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sábado, 15 de junho de 2013

O SABOR DE SER 19

[Como se hoje fosse ainda dia 14:]

  19 anos, hoje. São, pelo que diz a calculadora, 6650 dias. 79800 horas. Minutos infindáveis de uma existência quase que exclusivamente dedicada ao ócio improdutivo e à procrastinação eterna, mesclados com raros momentos de inspiração abobalhada.
  A verdade é que me sinto muito mais tendo 19 (tão abstrato e ao mesmo tempo tão concreto), do que sendo, propriamente, dezenove-anos. Eu tenho esse número exato, mas não é como se eu mesma ele fosse. Fico na indefinição do ser-se e/mas não sentir-se (deixe as ênclises aí).
  O próprio dia de hoje já amanheceu assim, dúbio. Belo, mas dúbio. Dúbia Fortaleza chuvosa, envolta num vento quase enregelante, ainda que com aquele mormaço sufocante e um sol de crestar miolos. Um calor-frio, uma luminosidade opaca, um brilho intenso filtrado por um céu nublado de grossos e cinzentos chumaços de algodão, enquanto se sua e se treme à espera do ônibus que nunca virá, porque o caos urbano não refresca nem mesmo para os aniversariantes.
  Contudo, embora eu molhada de inconstâncias e incertitudes, foi este um dia feliz. Um daqueles dias em que se sorri para os gatinhos marajás, paxás a se lamberem regiamente sob o sol da UFC, um daqueles dias em que não se enxota a formigona que subiu no seu pé, um daqueles dias em que você se descobre um ser amado.
  A minha ideia de velhice não era uma vida solitária rodeada por felinos. A minha ideia de velhice máxima, há alguns centênios, era completar 13 anos. Número não totalmente aleatório. Acontece que eu devia ter lá meus sete, quando uma prima mais velha, que morava no Rio, mandou-me uma carta, e nela havia um desenho cujo título era "Bárbara aos 13 anos". A figura angulosa conseguira mais ou menos domar um cabelo leonino e detinha uma estreiteza de dar inveja. Ter treze anos passou, assim, a representar o auge do amadurecimento, o ser alguém no mundo, com um metro quadrado de existência autônoma.
  E eu costumava achar um saco ser criança. Era cruel. Porque criança sofria (aqui o eco da menina que desde sempre foi um bocadinho melancólica), não podia participar das confabulações dos adultos na cozinha, e tinha sempre que ficar vigiando a postura e passando cuspe no joelho pra tirar a "tuíra".
  Enfim, alcancei os treze. Sem grandes arroubos. Passei pelos superestimados 18, e chego agora, discretamente, aos 19. Com aquele ar mais ou menos fatigado e o sorrisinho meio que desdenhoso-condescendente de quem enfim compreendeu o grande lugar-comum dos adultos: crescer não é tão mágico assim...
  É, afinal, só uma questão de ser forçado a aprender de uma vez por todas a atravessar a rua sem a mão amiga entrelaçada à sua; e é ainda apenas questão de fazer o seu próprio pedido à atendente no caixa do McDonald's (contendo o desejo ardoroso de pedir um McLanche Feliz e descolar para si aquele brinde tão maneiro do Keroppi); crescer é apenas uma questão de aprender a pegar o ônibus certo e fazer o favor de não chorar caso você se perca.
  Ter 19, ou mesmo o 13 idealizado, consiste basicamente em dominar todas essas habilidades desiluminadas. Não importa se você foi uma criança que aprendeu a pintar magnificamente com o lápis de cor, sem sair da linha, aos três anos de idade. O que importa ao externo é que você não seja um pobre coitado de 19 anos que ainda atravessa a rua feito um trem descarrilado e sofre com a voz embargada ao tentar perfurar a carapaça da timidez e fazer o seu pedido à mocinha impaciente e meio surda do caixa.
  Mas, bom, a intenção não era transformar esse texto num daqueles manifestos a favor dos que não querem crescer. Eu mesma não quero ser um desses que não quer crescer... Mas quero fazer de mim um daqueles adultos que se olham no espelho e conseguem se perdoar por terem crescido, e que não se levam muito a sério, e que gargalham sozinhos ao notar, depois de uma hora incessante de busca, que os óculos estavam, desde o início, estacionados no topo da cabeça!
  Enfim, todas essas bobagens rabiscadas simplesmente para balbuciar que foi este um dia bom, um dia feliz. O teor da reflexão murcha pode parecer ter sido feito para murchar também quem lê, mas não. São apenas aquelas coisas que a gente despeja quando encontra a desculpa de ter nascido no bendito dia presente.
  Por fim, notas de rodapé:  talvez a maturidade ordinária que se espera de alguém que se diz um 19 anos só me brote mesmo quando eu for para lá dos 30.
  Especificamente quanto ao dia de hoje, 14, gostaria que meu avô estivesse aqui em Fortaleza com a gente. E também a minha mãe. E minha irmã. E tios. E primos. Mas aceitar as circunstâncias intransponíveis com resignação e desprendimento faz parte também de crescer, eu imagino, e ao menos este amadurecimento eu me concedo (tento).
  Vovó chorou hoje, é claro, como era de se esperar. E o elemento desencadeador foi o "bonequinha" com que um de meus tios iniciou a mensagem de parabéns à aniversariante. E pensei, cá com meus botões (de celular): "Ainda bem que, neste país estrangeiro (que é a idade dos que já amadureceram), pelo menos nos permitem chorar...".

um vislumbre da velhice

quinta-feira, 23 de maio de 2013

sexta-feira, 17 de maio de 2013

APRENDI UMA PALAVRA NOVA

O mal desses (já velhos) novos tempos é que tudo dá gastura na gente.
"Gaxxxxtuuura"... Assim mesmo, bem prolongada.

