, ajudei-o a tirar a camisa sem mangas, passando-a pelo tórax enfaixado e pela tipoia. Ele fez uma careta.
- Tudo bem aí? – perguntei penteando o cabelo louro escuro para trás, até ver a testa.
- Tudo. E agora? – ele olhou-me.
- O quê?- sussurrei de volta, sem entender.
Ficamos em silêncio um instante.
- Bia...
- Hum?
- Eu... Nada.
Por impulso, beijei-o. Bem de leve. Só encostei meus lábios.
- Desculpa.
- Shh... Não se desculpe por uma coisa dessas.
- Tá bom.
- Mas por que fez isso?
- Juro, eu não sei.
- Talvez devêssemos tentar de novo. Talvez a gente descubra.
Então eu sorri.
- Prometo ter cuidado.
Encostei-me de leve em seu peito e beijei-o. Esbarrei algumas vezes em seu braço, me empolguei, mas ele suportou tudo estoicamente. E me abraçou como se eu fosse de vidro, como se quisesse tocar minha alma. Quando percebi, não havia mais qualquer tecido, nem um fio entre nós. Ele ofegou quando pressionei demais meu corpo contra seu tórax, então desgrudou os lábios dos meus, a mão boa subiu até meu cabelo e enrolou-se nos cachos.
- Desculpe... Eu te machuquei. Fiquei empolgada – ri sem jeito.
- Acho que não existe uma maneira simples de fazermos isso – ele puxou o ar.
Preocupada, comecei a desmontar de cima dele, para que pudesse respirar.
- Afinal de contas – comentei - não é o MacGyver.
Então ele riu, segurando o estômago para não desbocar de vez.
- Calma, calma... – puxou-me de volta. – Espere. Deixe-me pensar.
Ele então me olhou com um brilho travesso nos olhos. Como se tivesse uma ideia. E disse:
- Você sabe cavalgar?
O que não era imediatamente tão difícil, levando em conta a falta de concorrência graças a sua perda de memória.
- Oi, cheguei.
- Oi... – ele veio mancando da cozinha, enquanto segurava o braço na tipoia. Começara a se movimentar melhor pela casa e já fazia pequenas tarefas.
- Tudo bem?
- Tudo. Deixa-me ajudar você com essas sacolas... Só as mais leves. Não quero me estripar.
Ele parecia estar escondendo alguma coisa. Posicionara o corpo bem na minha frente, de um modo um tanto estranho e desengonçado, ficando entre mim e a árvore de Natal perto da escada, e tapando meu campo de visão. Arrastou-me para a cozinha.
- O que você trouxe?
- Tira a mão daí! Caramba... Comes que nem um adolescente.
- Talvez eu seja.
- Ha, ha. Essa é boa. Olha essa cara. Tens até pé-de-galinha!
- Isso é porque eu sorrio muito, você não reparou? E você também não é nenhuma jovenzinha.
Eu nem respondi, pois já estava concentrada em outras coisas. De repente, perguntei, enquanto ele guardava – não com pouco esforço – o peru no freezer.
- O que você tá escondendo? E, ah, deixe isso do lado de fora. Vamos cozinhar agora.
- Algo mais, chef?
- O que está escondendo? Vamos, diga. Não quero ter que usar seu codinome.
Ficamos acordados que, enquanto ele não lembrasse o próprio nome, eu o chamaria de MacGyver.
Quer dizer, eu decidira assim. Havia pensado isso logo no primeiro dia, quando voltamos do hospital, pelo simples motivo de que ninguém sobreviveria a tantas balas e tantos traumas se não fosse, pelo menos, algum pseudo hiper-agente digno de filme.
Ele não teve como reclamar. Na verdade, nem contestou: não sabia mesmo quem era MacGyver.
- De onde você tirou que eu estou escondendo alguma coisa?
- Dá para perceber. São esses teus olhos que te entregam.
Ele me ignorou.
- O que eu posso fazer?
- Comece lavando as frutas.
Ele fez uma careta.
- E tente não morrer com isso.
No mais, a festa foi boa. Meus pais ligaram à meia-noite e tudo correu bem com a troca de felicitações. Sem muitas perguntas, apenas o contentamento de que a filha estava crescendo. Depois das doze badaladas, tivemos a ceia e, quando satisfeito e certo de que gostava mesmo de peru, tivemos a troca de presentes.
Até onde eu sabia, não seria uma troca. Apenas eu tinha saído e comprado algumas quinquilharias para dar a ele. Inclusive um rolo de gaze, numa espécie de piadinha de mau-gosto. Mas a surpresa foi grande quando descobri um pacote suspeito na árvore.
- O que é isso? – apontei para a caixinha e apanhei-a.
- Vamos, abra. É um presente meu pra você.
Deixei cair o queixo.
- Como assim? Quando? Tu...?