A GRIPE QUE NUNCA PASSOU

Acho que, quando eu era pequena, peguei uma gripe e ela nunca sarou. Eu tenho essa moleza de espírito que me faz arrastar pelos dias a fio, sem fazer nada. Deixo para o último segundo todas as coisas, porque a cama me chama. O travesseiro, a preguiça. Um eterno protelar de quem tem o corpo todo dengoso de gripe...
Os meus olhos lacrimejam, o meu nariz escorre, e os ossos do crânio, os dentes, todos doem. É um estado permanente. Essa vontade passiva de morrer para o mundo, essa preguiça de viver. Nada muito definitivo, apenas parado, suspenso. Poderia ser verme, mas não, é gripe, gripe de alma, já diagnostiquei.
E quando o tempo piora, cai chuva, faz sol brabo, o meu estado, como fica? Assolado. Arrasado. Garganta cortada, inflamada, gosto amargo na boca, os olhos vazios, meio melados, molhados, a coriza do coração e o tapamento dos ouvidos, enquanto a tosse literária não me larga...
É gripe, na certa. É gripe.

"Okay", he said

Terminei de ler (14/05) "A culpa é das estrelas". Incrível (e reconfortante) pensar que bons textos ainda estão sendo escritos. Não sei se a lógica duramente capitalista do mercado editorial permitiria que mais livros humildemente brilhantes e apelativos (não de um jeito ruim) como este sejam feitos, sem deixar que a capa do livro, o marketing resenhista, o "todo mundo tá lendo no universo dos pré-adolescentes e mal-comidos" impeçam o crescimento natural, maduro e discreto (ainda que, no caso de "The fault in our stars", como acontece com frequência em tantos outros, tenham insistido em anexar à capa, posteriormente, o polêmico - e por mim desprezado - selo "#1 New York Times best-seller") de obras assim.
É um livro muito jovem para adultos esgotados. É um livro muito adulto para jovens-ameba (contingente majoritário neste planeta). É, portanto, um livro para jovens adultos. Ou adultos jovens. De alma, digo. E disposição. Pessoas que entendam que a capa  e o título (quando traduzido para o português, ressalvo, já que o original funciona perfeitamente, e orgulharia qualquer Harold Bloom) não conseguem abarcar, em sua tola alegria esfuziante de nuvens em giz de cera e um brilhante fundo azul-verão, toda a magnitude dessa obra humildemente pretensiosa.  E mais que satisfatória às próprias pretensões.
E mais, devo dizer, para salvar a honra dos que não se contentam com o apelo errado das cores equivocadas na capa de um livro que se vende de um jeito (matem as malditas editoras e estantes "badaladas" de livrarias) mas que não faz concessões ao hipotético público-alvo:  azul é também tristeza, inclusive os tons mais brilhantes.
E brilhantismo é a palavra para esse romance suficientemente desmistificado/desmistificador, onde você se comove com a doce filosofia de boteco-bistrô irrepreensível, com o amor que achou já não estar mais em moda (entre pais e filhos), com os diálogos de referências primorosas (e, Deus salve John Green e os sábios tradutores, não exaustivamente explicadas em "N.T.s" e N.E.s", por terem consciência de que só servem para público os que têm intelectualidade suficiente para captar os estímulos). Enfim, um ótimo livro. Para desafogar as vistas (e os sonhos) da quantidade surpreendente de lixo com que - aqui vai um belo exemplo, ainda que aleatório - as Lojas Americanas têm entulhado as prateleiras (de suas lojas e de nossos cérebros).

quinta-feira, 9 de maio de 2013

AS COISAS QUE EU DEVERIA ESTAR FAZENDO

Eu realmente deveria atualizar mais meu blog, e é o que estou fazendo agora, mas só porque, na verdade, eu deveria estar estudando, mas como estudar é a última coisa que eu faço sempre, a atualização do blog subiu na lista de prioridades e deixou de ser a coisa número um na lista de coisas não feitas que eu deveria estar fazendo. Mas não. Calma. Está confuso. A questão é: eu deveria estar fazendo uma porção de coisas, e como atualizar o blog deixou de ser uma delas, é ela que estou fazendo, porque normalmente deixo para fazer as coisas que já não deveria. Hunf.
Eu deveria estar melhorando a minha postura e deveria estar domando o meu psicológico. Eu deveria estar me autoanalisando e vendo o que precisa ser jogado fora. Eu deveria ter menos autocomiseração e chorar menos e agir mais. Eu deveria parar de ser tão íntima em domínios tão públicos. Eu deveria parar de fantasiar e ter mais foco. Eu deveria ter uma porção de amigos e saber cuidar bem deles, para não perder assim como já perdi uma tonelada de tantos outros. Eu deveria.
Eu deveria ter mais amor-próprio e melhorar a autoestima, eu deveria, porque conviver com pessoas inseguras é um troço muito chato. Eu deveria ser mais atenciosa com quem gosta de mim e me tolera, e deveria ser menos tolerante com quem me desaponta, se desponta de mim e me enerva. Eu deveria ser mais afável e menos bipolar - o problema é que eu não sei ser nenhum dos dois, mas deveria.
Eu deveria desaprender a alimentar paixões neoplatônicas, eu deveria. Eu deveria desistir logo dos sonhos literários, se ficar provado de uma vez por todas que não tenho talento. Eu deveria comer menos, beber menos refrigerante, beber mais água, encolher a barriga. Eu deveria condicionar meu próprio cérebro a não ter mais tantos pensamentos fixos - me livrar desses pensamentos fixos deveria ser minha fixação primordial. Eu deveria.
Eu deveria ouvir mais minha própria voz interna, porque ela sempre sabe quando eu tô errada. Eu deveria. Eu deveria ser menos dependente do alheio, eu deveria. Eu deveria reaprender a me alegrar com a minha melancolia, e reaprender a não mais ligar se estou só - o fato é que estamos todos muito sós e abandonados. Eu deveria. Não mais chorar por nada disso. Já disse.
Eu deveria não rir tanto do que os outros dizem, mas é que de tudo acho graça. Eu deveria não. Eu deveria lembrar mais do que já consegui, pra gostar mais de mim, mas essas conquistas não significam nada. Eu deveria aprender a ser mais crítica. Aprimorar meus argumentos. Eu deveria sorrir mais e rir menos. Eu deveria.
Eu deveria encontrar um modo de ficar mais tempo em paz. Eu deveria terminar as aulas de violão e sair aprendendo alguma coisa. Eu deveria ter trazido o violão quando pude. Ou não me importar sobremaneira com isso. Eu deveria não migalhar. Eu deveria ter dito, naquele dia, no fim da aula: "Não quero". Mas como eu poderia ter previsto? E daquela outra vez, ter dito não também. Eu deveria ter voltado todo o caminho e ter dito.
Eu deveria estar estudando, porque amanhã tem prova. Eu deveria. Mas faço?

quinta-feira, 21 de março de 2013

TENHO DUAS COISAS A DIZER

1ª - Preciso urgentemente de amigos que me levem para passear.

2ª - Estou apaixonada pelo presidente do México.

sábado, 16 de março de 2013

COMO DIZER...?

Como dizer para aquele seu amigo ou conhecido que, no inglês, o adjetivo vem antes do substantivo? Que você quer de volta aquele livro que emprestou há mais de um ano? Que os acentos não existem por acaso, e devem ser colocados nas palavras dos trabalhos que vocês fizerem juntos? Que o personagem que ele mais gosta vai morrer antes do final da série/livro e, por isso, é melhor não se afeiçoar tanto? Que ouvir sertanejo não o promove a uma categoria de seres humanos legais? Que usar os cortes de cabelo do Neymar não faz dele um grande jogador de futebol-pegador-ricaço? Que o perfume que usa dá náuseas? Que mastigar de boca aberta e fazendo barulho ainda não está na moda? Que batom azul assusta? Que você prefere pizza sem cebola? Que não quer ganhar um ovo de páscoa de Charge, porque não gosta de chocolate com amendoim? Que não se pronuncia "Keiti" Richards? Que as montagens fotográficas que ele faz são toscas? Que ninguém se interessa por seu coração partido semanalmente? Que ninguém quer saber onde ele está nem o que anda comendo? Que ninguém liga para o fato de se sentir feliz porque hoje é sábado? Que é chato - e ilógico -  reclamar de dor de cabeça e continuar no Facebook? Que Johnny Depp não é uma espécie de messias? Que elogiar a fotografia de um filme não faz dele um crítico de cinema? Que ele não sabe usar as palavras "paradigma", "estereótipo", "paradoxo" e "clichê" nos contextos certos? Que dor de corno nas redes sociais é mais repelente que ao vivo? Que ele não tem autoridade para corrigir a gramática de ninguém? Que ele superestima o consumo de Doritos? Que compartilhar fotos de cachorrinhos e bebês desconhecidos não o torna cativante? Que seu gosto musical o está reduzindo a uma ameba? Que ele coloca vírgulas onde não deveria? Que ser poeta de Facebook é mais ridículo que lírico? Que ninguém está dando a mínima para o seu aumento de bíceps? Que exibir glúteos e glândulas mamárias em fotos não atrai pensamentos saudáveis? Que ele não é bom em inventar piadas? Que não vai conseguir passar em Medicina? Que não desenha nem de perto "bem"? Que jamais será um escritor? Que seu francês é sofrível? Que aquela foi uma curtida irônica de fulano? Que ter pintado o cabelo foi um erro? Que gostar de velha MPB ou derivados não o faz mais adulto ou intelectual? Que ter dreads não o promove a nenhuma categoria de almejada idiossincrasia? Que ele não precisa baixar toda a discografia e decorar todos os nomes dos integrantes e seus parentes para se tornar fã de uma banda? Que ninguém jamais curtirá seus vídeos no YouTube gravados com a câmera do Motorola V3 e, se depender disso, jamais será um grande vlogger? Que "A batalha do apocalipse" não é "o melhor livro do mundo"? Que tirar fotos de boca torta é quase tão traumatizante quanto com a língua de fora? Que dá vergonha ao vê-lo citar Caio Fernando Abreu ou Paulo Coelho? Que andar com uma garrafinha de água pra cima e pra baixo é broxante?
Como? Como?
Faça o seguinte: mostre esta postagem a ele; cole no mural, faça o link sutilmente escorregar em alguma rede social, ou abra a janela no notebook e saia de fininho, e deixe o resto por conta do cidadão... E se, ao final, não resultar... Bem, arranje novos amigos.