- É, eu comprei. Na verdade, não eu. O seu vizinho. Eu pedi que ele me fizesse esse pequeno favor. É um senhor muito simpático, por sinal, mas não pouco curioso. Enfim, contornado esse problema... Ah, claro. O dinheiro. Foi tudo pago com muita dignidade, ouviu? Eu gastei aquela grana que nós achamos no bolso da minha calça jeans, na noite em que vim bater aqui, ensanguentado.
- Eu lembro. Era uma boa grana.
- Mas o presente não é nem metade do que eu queria dar. O que você fez aqui comigo foi... Realmente... Algo estranho. Duvido que alguém mais fizesse. Na certa você pensou que eu fosse um bandido ou sei lá, mas eu não... Eu quero muito acreditar que não sou. E que esse dinheiro comigo era realmente meu. E com ele eu posso fazer o que quiser. E dar um presente a você. E agradecer pelo que fez até aqui. As roupas, a comida, a casa... Eu... Obrigado.
- Claro.
Não quis dizer mais nada. Estava extasiada, surpresa, atônita. Abracei-o.
- E agora é a parte em que você abre.
- Ah, desculpe! – eu ri. – Ainda estou meio pasma.
- Não fique. Até onde eu me lembro, as pessoas costumam ganhar coisas no Natal.
- Você não lembra – abri a caixa.
Era um colar, lindo, lindo. Uma corrente dourada simples contornada por pedrinhas coloridas. Talvez semipreciosas. O dinheiro dele daria para algo assim – mas só se gasto completamente.
- Gostou?
- É lindo... Mas acho que significa que tu gastaste todo o teu dinheiro e que eu não vou te ver longe daqui tão cedo.
Ele viu.
- Venha cá. Vamos experimentar nesse pescoço de ganso.
- Abusado.
Aproximei-me e, com delicadeza, ele apanhou o colar com a mão esquerda e colocou-o em meu pescoço de frente para mim, olhando-me nos olhos.
- Isso é tudo o que sabes fazer? – perguntei, esperando mais alguma reação quando ele apenas ficou olhando, distraído e concentrado, para o meu pescoço. Então me encarou e indicou o braço direito.
- Acredito que você vá ter que se virar com o fecho.
Revirei os olhos.
- Claro. Tanta galanteria não ia dar em nada mesmo! Como sempre, eu faço o trabalho pesado.
- Eu ajudei com as frutas, não ajudei?
Eu sorri e abracei-o de novo.
- Obrigada, é lindo. MacGyver.
Ele afastou-me com uma mão e beijou-me o rosto. Ficamos num silêncio constrangido até que eu desse um jeito:
- Vamos subir. Teu ferimento deve estar doendo. Vou fazer uma massagem e então volto para arrumar tudo aqui embaixo, está bem?
- Certo. Ajuda aqui com essa perna.
Subimos e ele, antes que pudesse disfarçar, logo cedeu ao cansaço. Estava exausto, e desabou na cama.
- Seu ombro tá latejando, não é? – perguntei depois de trocar os curativos no tronco. Ele nem precisou responder. – Não falta muito pra tirar os pontos, talvez semana que vem. Agora, vamos dar um jeito nesse ombro.
Obediente e calado, ele sentou-se ereto na cama para que eu ajeitasse o travesseiro bem direitinho às suas costas. Com a intenção de massagear-lhe o ombro, ajudei-o a tirar a camisa sem mangas, passando-a pelo tórax enfaixado e pela tipoia. Ele fez uma careta.
- Tudo bem aí? – perguntei penteando o cabelo louro escuro para trás, até ver a testa.
- Tudo. E agora? – ele olhou-me.
- O quê?- sussurrei de volta, sem entender.
Ficamos em silêncio um instante.
- Bia...
- Hum?
- Eu... Nada.
Por impulso, beijei-o. Bem de leve. Só encostei meus lábios.
- Desculpa.
- Shh... Não se desculpe por uma coisa dessas.
- Tá bom.
- Mas por que fez isso?
- Juro, eu não sei.
- Talvez devêssemos tentar de novo. Talvez a gente descubra.
Então eu sorri.
- Prometo ter cuidado.
Encostei-me de leve em seu peito e beijei-o. Esbarrei algumas vezes em seu braço, me empolguei, mas ele suportou tudo estoicamente. E me abraçou como se eu fosse de vidro, como se quisesse tocar minha alma. Quando percebi, não havia mais qualquer tecido, nem um fio entre nós. Ele ofegou quando pressionei demais meu corpo contra seu tórax, então desgrudou os lábios dos meus, a mão boa subiu até meu cabelo e enrolou-se nos cachos.
- Desculpe... Eu te machuquei. Fiquei empolgada – ri sem jeito.
- Acho que não existe uma maneira simples de fazermos isso – ele puxou o ar.
Preocupada, comecei a desmontar de cima dele, para que pudesse respirar.
- Afinal de contas – comentei - não é o MacGyver.
Então ele riu, segurando o estômago para não desbocar de vez.
- Calma, calma... – puxou-me de volta. – Espere. Deixe-me pensar.
Ele então me olhou com um brilho travesso nos olhos. Como se tivesse uma ideia. E disse:
- Você sabe cavalgar?
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