domingo, 25 de novembro de 2012

NA FILA

Delícias infinitas nos são proporcionadas quando estamos ali ranzinzas, azedos à espera do atendimento, como que para compensar a demora paradoxal dos fast food.
Dois Sócrates na fila:
- ... É louco, cara! Você faz uma descoberta. E aí vai percebendo ao longo do seu cotidiano, nos dias seguintes, imediatamente após o descoberto, milhares de referências àquilo que antes você não conhecia. Filmes, músicas, hiperlinks, notas de rodapé nos livros... Uma loucura...
- Sei como é. Então a gente para pra pensar e se pergunta quantas coisas mais tem deixado escapar... Vivemos essa vida de ignorância plácida, ridícula...
- Mas aí, superado o desespero inicial, vem essa mesma ignorância, com aquela vozinha doce, confortadora, e sussurra no seu ouvido... "Calma... Você viveu até aqui sem saber de nada... Não é agora que vai morrer, não é mesmo?"
- Ha, ha, ha! Essa ignorância é mesmo uma quenga!
- É...
- Interessante mesmo é aproveitar o caminho natural das descobertas, não é? Não tem jeito. Deixa rolar. Não vou sair à caça. Se algo escapar à percepção, nem saberemos. Afinal, não sabemos mesmo!
- Verdade... E por mais que eu venha a saber de algo mais, permaneço sem saber de todo o resto. O fato de eu começar a conhecer só me mostra como sou ignorante!
- Saber que nada se sabe é uma bênção. Não corro o risco de achar que já sei de tudo. Essas descobertas fortuitas me mantêm ligadão. E aí, vai pegar o Big Mac de sempre?
- Hoje eu vou de Big Tasty.

FALANDO COM DEUS

Senhor, cansei de tentar parecer inteligente.
Faz de mim logo um pitéu e me poupa desses esforços vãos...

sábado, 17 de novembro de 2012

POMBOS GEMEDORES

Não sei se no pesadelo urbano existe som mais melancólico ou sinistro
do que o arrulhar noturno de um pombo à janela.

Penso que os pombos são corujas frustradas.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

QUEM SOU EU

Eu sou
um sinal na bochecha.
Eu sou
uma dentição mal-feita.
Eu sou
uma cabeleira rebelde.
Eu sou
pele peluda.
Eu sou
resquícios de textos.
Eu sou
um nariz de tubérculo.
Eu sou
dois olhos manchados.
Eu sou
manto estriado.
Eu sou
pés chatos.
Eu sou
o que fazes de mim.
Quando, na verdade,
não sou.


segunda-feira, 21 de maio de 2012

MULHERES, REPITAM COMIGO:

— Não mendigarei o amor de ninguém. Também não barganharei usando o amor como moeda de troca. Amarei indistintamente. Amarei como me amo. Se não me amarem de volta, azar de quem me perdeu. Ou melhor, não sou coisa para ser possuída e perdida. Então azar mesmo é de quem não soube me valorizar. Todavia, ponho-me superior a tudo isso - sentimentos são preciosos demais para que eu estrague minha própria vida chateada ante a incapacidade ou desleixo emocional de terceiros.
Não vou deixar que me classifiquem, massacrando-me, nem aceitar rótulos alheios. Meu bom-gosto ou falta dele pode até ser julgado de acordo com o que porto ou trajo, mas isso também é relativo, e o meu valor real não é medido pelo tamanho do meu salto, pela cor do meu sapato, pela cor do meu esmalte, pela cor do meu cabelo ou pela cor da minha pele. Não tenho que me sentir inferior por que alguém diz: "Prefiro as branquinhas". Não tenho que me sentir inferior por que alguém diz: "Mulheres negras têm o corpo perfeito, as outras não". O que é o corpo? Matéria que se corrói. Não tenho que me sentir inferior nem mesmo se as minhas feições todas, até as microscópicas nuanças, não correspondem ao padrão de beleza preponderante. Não faço parte d'um gado. Ainda que eu busque minha identidade dentro de uma coletividade osmótica, não sou cópia, não sou réplica, não sou arremedo de ninguém.
Não vou deixar nenhum tolo tacanho me lobotomizar, fazendo-me acreditar que a sortuda sou eu, por ele estar junto comigo. Não vou encarar a vida como uma missão a ser cumprida unicamente para se subir ao altar e afins. Porque, se assim encaro, deixo de viver no momento em que me enrolar por entre as rendas matrimoniais ou amigadas. E fim.
Também não azucrinarei ninguém com minhas próprias exigências. Se quero algo, que venha de mim, e que eu seja a primeira dar. Mas que eu não seja a única. No momento cauteloso das primeiras interações, em que eu perceber que a hipotética outra metade não é a minha exata metade, da mesma maneira doada e rendida, revejo o cenário, pulo fora de cena.
Ademais, não fingirei que sou um poço de atitude, quando tudo o que eu quero é mergulhar-me em letargia, ver filmes românticos, de coque e pantufa, sentada no sofá com meus velhos.
Não vou fingir que tenho a vida mais emocionante do mundo, que fui a todos os lugares, que vi de tudo e provei de tudo, quando na verdade ser pura e simplesmente eu é tudo o que o meu coração almeja.
Não vou me iludir, fantasiar, por exemplo, repetindo o mantra: “Todos os machos da espécie me desejam”, com a convicção ilusória de que isso é felicidade, e de que minha "presença de palco" seduz a todos, e meu espírito aventureiro não me prende a ninguém, deixando, assim, um rastro de lágrimas e cacos aos meus pés.
Tudo o que eu quero, e que vou ser, é ser eu, sem a pretensão arrogante de ser eu e mais um pouco, quando o meu eu já encerra tudo. Terei dois ou três admiradores, dentre os quais papai e/ou mamãe, nenhuma bisonha ambição de sair por aí ferindo os corações de outrem, por mais glamoroso que isso pareça através das lentes cor-de-rosa.
Vou ser uma pessoa centrada, se é o que quero ser; cuidando bem de mim também, e zelando pela vida que carrego, por mais que vozes no entorno digam que o bacana mesmo é relevar, curtir despreocupadamente, desesperadamente, pular de noite em noite, de agito em agito, de trago em trago, de espetáculo em espetáculo, de horror em horror, de vazio em vazio. Banalidade cíclica! E se eu quiser ser quadrada? E se gosto de mim muito mais quando sou quadrada? Serei quadrada e pronto!
Que se danem as expectativas não maturadas. Os lugares que eu "tenho" que ir, as pessoas que eu "tenho" que conhecer, as iguarias que eu "tenho" que provar, os olhos que eu "tenho" que capturar!
Eu não tenho que comer sushi/sashimi só porque os outros ocidentais encasquetaram de "sacralizar" o arroz empapado e o peixe cru. Não tenho que ler os livros que todo mundo lê só pelo medo de, caso não o faça, parecer burra, bitolada ou antiquada e démodé.
Eu não tenho, na verdade, a obrigação de ser nada. E se eu quiser ser um nada, que seja, essa será a minha única obrigação! O meu dever, primeiramente, é comigo. Eu sou, aqui na Terra, em termos triviais e brutos, o meu melhor amigo. Pois eu é que convivo comigo mesma todos os dias da minha vida, convivo de dentro para fora, e vejo o mundo através dos meus próprios olhos. Se eu não buscar ser eu, rapidamente me sufocarei, e me matarei, e então viver dentro de mim será insuportável, porque serei eu e milhões de outros eus intoleráveis, intragáveis, oscilantes, multipolares. Por isso mesmo é que todas as mulheres de mim, já as matei. E a cada novo dia será um novo dia, mas eu permaneço sendo eu, aqui, aprendendo de mim e dos outros, crescendo e moldando-me, no entanto portando a mesma essência do meu eu, que é única, irrepetível, e só minha. Só eu.

“Todas as belezas contêm, assim como todos os fenômenos possíveis, algo de eterno e algo de transitório, de absoluto e de particular. A beleza absoluta e eterna inexiste, ou melhor, é apenas uma abstração empobrecida na superfície geral das diferentes belezas. O elemento particular de cada beleza vem das paixões, e como temos nossas paixões particulares, temos nossa beleza particular.”
Charles Baudelaire



quinta-feira, 10 de maio de 2012

MINHA PINTA

Simplesmente odeio esta pinta. Odeio. Ela sempre me passa a sensação de que não deveria estar aqui, tão folgadamente alinhada em meio a meus poros, na bochecha esquerda.
Querendo ou não, a pessoa que tem uma pinta é diferente das demais. Vive como se não a tivesse, mas tem. A todo momento, o subconsciente do indivíduo detentor da pinta faz com que esse pobre inocente acredite que a tal da pinta não está ali, esquecendo-a satisfatoriamente. No entanto, ela está. E é só cruzar com um espelho, que a verdade outra vez se desnuda: Eis a pinta! Austera, invasora, caótica, assimétrica.
Viver portando uma pinta não é tarefa fácil. Quem as possui, sim, vive, mas nem sempre se conforma ou tranquiliza. Eu me conformo, algumas vezes, quando deixo de achar que a pintinha tem alguma relevância em minha existência - meu fracasso ou meu sucesso... Mas, na maior parte do tempo, ei-la, me incomodando!
Eu tiraria esta pinta. Tiraria mesmo. Queria ter um rosto uniforme. Não gosto que a genética ou o acaso das pintas imponha-me algo que não deveria estar aqui. De fato, todo o resto se comporta, ainda que nem sempre belo: nariz grande tem sua razão de ser, olhos meio tristonhos, segundo minha mãe, também têm sua razão de ser, queixo fino tem sua razão de ser, testa larga tem sua razão de ser, dentes de ratinho têm sua razão de ser... Mas, pinta?! Não!
No entanto, nos momentos em que a dita cuja me consola, seja lá por qual motivo, quando somos só eu e ela... Não sei...
Nesses momentos, chego a pensar que esta pinta faz de mim um ser não puramente diferente, mas também especial. Chego a cogitar hipóteses tão belas para o futuro, em que passarei pela rua, e todos apontarão, deslumbrados: "Olha!... É a garota da pinta!...". E então esta pinta será até maior do que eu. E todos me conhecerão como "a garota da pinta no rosto", "a exótica garota da pinta no rosto", e não mais eu terei uma triste pinta, e sim a pinta é que me terá em seu rosto...
E o devaneio logo passa, e volto a odiá-la. Mas que seria belo, ah!, isso seria...


quarta-feira, 14 de março de 2012

EMPANTIPATIA

Só quem já provou um verdadeiro desamor à primeira vista, pode ter noção do que vem a ser a empantipatia.
"Empantipatia" é, como bem suposto, a junção de antipatia com empatia. Configura-se "empantipatia" quando antipatia e empatia coexistem de maneira inconsciente e perfeitamente instável.
Essa mescla de emoções, que na realidade consiste num só sentimento, aparece normalmente quando um indivíduo se sente pessoal e profundamente perturbado com a existência de um outro determinado indivíduo. Aí está o desamor à primeira vista, também conhecido por "nojinho", e este desamor é sempre prenúncio à tal empantipatia.
Não passa de um amor não professado. Sabe-se lá por quais medos, projeções, anseios...
Mas voltemos.
O quadro de sutil desamor logo evolui e transforma-se em antipatia bruta, nojo mortal, asco sem limites e indefinível. Você não sabe muito bem por que despreza tanto a esse seu semelhante, mas sabe unicamente que a mera pronúncia do nome da pessoa já é capaz de despertar em você as maiores crises de ira e golfadas.
Mas o que você não sabe é que toda essa antipatia, no fundo da sua mente, adormecida no mais remoto recôndito do seu coração, na verdade é a pura e simples empatia.
De fato, essa sua antipatia quase irracional pode ser perfeitamente explicada: você não se dá com determinada pessoa porque enxerga nela você mesmo. E não consegue evitar desprezá-la, para não desprezar-se, porque ela reflete você de uma maneira irrevogável. Tanto os pontos positivos, quando os negativos. Ainda que sua antipatia insista em reconhecer somente estes últimos.
Desta forma, a empantipatia ocorre quando a discórdia que você nutre para com alguém encontra explicação no fato de que você se parece com o alvo do seu desprezo muito mais do que gostaria.
Afinal, é sempre aquela história... A linha tênue do amor e ódio... Neste caso, também quem prevalece é o amor. Ou melhor, a empatia.
E tudo se dá de maneira metódica e bem familiar (você provavelmente conhece o passo-a-passo, mas de outros contextos): Você nega, mesmo depois de muito tempo desprezando aquele em quem você se projeta; em seguida, vem a raiva; após isso, a tristeza; e, por fim, a aversão se transforma em confortável aceitação.
E tudo então deságua numa curiosa amizade... Já que, apesar de enxergar no outro o seu pior, não dá para resistir a ter como melhor amigo alguém com as mesmas melhores partes de você.



sábado, 4 de fevereiro de 2012

TIRANIA DA PRESSA

Texto para a coluna Antenados, do jornal Tribuna Amapaense, em 4 de fevereiro de 2012.

É incrível como, nos dias de hoje, vivemos com pressa. E quando digo “hoje”, tenho consciência de que essa corrida maluca não se iniciou há algumas semanas ou anos, mas há décadas, talvez no momento em que começaram a modernizar os computadores e massificar seu uso, lá pelos anos 70, ou então com a internet, em 80.
Entretanto, apesar de ser possível traçar alguns pontos específicos para o surgimento – ou agravamento – da fome de velocidade ao longo da história, é certo que a pressa, assim como o esmero e a paciência, sempre existiu. O homem (sabe-se lá desde que momento remoto) convive com a pressa como quem convive com a fome e a sede. Temos pressa em evoluir, conquistar, ganhar. Temos ambição pelo progresso e, consequentemente, com essa pressa de vencer, nós somos impulsionados a inventar, inovar, ajustar as circunstâncias às nossas necessidades e caprichos.
Contudo, a diferença entre a pressa de antes e a pressa de agora é que, no passado, os meios que usávamos para alcançar certos fins consistiam em uma preparação longa, cuidadosa, atenciosa, apurada, esmerada. Por exemplo, quando Alexander Graham Bell comprou de Antonio Meucci o arquétipo de um estranho invento chamado “telefone”, Bell certamente tinha pressa em aprimorar tal engenhoca. Mas essa pressa não fez com que o cientista atropelasse a si mesmo. Pelo contrário, a pressa de Graham Bell e de muitos outros personagens da história, era caracterizada pela paciência e minúcia com que se dedicavam às pesquisas.
Hoje, o que vemos é a tecnologia da pressa aliada a um estilo de vida nada saudável e nada feliz, ao contrário do que sugere a superfície. A pressa de hoje nos impulsiona não ao progresso (afinal, tudo parece já ter sido descoberto e inventado), mas sim a uma rotina frenética, estressante. E nosso principal objetivo nessa rotina é fazer o máximo de coisas (im)possíveis num curto espaço de tempo, entupindo assim os dias de uma enormidade de tarefas e afazeres que nos prometem um ciclo de vida escravista pelos próximos trinta, quarenta anos.
Temos pressa para tudo. Antes mesmo de fabricarmos um pensamento razoável na cabeça, antes até mesmo de abrirmos os olhos, o que vem nos brindar logo de manhã é a pressa, a pressa e suas demandas. E, se tempo é dinheiro, todo mundo também tem pressa em multiplicar tal tempo, tornando-o assim uma máquina de bilionários.
Leda ilusão...
O tempo, a pressa, o dinheiro, tudo isso é mais importante do que acordar de manhã e ter consciência de si mesmo? De onde se está e das boas possibilidades que se tem? E não me venha falar em derretimento das calotas polares, crise mundial, superaquecimento da Terra... Eu não tenho pressa em fatalizar nada! Eu quero é perceber que estou viva, e não ser engolfada pela falta de tempo. Falta de tempo até para sorrir, para gargalhar, para lacrimar de alegria.
Com ganas de otimizar nosso tempo, tudo tornou-se virtual. Mas, sinceramente, isso também é um saco! Compras, contas, interação social... Tudo pela internet?! Veja essa nova geração que emerge (ou será que já emergiu, tamanha a sua pressa?). Será, certamente, uma geração mais High-Tech e informacional que a anterior. No entanto, eu me pergunto: Será mais viva, será mais “Carpe Diem”, e todo aquele papo bucólico e bacana de “aproveitar o dia”?
Não!
A partir de agora, as novas gerações ascendem com uma pressa nociva entranhada em todas as áreas da vida. Querem amadurecer na marra e, em nome desse afã, pintam a casca de rosa e amarelo, quando o interior ainda está verde. O pior é que as velhas gerações também se deixam contaminar por tal febre e aderem-na, querendo transformar a vida numa maratona sem linha de chegada.
Acho que a única coisa boa na pressa é poder preparar um Miojo em menos de três minutos. Só que até mesmo esse curioso e ágil ritual gastronômico começa a desgastar seu charme. Porque, a cada vez que um pacotinho de macarrão instantâneo é aberto, e uma porção de água é colocada sobre a boca do fogão (o mesmo é válido para micro-ondas), mais e mais mentes se perguntam, aflitas: “Não dá pra ferver mais rápido?!”.

domingo, 22 de janeiro de 2012

FAMA VIRAL

Texto para a coluna Antenados, do jornal Tribuna Amapaense, em 21 de janeiro de 2012. Nesta última semana, os dois assuntos mais comentados na internet e nas emissoras de televisão foram: O possível estupro no programa Big Brother Brasil e Luiza, que estava no Canadá. Se você não sabe quem é Luiza, eu explico: A menina teve seu nome citado pelo pai em uma propaganda de imóveis na qual, depois de enumerar as suítes, ambientes e clube de lazer do prédio, o homem dizia: “E é por isso que eu fiz questão de reunir toda a minha família, menos Luiza, que está no Canadá, para recomendar este empreendimento que eu assino embaixo”. O vídeo virou febre na internet. Reproduziu-se de modo viral, e a propaganda já tem 5 milhões de visualizações, além de outros arquivos relacionados ao assunto. Agora o pai da moça, Gerardo Rabelo (colunista social paraibano), junto com o resto da população brasileira tentam entender e explicar como se deu tamanho sucesso. De acordo com site da internet, onde consta uma entrevista de Gerardo e do produtor do comercial, “toda essa história começou quando o pai de Luiza, há cerca de 15 dias, foi convidado para participar do comercial em João Pessoa. A filha Luiza não estava na ocasião devido ao intercâmbio no Canadá, e os produtores acharam que Gerardo deveria dar alguma explicação sobre a ausência da filha. O vídeo, após cair no YouTube, acabou virando uma grande piada, e claro, um ótimo negócio”. Luiza já está de volta ao Brasil. A pretexto, para dar cabo às piadinhas cibernéticas e frear o vírus “Luiza, que está no Canadá”. Contudo, há quem diga que a jovem voltou mais cedo do intercâmbio simplesmente para gozar as delícias da fama, por mais efêmera que possa ser. Assim ou assado, uma coisa é certa: O vírus já sofreu mutação e agora vêm em sua versão 2.0 – “Luiza, que não está mais no Canadá”. Pelo visto, teremos ainda mais quinze minutos de fama. O segundo tópico mais explorado na rede e em todo Brasil, foi o suposto estupro ocorrido no reality show de Pedro Bial. Não transmitiram a cena libidinosa na TV aberta, pois o programa não estava mais sendo exibido quando tudo aconteceu. Entretanto, aqueles que possuem o “pay-per-view” conferiram integralmente o desenrolar da “transação”. Os telespectadores com acesso a cena começaram a fazer algum barulho na internet, comentando o provável crime. Monique, a vítima, parecia estar dormindo durante o estupro, visivelmente alcoolizada. Rapidamente os vídeos se alastraram pela internet. E o participante assanhadinho, Daniel, foi expulso do programa, com menos de uma semana. Desde o dia do ocorrido, 15 de janeiro, a polícia já esteve na casa do Big Brother Brasil, e muitas outras implicações judiciais já eclodiram, atingindo todos os envolvidos, inclusive os produtores do programa. A polêmica rendeu até 8 pontos de audiência para a emissora rival, de Bispo Macedo. O programa “Fala Brasil”, da Rede Record, conseguiu ultrapassar o “Mais Você”, de Ana Maria Braga, falando sobre o próprio BBB 12. Agora, o ex-big brother Daniel tenta voltar à disputa. Para saber se ele vai conseguir ou não o seu regresso, só assistindo aos próximos capítulos do “jogo”. Eu não me arrisco. O que podemos aprender com isso tudo (se é que há algum aprendizado para além da alienação/indignação maciças) é que, hoje, só consumimos porcaria. Lixo informacional, quando não humano. Estamos bombardeando a nós mesmos com tantas discussões inúteis, que podem até gerar algumas observações interessantes a respeito do caráter humano, mas que não vão nos moldar rumo a uma cidadania concreta ou postura social mais nobre. Nem nos brindarão com uma porção eficaz e responsável de criticidade, consciência, e todos aqueles ideais politicamente corretos, que a cada dia parecem um ideal mais distante e démodé. A fama viral que a internet proporciona a alguns sortudos indivíduos – os quais muitas vezes não fazem nada para merecê-la, apenas integram a “sociedade paraibana” ou bolinam uma pobre menininha bêbada em rede nacional –, só comprova nossa fome de lixo. Talvez estejamos buscando um escape para a seriedade imposta pelos problemas do mundo. Talvez queiramos só rir à custa de uma elite que frequenta o Canadá, ou falsamente nos indignar e espernear perante tudo o que aparece na televisão, já que Bial afirmou ser esta a “ágora brasileira”. Talvez tudo isso junto. Talvez nada disso. Não há nada a saber. O que há para saber? Que a crise continua? Que Elis Regina morreu? Ora... Luiza não se importa com isso, imagino eu. Muito menos Daniel. E, se não importa a essas duas personalidades, ícones consagrados pela aclamação popular, não importa a nenhum de nós também.

VEROSSIMILHANÇAS DE GRISELDA E TEREZA CRISTINA


Texto para a coluna Antenados, do jornal Tribuna Amapaense, em 7 de janeiro de 2012.

Não existe nada de verossímil em Tereza Cristina Velmont, muito menos em Griselda Pereira. Ou seja, essas duas personagens do horário nobre são seres inventados que, por mais redundante que possa parecer, jamais ocorreriam na vida real.
A começar pelos nomes. Onde no Brasil uma pessoa de fina estirpe se chama "Tereza Cristina"? Que combinação mais esdrúxula! Bem, até há certas misturas às quais já nos adaptamos. Exemplos: Ana Paula, Ana Júlia, Paulo Vitor, Carlos Eduardo, e etc. Mas, Tereza Cristina?! Eca.
Já sobre a mocinha do enredo, nunca conheci, nem ouvi falar de alguém que conhecia alguém que conhecia alguém de nome “Griselda”. Tudo bem que a "Griseldinha" não é brasileira, é portuguesa, mas duvido que existam muitas outras na terra dos lusitanos.
De volta à nossa vilã Tereza Cristina, falemos agora de sua conduta pérfida no agir e no vestir. Pode até ser que ela traje Versace, mas será que precisa usar sempre tudo “combinandinho”?! Vestido azul, colar azul, brinco azul, lingerie azul, lente de contato azul... Ufa! A ricaça poderia aprender mais com seu pajem colorido, o Crodoaldo (este nome então não vamos nem comentar...).
E sobre o rastro de crimes e malvadezas que Tereza Cristina deixa atrás de si? Não há consequências? O mau-caratismo da mulher é outra inverossimilhança das brabas... Ela já matou na escada, matou na estrada, matou no hospital, tocou fogo na casa da portuguesa... E sempre escapa impune. Com tanto talento e criatividade, difícil é acreditar que nunca arrumou um ofício para dar sentido à sua vida.
A respeito de Griselda, acrescento: se eu ganhasse 50 milhões, será que continuaria por aqui, chorando as pitangas com minhas comadres (sem lhes dar um mísero milhão), suando litros a fim de manter uma lojinha de ferramentas, enquanto minha filha continua a vender cremes, meu filho numa pensão, e o outro desempregado? É claro que não! Eu mandaria todo mundo pra Sorbonne e ia cuidar dos trâmites pra fazer meu pé-de-meia lá na China, enquanto curtia horrores em Ibiza.
Enfim. O que quero dizer é que, apesar de ter um apelo popular incrível, devido ao exagero tragicômico de seus personagens, a novela “Fina Estampa” é uma impossibilidade por si só. Como já dito, a trama pode até fazer sucesso, porque os telespectadores gostam de ver suas mazelas e virtudes ali, maximizadas... Mas não por muito tempo. Essa fanfarronice toda enjoa. Os personagens são extremamente caricatos. Não há neles as camadas das cebolas, que só os melhores autores conseguem descascar capítulo após capítulo.
Volto a afirmar: Nenhuma daquelas pessoas existiria na vida real, simplesmente porque são boas demais, ou mesquinhas demais, ou chatas demais, ou perfeitas demais, ou malvadas demais, ou nada de mais... Ninguém é assim em nenhum dos cantos do globo. Todos nós somos dotados de imperfeições e requintes, singeleza e capricho, surtos, tiques, afetações, trombas, tapas, algodão e veludo. Coexistindo. Somos personagens esféricos, vivendo novelas reais; não quadrados e óbvios, enfadonhos, nem estupidamente maravilhosos, glamorosos, audaciosos e gostosos sempre.
Desse modo, os nossos programas, nosso entretenimento em geral, devem refletir aquilo que somos, pois esta também é uma maneira de entendermos melhor a condição humana. Quando, por exemplo, assistimos a filmes ou ouvimos músicas nos quais há uma humanidade tão visceral e, ao mesmo tempo, uma beleza tão angélica, nós começamos a nos compreender melhor.
Não pretendo aqui afirmar que, para prestar, nossas distrações precisem ser exaustivamente sérias, sisudas e espartanas. Não é isso. As próprias telenovelas também servem para escapulirmos um pouco das novelas da vida real, não?... Pois bem, que seja válvula de escape, que seja invenção, criatividade, uma dose certa de exagero. Mas até o surrealismo conserva em seu nome o radical palpável da realidade.
A saga Harry Potter, por exemplo. Apesar de um aparente besteirol mistificado, conserva algo indispensável à verossimilhança, que supera a minúcia de sua autora: todos aqueles seres bizarros que lemos ou vimos são recheados de dilemas e questões demasiado humanos.
Assim, o que proponho não chega a ser nenhuma revolução televisiva ou qualquer prepotência do gênero. Também não sugiro que se troque o controle remoto por um exemplar do Nietzsche. Quero apenas, com todo o meu charmoso pedantismo, sugerir à rede Globo que me contrate para escrever a próxima novela das nove. Serei extraordinária, sem perder o elã da realidade.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

MORRA, FANTA LARANJA!


A Fanta Laranja é o pior veneno já produzido por uma fábrica de detergentes. Como todos sabem (ou desconfiam), este elixir funéreo de cor laranja berrante foi criado pela própria Coca-Cola durante a Segunda Guerra Mundial, a fim de vender na Alemanha nazista e não ter seu lucro europeu ameaçado por causa de um incidentezinho internacional e algumas pequenas desavenças capitalistas.
Assim, sua origem e ascendência duvidosas só comprovam minha tese: Fanta Laranja é veneno.
Fanta Laranja é veneno e todos os seus adeptos fervorosos deveriam ser fervidos numa panela cheia deste "refrigerante".
O líquido que tem a cor malévola das abóboras de Halloween é tão detestável, que o mero pronunciar de seu nome já causa aftas na boca.
A Fanta Laranja é áspera, ruim e má, e sua acidez transforma a região bucal em ninho de formiga sempre que alguém ingere esta porcaria gaseificada. Sem falar naqueles pelinhos e farelos que ficam flutuando no interior da garrafa... Vamos levar a Fanta Laranja a um campo de concentração e queimá-la!
Beba Fanta Uva. Esta sim.